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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

69 .ª POSIÇÃO

Portugal nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro: e agora Sr. ministro?
  
Nestes últimos quatro anos nada de novo e de suficiente se passou com a preparação da Equipa Nacional, e muito menos com o desporto português, que, aliás, viveu e continua a viver a mais grave crise dos últimos 40 anos.

 Apesar da campanha pessimista de que os Jogos Olímpicos (J.O.) do Rio de Janeiro estavam ameaçados na sua realização por um conjunto de situações que iriam desde o atraso no acabamento de vários dos complexos desportivos principais até à poluição da Baía de Guanabara, os Jogos começaram e decorreram sem incidentes visíveis. Mas a crítica mais significativa que, desde muito cedo, pôs em causa a sua realização no Brasil mantém-se justificadamente, visto que o custo destes atingirá os 14 mil milhões de dólares, de acordo com a informação fornecida pelo Comité Olímpico Brasileiro.

A verba choca pela sua grandeza, especialmente quando se toma em consideração a crise económica que grassa no país e, principalmente, porque se conhecem os graves problemas sociais (desigualdade, violência, atraso de certas regiões, ambiente, etc.) que, apesar do esforço positivo realizado nos últimos anos, continuam sem solução. O Comité Olímpico Internacional (C.O.I.) procura apaziguar as consciências argumentando com o seu discurso legitimador habitual, defendendo que a organização dos J.O. tem sempre um impacto positivo (e até muito positivo) na economia do país e da cidade organizadora. Porém, esta opinião é posta em causa por um número significativo de estudos centrados nos resultados da organização dos Jogos em diferentes países, demonstrando que não é isso que se passa.

As críticas ao Movimento Olímpico (M.O.) a partir de época de Saramanch, antigo responsável pelo desporto espanhol no tempo do general Franco e eleito presidente do C.O.I. na década de 80, de que o olimpismo tinha passado a utilizar o extraordinário poder de mobilização do espectáculo desportivo à escala mundial, transformando-o numa autêntica multinacional geradora de lucros fabulosos (e onde a corrupção grassou de forma significativa na altura da passagem do Milénio), estas críticas foram perdendo acutilância. O resultado desta situação leva, no presente, a olhar com desconfiança o esforço de promoção do Ideal Olímpico, apresentado na Carta Olímpica como um projecto de humanização, fraternidade e paz. No entanto, as tranquibérnias financeiras altamente lucrativas (como, por exemplo, os contratos CIO/Coca-Cola, CIO/Televisões, CIO/Marcas Desportivas, etc.) deixaram de encontrar resistência crítica significativa e passaram a ser consideradas como «naturais», de acordo com a visão neoliberal de tudo transformar em produto mercantil. Desta forma, o Ideal Olímpico coabita sem qualquer perturbação com a extraordinária operação da sua utilização a favor das multinacionais da comunicação, através de um processo de branqueamento do próprio M.O. do qual não sai prestigiado. Bem pelo contrário.

Portugal à Procura de Si Próprio

E em relação a Portugal e à sua Equipa Olímpica no Rio? O que se pode dizer é que tudo correu com normalidade. Ou seja: uns embandeiram em arco, entusiasmados com a justíssima medalha da «nossa» Telma Monteiro e mais alguns resultados de valor; outros queixam-se da falta de medalhas, que, na sua opinião, são a justificação da presença da equipa nas competições. Contudo, por detrás desta situação perfila-se uma realidade que nunca se alterou no País. A verdade é que o Olimpismo, como desígnio nacional, nunca penetrou de forma efectiva na Sociedade Portuguesa, quer como ideal coubertiniano de vida, quer, de uma forma mais prosaica mas mais importante, como preocupação prestigiante de Portugal no contexto das nações. Contudo, é este aspecto que, especialmente, as nações mais desenvolvidas sempre tomaram em consideração, como forma de afirmação internacional.


Nos Jogos de Londres, em 2012, Portugal ficou na 69.ª posição na classificação «não oficial», o que parece ser dificilmente aceitável para um país europeu que, ainda por cima e de forma contraditória, procura esse prestígio. O que se irá passar agora? De facto, durante a Olimpíada, ou seja, nestes últimos quatro anos, nada de novo e de suficiente se passou com a preparação da Equipa Nacional, e muito menos com o desporto português, que, aliás, viveu e continua a viver a mais grave crise dos últimos 40 anos. Oxalá as esperanças dos(as) atletas e seus treinadores(as) se confirmem premiando justamente um esforço em que se adivinha a coragem, a tenacidade e a dedicação, defrontando as habituais dificuldades que, desde sempre, têm marcado a preparação dos selecionados olímpicos.

Em entrevista televisiva, o actual ministro da Educação afirmou de forma impressiva que se está no limiar de uma mudança extraordinária na política desportiva nacional. Não há razões para duvidar da palavra de um ministro que tem dado provas de estar empenhado na democratização real do processo educativo, no qual integramos, como é natural, o próprio desporto. Porém, não podemos deixar de ouvir estas «promessas» sobre o que se pretende concretizar, esquecendo uma plêiade de ministros que afirmaram intenções semelhantes, ao longo do tempo, sem nunca terem encontrado tradução concreta. Esperamos, contudo, que o ministro tenha uma noção realista da complexidade da situação a defrontar, dado que o problema não se limita unicamente a um aumento financeiro de apoios, pois exige uma tomada de decisões que se referem a um vasto e complexo conjunto de problemas. Na verdade aquilo que se pede é que se dignifique o Ideal Olímpico e a presença da Equipa Nacional nos Jogos como resultado de uma autêntica política desportiva e dê resposta às necessidades da democratização do desporto em Portugal, o que tem estado muito longe de ter acontecido até agora.

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