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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Os explosivos e-mails de Hillary Clinton



De tempos a tempos, para fazer um pouco de “limpeza moral” com objectivos político-mediáticos, o Ocidente tira alguns esqueletos do armário.
Uma comissão do parlamento britânico criticou David Cameron pela intervenção militar na Líbia quando ele era primeiro ministro em 2011: não o criticou, porém, pela guerra de agressão que demoliu um Estado soberano, mas porque foi desencadeada sem uma adequada “inteligência”, nem um plano para a “reconstrução” . 
O presidente Obama fez o mesmo quando, em abril passado, declarou ter cometido na Líbia o seu “pior erro”, não por tê-la destruído com as forças da Otan sob comando estadunidense, mas por não ter planificado o “day after”. 
Ao mesmo tempo, Obama reafirmou seu apoio a Hillary Clinton, hoje candidata à presidência: a mesma que, na condição de secretária de Estado, convenceu Obama a autorizar uma operação clandestina na Líbia (inclusive o envio de forças especiais e o armamento de grupos terroristas), na preparação do ataque aeronaval dos EUA /Otan. 
Os e-mails de Hillary Clinton, que vieram sucessivamente à luz, provam qual era o verdadeiro objectivo da guerra: bloquear o plano de Kadafi de usar o fundo soberano líbio para criar organismos financeiros autónomos da União Africana e uma moeda africana em alternativa ao dólar e ao franco CFA. 
Logo depois de ter demolido o Estado líbio, os EUA e a Otan iniciaram, juntamente com monarquias do Golfo, a operação secreta para demolir o Estado sírio, infiltrando nele forças especiais e grupos terroristas que deram vida ao chamado Estado Islâmico (EI). Uma mensagem de e-mail de Hillary, uma das tantas que o Departamento de Estado desarquivou depois do clamor suscitado pelas revelações do Wikileaks, demonstra qual é um dos designios fundamentais da operação ainda em curso. 
Na mensagem, desarquivada como “case number F-2014-20439, Doc No. C05794498” [2], a secretária de Estado Hillary Clinton escreve em 31 de dezembro de 2012: “É a relação estratégica entre o Irão e o regime de Bashar Assad que permite ao Irão minar a segurança de Israel, não através de um ataque direto mas por meio de seus aliados no Líbano, como o Hezbolah”. Sublinha, portanto, que “a melhor maneira de ajudar Israel é ajudar a rebelião na Síria que já dura mais de um ano”, ou seja desde 2011, sustentando que para dobrar Bashar Assad, é necessário “o uso da força”, a fim de “pôr em risco a sua vida e a da sua família”. 
E Hillary Clinton conclui: “O derrube de Assad constituiria não só um imenso benefício para a segurança de Israel, mas também faria diminuir o compreensível temor israelense de perder o monopólio nuclear”. A então secretária de Estado admite, portanto, o que é oficialmente silenciado: o fato de que Israel é o único país do Oriente Médio a possuir armas nucleares. 
O apoio da administração Obama a Israel, para além de alguns desacordos mais formais do que substanciais, foi confirmado pelo acordo, assinado em 14 de setembro em Washington, com o qual os Estados Unidos se comprometem a fornecer a Israel os mais modernos armamentos por um valor de 38 bilhões de dólares em dez anos, por meio de um financiamento anual de 3,3 bilhões de dólares, mais meio milhão para a “defesa de mísseis”. 
Enquanto isso, depois que a intervenção russa bloqueou o plano de destruir a Síria por dentro com a guerra, os Estados Unidos obtêm uma “trégua” (imediatamente por eles violada), lançando ao mesmo tempo uma nova ofensiva na Líbia, camuflada de operação humanitária na qual a Itália participa com seus “paramédicos”. Enquanto Israel, na sombra, reforça o seu monopólio nuclear tão caro a Hillary Clinton.

Manlio Dinucci

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