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segunda-feira, 9 de junho de 2014

SUGESTÃO DE LEITURA

Portugal A Flor e a Foice é um livro de J. Rentes de Carvalho publicado em Portugal agora, embora escrito em 1975 para o público holandês.

É um livro de teor histórico/documental que originariamente pretendia situar os acontecimentos da Revolução de 1974 na perspectiva interpretativa do passado de Portugal desde os primórdios da nacionalidade, bem como nas características do ser e sentir português ao longo dos tempos.


A grande limitação do livro é reproduzir ideias, sentimentos e conclusões, datadas de 1975, sem absorver correções, aditamentos ou extensões que a distância para o presente certamente e inevitavelmente traria. É livro datado, escrito a quente, e escrito por um estrangeirado no País das Tulipas (não é preconceito ou insulto!), alguém que “vê” de fora, muitas vezes por impressões/flashes de viagens dentro das fronteiras internas.

Subsistem contudo reflexões mais substanciadas, mais intemporais sobre Portugal: a visão messiânica da História, os mitos do sebastianismo e do salazarismo, o papel da Igreja e da Monarquia, o falhanço da República de 1910, o conservadorismo atávico, o pessimismo irracional. Não faltam referências aos tristes e ridículos ocupantes das cadeiras do poder real ou republicano, bem como às tramas alcoviteiras ou paroquiais onde o destino de Portugal se encalhou.

Os tempos mais recentes, nomeadamente após a subida ao poder de Salazar, são interpretados de forma mais polémica, não faltando anotações sobre uma incapacidade de agir dos sectores da oposição não-comunista, bem como um pretenso alheamento das elites culturais, e por extensão do povo, de uma solução democrática e progressiva de futuro. Aqui há falta de rigor histórico e de enquadramento das condições reais de oposição e de resistência. O aziúme vulgariza por vezes o discurso.  

O país que resiste é, para Rentes de Carvalho, o que emigra ou que deserta da guerra colonial. Verdade incompleta, embora aplicável á sua experiência pessoal, já que a pátria foi e foi justamente assumida na literatura e na canção como local de exílio, desconforto, prisão, silenciamento. E houve heróis que não emigraram.

Não se pense contudo que o livro não é (ou foi) interessante, nomeadamente para os holandeses em 1975, dotados de experiência histórica diferenciada, e estupefactos com acontecimentos bizarros na ponta mais ocidental da Europa. Mesmo que desencantado, é um olhar com algum compromisso. 

Li-o também como um grito a favor da modernidade e progresso social dos seus compatriotas. E um documento requisitório sobre a estagnação de promessas e esperanças que apontavam para mudanças radicais e que desaguaram infelizmente em pântanos sociais e económicos que a História reflectirá de forma igualmente condenatória. 
     
CR

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