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terça-feira, 20 de setembro de 2016

HOMENAGEM A OLGA BENÁRIO PRESTES, MINHA MÃE


(por ocasião do 80.º Aniversário da sua extradição para a Alemanha nazi)

Anita Leocadia Prestes


Com apenas 16 anos de idade, Olga, nascida em 1908, numa família abastada de Munique, Alemanha, saiu de casa para, junto com o jovem professor Otto Braun, seu namorado e dirigente do Partido Comunista, e sob a influência do ambiente revolucionário então existente em seu país, participar das lutas da juventude trabalhadora no distrito “vermelho” de Neukölln em Berlim. Membro da Juventude Comunista, devido à sua destacada actuação política, foi logo aceite nas fileiras do Partido Comunista da Alemanha (PCA). Em 1928, tornou-se conhecida pela decidida participação na libertação de Otto Braun, detido por “alta traição à pátria” na prisão de Moabit. Ambos tiveram suas cabeças postas a prémio pelas autoridades policiais, sendo forçados a abandonar a pátria e fugir para Moscovo.
A partir desse momento, Olga iria se tornar dirigente da Internacional Comunista da Juventude, com intensa actuação política em diversos países europeus, como Inglaterra e França, em que chegou a ser detida por curtos períodos. Ao mesmo tempo, submeteu-se em Moscovo à formação militar e procurou aprofundar seus conhecimentos de teoria marxista-leninista. Era uma comunista convicta, disposta a fazer qualquer sacrifício na luta pela revolução mundial. Do ponto de vista afectivo, terminara seu relacionamento com Otto Braun.
Militante provada na luta revolucionária e na actividade clandestina do movimento comunista, no final de 1934, Olga foi convidada por Dimitri Manuilsky, dirigente da Internacional Comunista (IC), a cuidar da segurança de Luiz Carlos Prestes em seu regresso ao Brasil para participar da luta antifascista então em curso. Recém-ingressado no PCB, o famoso Cavaleiro da Esperança teria que actuar na clandestinidade, pois fora acusado de desertor do Exército e seria preso se chegasse legalmente ao seu país. Olga aceitou sem vacilações e com entusiasmo a nova tarefa, pois ouvira falar nos feitos da Marcha da Coluna Prestes e do seu comandante, que já admirava, antes de conhecer pessoalmente.
Apresentados por Manuilsky às vésperas da viagem, Prestes e Olga partiram clandestinamente de Moscovo dia 29 de dezembro de 1934. Deixaram a União Soviética como Pedro Fernandez, espanhol e Olga Sinek, estudante russa, disfarçados de casal endinheirado em viagem de lua de mel. Após uma viagem de mais de três meses, plena de peripécias, chegaram ao Rio de Janeiro em abril de 1935, onde fixaram residência. Durante a viagem, uma profunda compreensão mútua os deixou apaixonados, e, assim, tornaram-se marido e mulher de verdade.
Prestes fora aclamado presidente de honra da Aliança Nacional Libertadora (ANL) e, clandestino, mantinha contacto com antigos companheiros da Coluna, com o secretário-geral do PCB e com os membros do Bureau Sul-americano da Internacional Comunista, então transferido para o Rio de Janeiro. A função de Olga era zelar pela segurança de Prestes, viabilizando esses contactos de maneira a evitar sua localização pelos agentes policiais. Olga comparecia junto com Prestes em reuniões políticas, mas não interferia seja nas discussões seja nas decisões tomadas, pois essa atribuição não lhe cabia.
A convivência entre meus pais durou pouco mais de um ano, pois em março de 1936, após a derrota dos levantes antifascistas de novembro de 1935, foram presos e separados para nunca mais se verem.5 Com grandes interrupções se corresponderam até o assassinato de Olga numa câmara de gás do campo de concentração de Bernburg, em abril de 1942.6 Ao comentar essa correspondência, Robert Cohen, seu editor na Alemanha, escreveu:

