um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

terça-feira, 5 de julho de 2016

uma opinião

PORTUGAL 1, ESPANHA 0

Esta noite quando vi na televisão os dirigentes de Unidos Podemos aceitar visivelmente consternados os resultados das eleições gerais de Domingo (26/06) que foram francamente decepcionantes veio-me à cabeça uma lembrança que me fez reflectir. Faz pouco tempo que vi um vídeo do programa “Otra vuelta de Tuerka” onde Pablo Iglesias entrevista destacadas personagens do mundo da política e da cultura. Nessa encontro o “rabo-de-cavalo” entrevista a eurodeputada do Bloco de Esquerda de Portugal (partido de referência do Podemos) Marisa Matias.

A entrevista data da primavera de 2015 (Pablo Iglesias era também eurodeputado) e tanto o entrevistador como a entrevistada dissertaram sobre diversas questões (infância e vida da entrevistada, referências ideológicas, visão política sobre temas como os movimentos sociais, a construção da hegemonia, a União Europeia…). Em dado momento da entrevista falam do histórico Partido Comunista Português, onde ambos reconhecem o papel do PCP na luta contra a ditadura fascista de Oliveira Salazar, durante a Revolução dos Cravos e nos movimentos de trabalhadores e popular de Portugal; ambos coincidem em que o PCP é um partido “ultrapassado e útil ao sistema” já que o seu “sectarismo” os impede de chegar a outros estratos sociais para impulsionar um processo de mudança.

Pouco depois recordei que em Outubro do passado ano deram-se eleições gerais no vizinho país ibérico. Então perguntei-me: Que balanço se pode fazer do resultado das eleições portuguesas em comparação com os resultados das espanholas? E indo mais longe. Que balanço se pode extrair da táctica seguida pelo Podemos (ou Unidos Podemos) e a seguida pelos comunistas portugueses? A primeira impressão é que a nível eleitoral o Partido Comunista Português arrancou resultados mais modestos que a formação da casa (uns 8,25% contra uns 20%); porém quando observamos o rendimento político dos resultados parece que os nossos vizinhos portugueses com base nos seguintes dados:

- Em Portugal conseguiram correr com a direita do governo. O PCP promoveu um pacto com os pós-modernos do Bloco, os Verdes e o Partido Socialista Português (homólogo do PSOE) para desalojar o conservador Passos Coelho e permitir que o social-democrata António Costa governe em minoria. Curiosa a política “sectária” dos comunistas portugueses que são capazes de chegar a acordos com outras forças políticas apesar das notáveis diferenças ideológicas (de facto o PCP apresenta-se a eleições com Os Verdes, sob a marca Coligação Democrática Unitária).

- A pressão dos comunistas portugueses fez com que se revertessem os cortes sociais. A pressão do PCP, dos sindicatos, dos movimentos sociais e das forças progressistas forçaram o novo executivo a aprovar medidas para aliviar a difícil situação das classes trabalhadores e populares lusas (subida do salário mínimo, pensões, apoios sociais…) São medidas insuficientes mas que podem ser uma grande ajuda a muitas famílias portuguesas. Quando o governo quer aprovar medidas reaccionárias (por exemplo o resgate do Novo Banco com dinheiro público) os comunistas portugueses opõem-se e propõem como alternativa nacionalizar o dito banco, forçando os socialistas a procurar apoio dos deputados conservadores para levar por diante o resgate.

- Os comunistas portugueses não renunciaram uma vírgula do seu programa, nem a sua independência política. O facto de chegar a acordos pontuais com outras forças políticas não fez com que o PCP renunciasse um ápice dos seus princípios. O partido continua a declarar-se abertamente como marxista-leninista e continua a trabalhar para construir o socialismo e o comunismo em Portugal. Não renunciaram à nacionalização dos sectores estratégicos, nem à saída da NATO. Continuam a defender uma postura internacionalista e solidários com os governos socialistas e anti-imperialistas do mundo, (Cuba, Venezuela…) e contra todas as guerras imperialistas e neocoloniais (Jugoslávia, Afeganistão, Iraque, Líbia, Mali, Síria…) Sobre a União Europeia mantém uma posição firme, quando a Comissão Europeia anunciou a possibilidade de sanções contra Portugal por não atingir os objectivos do déficit os comunistas portugueses propõem a saída do Euro e celebraram a vitória do Brexit no Reino Unido como uma “vitória contra o medo”.

- Os comunistas portugueses não abandonaram as ruas. O Partido Comunista Português sempre teve grande influência no movimento operário, seja através da CGTP (que é a principal central sindical de Portugal com 800.000 filiados e que se encontra alinhada na Federação Sindical Mundial) ou seja pela intervenção directa do partido nos locais de trabalho através das células de empresa. Desde os tempos da ditadura fascista o Partido Comunista Português sempre teve um papel primordial em todas as lutas dos trabalhadores, democráticas e sociais. A CGTP, às vezes com a colaboração com a central sindical próxima do PS, a UGT, convocou numerosos protestos e greves gerais contra as políticas de austeridade dos sucessivos governos. Também participa e apoia movimentos sociais como o “movimento em defesa da escola pública” ou o movimento popular anti austeridade “Que se Lixe a Troika”. Os comunistas portugueses sempre pautaram a sua luta pelas reformas e direitos sociais para alcançar o socialismo, a reforma como um meio não como um fim.

Enquanto em Espanha convenceram-nos que para “alcançar o céu” devemos renunciar às nacionalizações, à República, à saída da NATO e do Euro, renunciar aos nossos símbolos históricos, à análise de classe, à defesa dos processos anti-imperialistas…Tudo para construir a “hegemonia” e conseguir agrupar o máximo de população possível através dessas “transversais”, conseguir ganhar uma eleições, pactuar com os sociais-liberais de sempre e realizar algumas reformas sociais; os comunistas portugueses conseguiram fazer tudo isto sem chegar ao governo, sem renunciar aos seus princípios e sem abandonar as ruas e os locais de trabalho.

Quanto temos de aprender com os nossos irmãos peninsulares!

E. Téllez


Sem comentários:

Enviar um comentário