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domingo, 3 de agosto de 2014

OS MEUS TRAUMAS IDEOLÓGICOS

A propósito do buraco financeiro (3,6 mil milhões de euros de prejuízos) que a gestão Espirito Santo cavou no BES, alguém escreveu no jornal Público que “Estado pode ficar com 70% do BES sem traumas ideológicos” (Pedro Silva Carvalho, 1 de Agosto de 2014).

Considero surpreendente que se diga que o Estado, tendo supostamente 6,4 milhões de euros da troika para tapar buracos na banca, o deva utilizar em grande parte na salvação do BES, alheias as responsabilidades da gestão da família Espirito Santo ou dos acionistas. “Os bancos tem de ser nacionalizados quando têm de ser nacionalizados e ponto final.” Pois.

Se eu dissesse que os bancos têm de ser nacionalizados quando têm lucros, certamente cairia o carmo e a trindade na defesa dos investidores acionistas, defraudados no património ou expectativas. O BES constituiria uma pérola intocável, exemplo do sucesso do capitalismo e do direito á propriedade privada. Mas no caso em causa, o governo, a supervisão e as entidades de controlo só viram prejuízos quando tocou o sino a rebate. E aqui já haverá um BES bom e um BES mau.

 O Estado pode ficar com 70% do BES, dizem. Do bom ou do mau? Do BES com prejuízos impagáveis ou do outro? Esse é o meu “trauma ideológico”, o limite dos “pruridos ideológicos”, que me não obrigam como contribuinte a pagar as dívidas dos outros. Mesmo o Banco de Portugal, evidentemente pouco célere ou oportuno a intervir no âmbito das suas competências, não me compromete. Não gosto, nunca gostei, do ar sonso do senhor Carlos Costa, nem das suas opiniões. Nunca votei no Partido do senhor Costa (já sei que ele formalmente não é homem de partido!), nunca especulei na Bolsa, nunca privei com imparidades ou contas offshores. Não preciso de acreditar no Bento do Conselho de Estado, nem no Partido do senhor Bento (já esqueci que ele formalmente não é homem de partido!).

Que a família Espírito Santo venda as pratas, as faianças, os serviçais, os hotéis, as Comportas, os iates, as cumplicidades, as amizades mais intimas ou as mais protocolares, que se matem ou esfolem, que me interessa… deixem-me o privilégio de sobreviver em democracia e não ser conivente nos roubos dos outros. Ideológico, claro, o privilégio.

CR

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