Desde seu primeiro encontro em Moscovo [de Prestes e Olga] até sua prisão no Rio se passaram exactos um ano, três meses e vinte e dois dias. Pouco tempo, se diria. Mas qual seria o tempo ideal para o amor? A importância de uma relação não se mede por sua duração. Se quisermos saber alguma coisa sobre o amor entre duas pessoas, não devemos indagar o que as pessoas fazem do amor, mas sim o que o amor faz das pessoas. O que o amor fez de Olga Benario e Carlos Prestes descobrimos em suas cartas.
 Olga, que havia salvado a vida de Prestes no momento da prisão se interpondo entre ele e os policiais, que tinham ordem para matá-lo, poucos dias depois, já na cela da Casa de Detenção da capital da República, descobre que estava grávida. Pelas leis então em vigor no Brasil, tinha direito a permanecer no país, pois iria dar à luz um filho brasileiro. Entretanto, sua extradição para a Alemanha nazista foi a maneira encontrada por Getúlio Vargas, então presidente do Brasil, junto com Filinto Müller, seu chefe de polícia, para torturar Luiz Carlos Prestes, cujo prestígio internacional desaconselhava que lhe fossem infringidas torturas físicas, como aconteceu com grande parte dos prisioneiros políticos da época. O advogado Heitor Lima impetrou habeas-corpus em favor de Olga, recusado pelos juízes de Supremo Tribunal Federal.
 Tanto Olga quanto Prestes se negaram a fornecer quaisquer informações aos delegados de polícia que os interrogaram. Minha mãe se recusou a declinar seu verdadeiro nome e nacionalidade, declarando chamar-se Maria Prestes, mas Filinto Müller, através do Itamarati, logo conseguiu que a Gestapo, a polícia da Alemanha nazista, identificasse Olga Benario, fichada desde os anos vinte por suas “atividades subversivas”. Olga negou-se, inclusive, a assinar o passaporte que lhe foi concedido pelo consulado alemão no Rio de Janeiro, segundo os trâmites burocráticos então vigentes para sua extradição.9 No sétimo mês de gravidez, a 23/9/1936, minha mãe foi embarcada à força rumo a Hamburgo (Alemanha) no navio cargueiro alemão La Coruña, cujo capitão recebera ordens expressas das autoridades policiais para não parar em nenhum outro porto europeu, pois havia precedentes dos estivadores e portuários da Espanha e da França resgatarem prisioneiros políticos de embarcações que aportaram nessas cidades. Junto com Olga era extraditada Elise Ewert, a esposa do dirigente comunista alemão Arthur Ewert, ambos presos e barbaramente torturados após os levantes antifascistas de novembro de 1935.
Após quase um mês de viagem, em condições extremamente penosas e em total isolamento até mesmo dos demais passageiros do navio, no dia 18 de outubro, Olga e Elise foram desembarcadas em Hamburgo, com intensa vigilância policial, sendo imediatamente conduzidas sob escolta para a prisão feminina da rua Barminstrasse em Berlim. Na ocasião havia um aparato policial de tais proporções que o advogado francês enviado a Hamburgo pelo Comitê Prestes, com sede em Paris, que coordenava a campanha mundial pela libertação dos presos políticos no Brasil e também de Olga Elise,sequer conseguiu aproximar-se do local ou obter alguma informação a respeito das duas prisioneiras.
Na prisão, incomunicável, sem poder corresponder-se com a família, Olga sempre se recusou a prestar qualquer declaração que pudesse incriminar os companheiros tanto na Alemanha quanto no Brasil. O regime de extremado rigor a que estava submetida era justificado pela Gestapo não tanto por Olga ser judia, mas principalmente por ser considerada uma “comunista perigosa”, mulher do líder comunista Luiz Carlos Prestes, e que, por isso, jamais deveria ser posta em liberdade.
A 27/11/1936, na enfermaria da prisão de Barminstrasse deu-se o meu nascimento. A coragem e o extraordinário controle emocional de Olga permitiram que eu nascesse forte e saudável. Mas, minha mãe sofreu complicações, que a forçaram a permanecer internada nessa enfermaria durante um mês.14 Meu nome, Anita Leocadia, foi escolhido por ela em homenagem a duas mulheres fortes - Anita Garibaldi e Leocadia Prestes. Olga solicitou às autoridades carcerárias o envio de telegrama por ela redigido a meu pai, preso no Brasil, e depois escreveu uma carta em que lhe comunicava meu nascimento, mas as duas mensagens não foram expedidas pela Gestapo. Meu nascimento permaneceu desconhecido da família e do público durante vários meses, embora Olga tivesse tentado meu registro como brasileira na embaixada do Brasil em Berlim, solicitação recusada tanto pela Gestapo quanto pelo Itamarati.
Desde que se soube da extradição de Olga e Elise, as autoridades do III Reich, inclusive o próprio Adolf Hitler, passaram a ser bombardeados com telegramas, cartas e mensagens advindas de personalidades e organizações humanitárias de países europeus e dos Estados Unidos, cobrando informações sobre as duas prisioneiras, denunciando sua incomunicabilidade e exigindo sua  libertação. Muitos desses pronunciamentos foram publicados na imprensa da França, da Inglaterra e de outros países.

