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domingo, 19 de junho de 2016

O POVO E A(S) SUAS ELITE(S)


No recente 10 de Junho, Marcelo Rebelo de Sousa na qualidade de Presidente da República Portuguesa, surpreendeu quando falou do Povo e das Elites. A tese exposta era a de um confronto entre um Povo bom, endeusado no seu percurso histórico, melhor que as Elites, más, culpabilizadas pelos falhanços, dos períodos de crise.

Marcelo nasceu da política e na política sempre se moveu. Marcelo, até por tradição familiar, pertence às “elites” deste País, com intervenção directa, na formação de opinião, na mobilização de consensos e compromissos, nas Instituições do Estado, na Universidade, na Comunicação Social, na política partidária. Vindo de quem vem, a tese exposta no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas só poderia ser interpretada como uma profunda autocrítica pessoal e de uma classe social mais favorecida ou uma enorme e oportunista bajulação do “povo”, sem relevância intelectual.  

Acho que Marcelo Rebelo de Sousa não tem razão. Não há um Povo homogéneo, entidade em estado puro, isento de pecados, como o individualismo, ou a preguiça, ou a ganância ou a luxúria. Não há um Povo único, solidário, com projecto, iniciativa, busca de conhecimento e consciência social. Predominam aqui e agora expressões e afirmações de incultura, alienação, boçalidade e ética duvidosa. Do dito Povo emergiram as burlas gigantescas, os negócios ruinosos, as fidelidades mais atentatórias dos interesses nacionais. Os nomes, que ouso não citar, fazem capa de jornais.

O povo (ou se quiserem o Povo, de Marcelo) em democracia possui instrumentos de delegação de representação dos seus interesses. Vota e elege (muitas vezes mal!) em períodos regulares. Confirma muitas vezes a sua vontade, dispensando analisar sequer as alternativas. Abstém-se quando, tantas vezes, se exige participação e decisão. Premeia quem os rouba, ou deles se afasta. Chora lágrimas de crocodilo pelas consequências da sua acção.

Mas as Elites, será que existem? Tenho para mim que em Portugal infelizmente não há elites. Não há uma elite cultural organizada, não há uma elite educativa influente, não há uma elite com acção social ou empresarial. Há, sim, instituições credíveis como algumas Universidades, alguns Sindicatos, alguns Partidos Políticos, algumas Empresas, algumas Associações, alguma (pouca) Comunicação Social. E claramente há uma não muito vasta lista de notáveis, gente com projecto, alma e visão de futuro, sentido patriótico e da História. Como foram, entre outros, Agostinho da Silva, Albino Aroso ou Álvaro Cunhal.

O futuro desejado será o encontro difícil do País, todo o País, com a História. Com roturas necessárias.


CR

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