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sexta-feira, 10 de junho de 2016

Tudo normal: Paulo Portas no Mota-Engil


A constante troca de lugares entre os cargos políticos estatais e dos grupos monopolistas, num e noutro sentido, é uma das caraterísticas do capitalismo monopolista de Estado.
Foi por isso que Pedro Tadeu inicia o título do seu texto com «tudo normal».
Como será normal o seu regresso à política nas mesmas ou noutras funções. Assim foi com Jorge Coelho, com Eduardo Catroga… e assim continuará a ser até ao dia em que o povo português resolva assumir o futuro nas suas próprias mãos.

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Quando Paulo Portas impôs a Passos Coelho que fosse o CDS a controlar a relação do executivo com as empresas, estava a defender o que achava ser a melhor solução para o país e para o governo de coligação com o PSD ou estava a preparar o dia em que sairia da política?
Quando Paulo Portas exigiu que o seu Ministério dos Negócios Estrangeiros fosse o motor da promoção das exportações das empresas nacionais, quando reivindicou o protagonismo da diplomacia dos negócios, acreditava ser essa a forma mais eficaz de conseguir resultados ou preparou o resultado de ontem, o anúncio da sua contratação pela Mota-Engil?
Quando Paulo Portas se demitiu “irrevogavelmente” do governo e aceitou, afinal, permanecer no executivo, promovido a vice-primeiro-ministro com a coordenação económica, estava a conquistar o quê? Depois de Passos ter “despedido” o independente Álvaro Santos Pereira do Ministério da Economia, ocupado depois pelo membro do CDS António Pires de Lima, estivemos perante um rearranjo do poder político ou um arranjo para Portas ter futuro profissional?
A contratação de Paulo Portas pela construtora Mota-Engil (onde outro político, Jorge Coelho, foi CEO mas sete anos depois de ter sido ministro) acontece após a ex-ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, ter anunciado que acumulará o cargo de deputada com a de administradora não executiva da gestora financeira Arrow Global e o seu homólogo no anterior governo PS, Teixeira dos Santos, aspirar à liderança do BIC, de onde saiu outro político, Mira Amaral.
Acontece quando os semipolíticos Leonor Beleza e Rui Vilar estão apontados para vice-presidências da Caixa Geral de Depósitos. Acontece quando o ex-comissário europeu António Vitorino, sempre em multitarefa, sai agora dos CTT para ir para o Santander, o banco que ficou com o Banif onde estava empregado, antes da resolução, outro ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado. Ah! E houve um primeiro-ministro, José Sócrates, a trabalhar numa farmacêutica…
A crise de 2008, a vinda da troika em 2011, o terramoto na banca, a explosão de moralismo contra a promiscuidade da política e dos negócios, os casos BES e PT, os sucessivos escândalos, já rotinas serenas, não fizeram a diferença. E António Mexia, outro ex-ministro, até diz que ganhar dois milhões por ano na EDP, onde também anda Catroga, nada tem de especial.
O jovem Portas jornalista, hoje, desancaria em mil pedaços o maduro Portas, político/gestor que sonha ser presidente da República. Eu fico, apenas, amargurado por, neste país, nesta Europa, neste mundo, neste sistema, a pior expectativa confirmar-se sempre.


* Jornalista.

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