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domingo, 18 de setembro de 2016

AS AUTARQUIAS E OS INCÊNDIOS


Com as primeiras chuvas deste final de Verão terminam os grandes incêndios florestais deste ano. É altura de uma reflexão adequada por parte de técnicos, políticos e população atingida ou em risco. A realidade mostra uma grande área ardida (1 milhão de hectares em uma década), mobilização enorme de recursos humanos e financeiros no combate com incansável trabalho de bombeiros e outros intervenientes, populações atingidas no seu património, ambiente, investimentos e no seu rendimento corrente, momentos inesquecíveis de angústia e desespero. Mas não aprendemos nada com o passado ou estamos perante um problema insolúvel?

Pergunto: poderão todos os autarcas dormir com a consciência tranquila? Fizeram todos o possível para assegurar a protecção da floresta e da população rural e não rural? A resposta, dura como punhos, é NÃO.

Autarcas que assumem tantas vezes a vontade de assumir novas competências da Administração Central não podem invocar como alheia às suas competências a defesa da floresta, a defesa do espaço territorial. É uma contradição. Deverão, sim, exigir a responsabilidade e os meios de actuação. Serão mais úteis do que quando se assumem como comissões de festas, ou se substituem ao movimento associativo popular ou á dinâmica associativa empresarial. A cada um o seu papel.

Quando se identifica a falta de limpeza de matas ou o seu desordenamento total com falta de caminhos rurais e aceiros, não caberá alguma responsabilidade às autarquias (independentemente de outras responsabilidade de outras entidades, a começar pelos proprietários)?

Quando se assiste a extensas monoculturas, com a plantação do eucalipto, que substitui espécies tradicionais, ao serviço da omnipresente indústria da pasta de papel, não caberá alguma responsabilidade às autarquias (independentemente de outras responsabilidade de outras entidades, a começar pelos proprietários)?

Quando não há um rigoroso cadastro das nossas florestas, suas características arbóreas, características físicas, propriedade, não caberá alguma responsabilidade às autarquias (independentemente de outras responsabilidade de outras entidades)?

Quando se sabe que um mundo rural com uma economia, baseada em produtos agrícolas produzidos localmente, na pastorícia, na indústria da madeira, deve ser activamente defendido, não caberá alguma responsabilidade às autarquias (independentemente de outras responsabilidade de outras entidades), evitando o êxodo e a desertificação?

Quando concelhos com extensa área florestal não possuem uma equipa permanente de sapadores florestais ou ela é insuficiente, não caberá alguma responsabilidade às autarquias (independentemente de outras responsabilidade de outras entidades, a começar pelos proprietários)?

A experiência trágica no Concelho do Funchal alerta-nos para outras localidades em risco, outras preocupações a exigir intervenção imediata.

Limitar o esforço ao reforço dos meios de emergência e combate parece pouco ajuizado. É importante esse reforço mas não é suficiente. E enfrenta a perversão, no limite, do negócio dos fogos, dos custos dos meios aéreos alugados ou comprados, das práticas de corrupção e opacidade da sua gestão.


CR

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