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domingo, 15 de março de 2015

Paris, cidade das trevas?


A história chega de Paris mas nada tem a ver com as cegonhas que no século passado traziam os bebés para as famílias afortunadas – os dos pobres, sem dinheiro para passagens aéreas, apareciam nas folhas de couve –, nem com o conhecido lema «Liberdade, Igualdade, Fraternidade» de que a França tanto se diz orgulhar, nem tão pouco com a mediática campanha do «Je suis Charlie» que correu mundo em nome da liberdade de expressão após o bárbaro ataque de 7 de Janeiro contra o jornal satírico Charlie Hebdo.

A história que agora nos chega de Paris começou em finais de Janeiro, envolve autores, editoras e universidades, e é o testemunho de que o «ovo da serpente» não morreu 70 anos depois da derrota do nazi-fascismo. A coisa conta-se depressa. O bibliotecário da biblioteca Pierre Mendès-France da universidade da Sorbonne Paris 1, face a uma proposta para incluir no acervo da instituição a obra «As guerras de Staline», de Jeffrey Roberts, publicada pelas edições Delga, respondeu desta forma: «a obra proposta, apesar de escrita por um universitário, não nos parece a priori apresentar a neutralidade histórica e científica necessária à sua eventual integração no nosso património. Os restantes títulos publicados pela editora também não». (O sublinhado é do próprio autor da mensagem).

Indignado, o autor da proposta para aquisição da referida obra, que o bibliotecário tomou por um aluno, denunciou o caso nos meios académicos e daí à praça pública foi um passo, estando neste momento a correr uma petição na Internet contra a censura maccarthista nas bibliotecas universitárias dirigida ao presidente da Universidade de Paris 1, Philippe Boutry.

Vale a pena dizer que Jeffrey Roberts, um historiador reconhecido como de «referência» na comunidade académica, está excluído de todas as bibliotecas universitárias de França, com excepção de sete (e nestas apenas existe a versão inglesa da obra em causa). Quanto à pequena editora independente que a universidade pôs no Index, tem na sua carteira de autores nomes como Rémy Herrera, Samir Amin, George Lukás, Domenico Losurdo, Jean Salem, Henri Aleg e... Álvaro Cunhal.

Esta «liberdade de expressão» dos que tentam reescrever a História e impor o pensamento único tem um nome: censura.


Anabela Fino (em Avante)

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