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quinta-feira, 26 de maio de 2016

José Rodrigues dos Santos é manipulador ou ignorante?


O autor da ideia de “como não há os livros que gostaria de ler, escrevo-os eu” voltou a brindar-nos com disparates. Desta vez, a vítima da sua ignorância foi o marxismo e principalmente a cultura democrática

O ódio de José Rodrigues dos Santos à esquerda é já bem conhecido. Recentemente vimos como, no seu estilo apocalíptico, dramatizou a notícia de que a dívida pública estava próxima dos 130% do PIB. O motivo é claro: quer atacar a solução actual de um Governo PS apoiado pela esquerda. A mesma notícia nos tempos do governo das Direitas não mereceu esse escândalo. Uma vergonha para o jornalismo português.

Outro episódio que ilustra bem o estilo faccioso, apocalíptico e manipulador de José Rodrigues dos Santos (JRS) foram as vergonhosas reportagens nas vésperas das eleições gregas de Janeiro de 2015, quando já se previa a vitória do Syriza. Há décadas que não se ouvia na TV tanta ênfase e tanta repetição da expressão “extrema-esquerda”.

O aprendiz de feiticeiro JRS subiu agora um degrau académico na manipulação, chegou à história das ideias políticas. Em entrevista ao "Diário de Notícias", diz que os seus livros “'As Flores de Lótus' e 'O Pavilhão Púrpura' mostram realidades” e que “o facto de que o fascismo é um movimento que tem origem marxista, por exemplo, é uma das demonstrações feitas nesta saga”. A ficção de JRS demonstra! Que bela ciência política!

Na entrevista ao jornal "i" insiste nessa ideia e vai mais além: “Uma das coisas que hoje não se sabe, mas que é verdadeiro, é que o fascismo é um movimento de origem marxista”, “pouquíssima gente sabe isto”, sublinha. E depois, arrogando-se de exímio conhecedor da história das ideias políticas, decreta que o fascismo, “em certos aspectos, é mais ortodoxamente marxista do que o comunismo”.

Onde acaba a manipulação e começa a ignorância de José Rodrigues dos Santos é um segredo da "Fórmula de Deus". O mais relevante nesta história é que a vítima principal deste discurso de ódio é a cultura democrática. A derrota dos nazis pelos Aliados pôs fim à Segunda Guerra Mundial no solo europeu e assentou bases para uma cultura democrática antifascista. As resistências antifascistas uniram em vários países europeus correntes de esquerda e de direita, nelas participaram com papel muito relevante, pagando frequentemente com a própria vida, muitas e muitos socialistas e comunistas. Não estando em causa as críticas que é necessário fazer ao socialismo real, é vergonhoso fomentar a confusão entre as teorias e ideologias da emancipação das classes trabalhadoras e as ideologias racistas, reaccionárias e elitistas.

O ambiente da crise do capitalismo à volta de 1929 e a incapacidade dos regimes liberais para lhe fazer face abriram caminho à ascensão dos fascismos. Os reaccionarismos decadentes que vinham do século XIX e as linhas mais duras de vários conservadorismos souberam modernizar-se e ergueram poderosas ideologias de massas que parasitaram outras ideias e culturas populares. Gente de todos os quadrantes políticos anteriores aderiu aos movimentos fascistas, gente de todos os quadrantes foi perseguida e assassinada pelos fascistas. Muitos populares cristãos e democratas cristãos fizeram parte dos primeiros governos fascistas, outros foram seus opositores heróicos. Se eu fosse um manipulador como JRS, dizia só a primeira parte da frase anterior.

Estamos num péssimo momento para cair na armadilha de colocar a esquerda e a extrema-direita no mesmo saco. Ainda ontem, no país natal de Hitler, estivemos à espera de saber se era eleito um presidente de extrema-direita. Ganhou o candidato dos Verdes, para alívio de todos os democratas. Em França, Marine Le Pen é forte candidata a repetir o feito de, no mínimo, quase ganhar as presidenciais. Na Alemanha, um partido da ultradireita também faz caminho. Na Polónia e na Hungria, ultraconservadores e neofascistas vão tomando conta da política. Por toda a Europa, com mais ou menos força, regressam com novas roupagens as ideias antidemocráticas, xenófobas e islamofóbicas.

O discurso de José Rodrigues dos Santos não é só estúpido, é extremamente perigoso para a cultura democrática.


Bruno de Góis

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