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terça-feira, 6 de maio de 2014

FRAGMENTOS PARA A COMPREENSÃO DA HISTÓRIA

Geopolitika : Poderia falar-nos um pouco mais sobre a rebelião da al-Qaida na Síria, movimento cujas relações com os Estados Unidos são no mínimo contraditórias à vista das suas acções no terreno? Você disse numa entrevista que as relações entre Abdelhakim Belhadj e a OTAN eram praticamente institucionais. Para quem faz a guerra a al-Qaida na realidade?
Thierry Meyssan : No princípio, a al-Qaida era apenas o nome de uma base de dados, do ficheiro informático onde figuravam os mujahedín árabes enviados para lutar contra os soviéticos no Afeganistão. Por extensão, deu-se o nome de al-Qaeda ao meio Jihadista em que se recrutava esses mercenários. Depois, designou-se como al-Qaida os combatentes agrupados à volta de Bin Laden e, por extensão, a todos os grupos no mundo que se reclamam da ideologia de Bin Laden.
Segundo os períodos e as necessidades, essa nebulosa tornou-se mais ou menos numerosa. Durante a primeira guerra do Afeganistão, a guerra da Bósnia e as guerras da Chechénia estes mercenários eram considerados «combatentes da liberdade», porque lutavam contra os eslavos. Posteriormente, durante a segunda do Afeganistão e a invasão do Iraque, foram considerados «terroristas» porque atacavam os soldados norte-americanos. Depois da morte oficial de Bin Laden, converteram-se novamente em «combatentes da liberdade», nas guerras contra a Líbia e contra a Síria, porque agora lutam do lado da OTAN.
A realidade é que esses mercenários sempre estiveram sob o controlo dos Sudeiris, a facção pró-americana e arqui-reaccionária da família real da Arabia Saudita, especificamente debaixo do controlo do príncipe Bandar Ben Sultan. Este último, a quem George Bush pai apresentou sempre como o seu «filho adoptivo» -ou seja, como o filho varão inteligente que gostaria de ter tido – actuou sempre por conta da CIA. Inclusive na época em que a al-Qaida lutava contra os soldados norte-americanos, no Afeganistão e no Iraque, fazia-o no interesse dos Estados Unidos na medida em que aquilo permitia justificar a presença militar americana.
Nos últimos anos os líbios tornaram-se maioritários na al-Qaida, de modo que a OTAN utilizou-os para derrubar o regime de Moummar el-Kadhafi. Quando conseguiram derrubá-lo, nomearam governador militar de Trípoli o número 2 da organização, Abdelhakim Belhaj, apesar da justiça espanhola reclamar a sua captura devido à sua presumível responsabilidade nos atentados de Madrid. Posteriormente enviaram-no para a Síria, junto com os seus homens. Para os transportar, a CIA usou os meios do Alto Comissariado para os Refugiados, graças a Ian Martin, o representante especial de Ban ki-Moon [o secretário-geral da ONU] na Líbia. Os supostos refugiados foram levados para vários acampamentos na Turquia que serviram como base de retaguarda para atacar a Síria e cujo acesso foi interdito à imprensa e aos parlamentares turcos.
Ian Martin é outro conhecido dos leitores da Geopolitika. Foi secretário-geral da Amnistia Internacional e depois foi representante do Alto-comissário para os Direitos Humanos na Bósnia-Herzegovina.
Geopolitika: A Síria converteu-se em teatro não apenas de uma guerra civil como também no de uma guerra mediática e de manipulação. Como testemunha directa, como alguém que está no lugar dos factos, queremos perguntar-lhe o que se passou verdadeiramente em Homs e em Hula?
Thierry Meyssan: Eu não sou testemunha directa de que se passou em Hula. Mas fui o 3º elemento neutral nas negociações entre as autoridades sírias e as autoridades francesas durante o cerco do Emirato Islâmico de Baba Amro. Os jihadistas tinham-se entrincheirado nesse bairro de Homs, de onde expulsaram os infiéis (os cristãos) e os hereges (os xiitas). Na realidade, só umas 40 famílias sunitas permaneciam lá, no meio de uns 3 000 combatentes. Esta gente tinha instaurado a chaaria, e um «tribunal revolucionário» que condenou mais de 150 personas a ser degoladas em público.
Este autoproclamado Emirato era dirigido em segredo por oficiais franceses. As autoridades sírias queriam evitar ordenar o assalto e negociaram com as autoridades francesas para lograr a rendição dos rebeldes. Em resumo, os franceses conseguiram sair da cidade durante a noite e fugir para o Líbano, enquanto as forças leais entravam no Emirato e os combatentes se rendiam. Assim evitou-se um banho de sangue e no final houve menos de 50 mortos na operação.
Geopolitika : Além dos alauitas, os cristãos também foram convertidos em alvo na Síria. Poderia falar-nos um pouco mais da perseguição contra os cristãos nesse país e do porquê da suposta civilização ocidental, cujas raízes são precisamente cristãs, não dar mostras da menor solidariedade para com os seus correligionários?
Thierry Meyssan : Os jihadistas arremetem prioritariamente contra quem está mais perto deles: em primeiro lugar, contra os sunitas progressistas; a seguir contra os xiitas (incluindo os alauitas) e só depois estão os cristãos. Geralmente torturam e matam muito poucos cristãos. Mas por outro lado expulsam-nos sistematicamente e roubam todos os seus bens. Na região próxima da fronteira norte do Líbano, o Exército Sírio Livre deu uma semana aos cristãos para fugirem dali. Deu-se um êxodo brutal de 80 000 pessoas. Os que não fugiram a tempo foram massacrados. O cristianismo foi fundado em Damasco por São Paulo. As comunidades sírias são anteriores às do Ocidente. Conservaram os ritos antigos e uma fé extremamente forte. Na maioria são ortodoxas. As que estão vinculadas a Roma conservaram os seus ritos ancestrais. Nos tempos das Cruzadas, os cristãos do Oriente lutaram junto com os outros árabes contra a soldadesca enviada pelo Papa. Hoje em dia estão a lutar junto com os seus concidadãos, contra os jihadistas enviados pela OTAN.

Dezembro de 2012

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