A Campanha Prestes

 Estava em curso a Campanha Prestes, liderada por Leocadia Prestes, minha avó paterna.18 Logo após a prisão dos meus pais, em março de 1936, Leocadia, acompanhada por Lygia, sua filha mais moça, deslocou-se de Moscou, onde desde 1931 vivia a família, para Paris, que passou a ser a sede do Comitê Prestes, entidade coordenadora da campanha mundial pela libertação dos presos políticos no Brasil. Quando se soube da extradição de Olga e Elise, imediatamente a campanha se estendeu às duas prisioneiras. Para Leocadia e Lygia surgia, então, a preocupação de estabelecer contato com Olga e prestar-lhe toda assistência possível, a ela e a criança que estava para nascer. Leocadia foi três vezes a Berlim, acompanhada pela filha e por delegações de mulheres de países como a Bélgica e a Inglaterra, sem jamais conseguir permissão para falar ou ver minha mãe.
Com meu nascimento, a campanha alcançou maior repercussão; tratava-se agora de salvar a vida de uma criança, pois a Gestapo havia comunicado à Olga que, assim que eu fosse desmamada, seria dela separada e entregue a um orfanato nazi, onde as crianças perdiam o nome e lhes era atribuído um número. A Cruz Vermelha Internacional, sediada em Genebra, foi visitada por Leocadia e Lygia e, com a sua ajuda, tornou-se possível saber do meu nascimento – quando já tinha três meses de idade -, obter permissão para corresponder-se com Olga e enviar-lhe dinheiro, alimentos e roupas. A cada duas semanas, Leocadia e Lygia lhe remetiam via correio postal um pacote de vinte quilogramas, contendo alimentos e outros artigos de que necessitava, o que permitiu à minha mãe continuar a amamentar a filha. Com isso foi possível assegurar minha sobrevivência e, por fim, minha libertação O esforço de Leocadia e Lygia foi decisivo para o sucesso dessa batalha.
Também tiveram grande importância as gestões feitas pelo afamado jurista francês François Drujon, que, sensibilizado pela causa da libertação de mãe e filha, viajou à Alemanha para sondar a Gestapo e recebeu autorização para me ver no pátio da prisão na hora do banho de sol. Drujon obteve a promessa das autoridades alemãs de me entregar à avó paterna desde que lhes fosse apresentado um documento oficial de paternidade de Prestes, pois, na ausência de certidão de casamento dos meus pais, a Gestapo não reconhecia à Leocadia o direito de reivindicar a guarda da neta.  Quanto à Olga, não foi dada ao advogado qualquer esperança de possível libertação, pois havia a determinação expressa das autoridades alemãs de jamais consenti-lo.
Empenhada em meu resgate, Leocadia escreveu ao Dr. Heráclito Fontoura Sobral Pinto, defensor exoficio de Prestes, solicitando sua ajuda para que as autoridades policiais brasileiras permitissem que este assinasse na prisão declaração de paternidade da filha. O esforço de Sobral Pinto foi decisivo para vencer enormes resistências do Itamarati e do governo brasileiro e, uma vez alcançado o registro em cartório da declaração do meu pai, realizar o seu reconhecimento, tradução juramentada para o alemão e o envio para a Gestapo. Com razão o Dr. Sobral, carinhosamente, se considerava meu segundo pai, pois com esse documento tornou-se possível reconhecer legalmente o direito de Leocadia à guarda da neta.
Finalmente, no dia 21 de janeiro de 1938, com catorze meses de idade, fui entregue pela Gestapo à minha avó Leocadia e à tia Lygia, que, junto com o advogado Drujon, foram me buscar na prisão, sem terem obtido, contudo, permissão para que Olga as visse ou fosse ao menos informada do destino da filha. Em carta ao meu pai, ela escreveu que o período de 5 de março de 1936 (dia da prisão de ambos) a 21 de janeiro de 1938 foi o mais terrível da sua vida.
Leocadia e Lygia, acompanhadas pelo advogado, viveram horas de grande tensão antes de partirem de trem, no mesmo dia, para Paris. Seguidas e observadas o tempo todo por agentes policiais disfarçados26, temiam que a criança lhes fosse tomada de volta, pois do documento que lhes fora fornecido constava apenas o nome de Anita Benario, inexistindo, portanto, qualquer prova de que me encontrava sob a guarda da avó.
Minha libertação das garras do nazismo resultou indiscutivelmente da influência e da repercussão mundial da Campanha Prestes. Uma grande vitória da solidariedade internacional, razão por que me considero filha da solidariedade internacional.

O assassinato de Olga

Logo após minha retirada da prisão, Olga foi transferida, em fevereiro de 193828, para o campo de concentração de Lichtenburg, na localidade de Prettin. Era um castelo da época da invasão de Napoleão que havia servido para abrigar suas tropas e fora utilizado para o mesmo fim durante a Primeira Guerra Mundial. Para Olga as condições de vida tornaram-se muito piores do que tinham sido em Barminstrasse: frio, fome, castigos corporais e dificuldades maiores para comunicar-se com a família.
Em maio de 1939, com a inauguração do campo de concentração de Ravensbrück, destinado exclusivamente a mulheres, Olga foi transportada com uma leva de outras prisioneiras para esse novo local, situado 80 quilômetros ao norte de Berlim.30 Os horrores vividos por milhares de mulheres de diversos países que passaram por esse campo estão descritos em livro publicado pela jornalista inglesa Sarah Helm.
Olga manteve-se firme, corajosa e solidária com suas companheiras, segundo os testemunhos existentes. Por mais de uma vez foi conduzida à sede da Gestapo em Berlim para novos interrogatórios, durante os quais jamais se prestou a delatar quem quer que fosse. Em diversas ocasiões, devido às suas atitudes de rebeldia e defesa de companheiras mais fracas, foi severamente punida, mantida na escuridão de um calabouço no próprio campo de Ravensbrück, com privação da escassa ração destinada às prisioneiras, ou submetida a espancamentos e castigos corporais. Durante vários meses, nos períodos em que se encontrava no isolamento, sua correspondência com a família ficou interrompida.
 Até setembro de 1939, quando teve início a Segunda Guerra, existiram esperanças de Leocadia e Lygia, assim como de Olga, de obter sua libertação, pois algumas prisioneiras o haviam conseguido. As gestões empreendidas por Leocadia e Lygia junto ao governo do México, onde, desde outubro de 1938 minha avó, minha tia e eu estávamos exiladas, levaram a que fosse concedido asilo politico nesse país à minha mãe, condição exigida pela Gestapo para uma possível libertação. Entretanto, a Guerra interrompeu as comunicações postais com a Europa e a documentação remetida para a Alemanha voltou ao México.35 A partir de então, qualquer perspectiva de liberação ficou excluída. Hoje sabemos que a Gestapo vetara todas as possibilidades de libertação para Olga tendo em vista sua recusa de prestar as informações que lhe eram exigidas sobre suas atividades junto à Internacional Comunista. Olga declarava: “Se outros se tornaram traidores, eu não o serei!”
Tempos ainda mais sombrios haviam chegado para Olga. Em Ravensbrück, junto com as demais prisioneiras, ela era submetida a todo tipo de privações, assim como à prática de trabalho escravo exaustivo, em condições extremamente penosas. Considerada uma “comunista perigosa”, carregava  também a pecha de judia, destinada, portanto, a ser contemplada pelos planos nazistas da “solução final”. Em abril de 1942, foi incluída numa leva de prisioneiras escolhidas para serem assassinadas na câmara de gás do campo de concentração de Bernburg. A última carta da minha mãe está datada de novembro de 1941,37 mas só tivemos confirmação da sua morte após o término da Guerra, em julho de 1945.

O trágico fim da minha mãe abalou profundamente toda nossa família. Para meu pai, foi uma perda irreparável, que marcou o restante da sua vida. Muitos anos depois, sempre que falava em Olga, ele revelava grande emoção. Por ocasião dos meus aniversários, que muitas vezes passamos longe um do outro, meu pai me escrevia recordando o martírio de Olga e o nosso compromisso de sermos dignos da sua memória. Meu pai e eu sempre entendemos que Olga foi uma vítima do fascismo entre milhares de outras e que seu martírio deve servir de exemplo para que não permitamos que tais horrores se repitam. 

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