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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

FRAGMENTO DA HISTÓRIA


46º Aniversário da ação da ARA contra o navio Cunene!

Em 1970, complementando a luta de massas, é criada a ARA (Ação Revolucionária Armada).

Em 26 de Outubro de 1970, quatro meses após a constituição e instalação do seu Comando Central, a ARA levou a cabo a sua primeira ação.

O alvo foi o navio Cunene que se preparava para partir para o teatro da guerra colonial, carregado de material militar e logístico.

O navio Cunene não foi afundado, nem era esse o objetivo que se propunha alcançar, mas para além do grande impacte político desta ação que constituiu então uma autêntica novidade e inovação na luta contra a guerra colonial, a sua missão militar foi bastante retardada uma vez que ficou imobilizado no porto de Lisboa durante bastantes dias para receber as necessárias reparações dos estragos sofridos.

Esta operação foi antecedida de um trabalho de reconhecimento bastante intenso e algo demorado, dados os modestos recursos de que se dispunha.

Na busca de meios de execução, como por exemplo o barco para transporte de homens e materiais até junto do objetivo, gastaram-se muitas horas, no decorrer de vários dias, em diligências e deslocações ao longo do Rio Tejo.

Desde as docas onde existiam barcos de recreio, na vasta zona que vai dos Olivais à Cruz Quebrada, até às diversas praias onde existiam pequenos barcos de pesca artesanal, tudo foi passado a pente fino.

Ao fim e ao cabo, ponderadas várias hipóteses, acabou por se selecionar a zona dos Olivais-Poço do Bispo, onde parecia fácil a captura de um barco para o objetivo em vista.

Para executar esta operação, que exigia um certo conhecimento dos meandros do rio Tejo, do movimento das suas marés, assim como o domínio da arte de remar e também da arte de furtar..., existia um camarada com as condições exigidas que, já havia tempo, se propusera participar numa operação deste género, o camarada Gabriel Pedro, velho militante comunista que havia estado deportado no campo de concentração do Tarrafal durante vários anos e se encontrava então exilado em França.

Vindo a Portugal por via clandestina, após uma breve estadia numa casa de apoio que lhe foi destinada, no dia combinado e após um reconhecimento prévio do local, Gabriel Pedro, com o à-vontade que lhe era característico, entrou na doca do Poço do Bispo e como bom conhecedor da matéria, depois de passar em revista todo o material existente nesse momento na doca, apoderou-se de um bote adequado à tarefa.

Conduziu de imediato o barco para o local onde se ergueu a Expo-98, que era então uma zona abandonada e muito degradada, estando já ali os restantes membros do comando responsável por essa operação, que incluía o camarada Carlos Coutinho, responsável pela execução desta ação, juntamente com Gabriel Pedro.

Embarcado tudo o necessário, incluindo equipamento de pesca para cobertura da operação, os dois camaradas remaram durante várias horas, porque tiveram de furtar-se a uma inesperada aproximação da lancha da Polícia Marítima.

Navegaram em sentido oposto ao planeado, seguindo percursos não iluminados, viraram para o meio do rio e daí, com a conveniente escuridão, mas com uma corrente tão adversa como a aragem gelada com que não contavam, rumaram finalmente para o objetivo, fintando mais algumas vezes a lancha da Polícia Marítima antes de atingirem o Cais da Rocha do Conde de Óbidos onde se encontrava atracado o navio Cunene.

Aqui, depois das necessárias manobras de reconhecimento do local, do grau de vigilância existente, das condições de execução e de retirada, colocaram no casco do navio, meio metro abaixo da superfície da água, as duas potentes cargas de fixação magnética, reguladas precisamente para explodirem simultaneamente às 4,00 horas da madrugada.

A retirada foi outra manobra difícil pois o comando desconhecia em absoluto o percurso que tinha de fazer para alcançar terra firme.

Depois de lançarem os remos à água e abandonarem o bote, os camaradas tiveram de passar pelo emaranhado dos barcos ali atracados, saltando de um para o outro, até alcançarem a muralha do cais, no lado oeste. Numa das embarcações, quase pisaram os tripulantes que dormiam com um cão no convés. O animal ladrou e um dos tripulantes acordou meio incomodado, resmungando: «Mais cuidado, ó amigo!» Gabriel Pedro respondeu: «Descanse bem, amigo, que a noite vai alta. A gente vai fazer o mesmo, com a missão cumprida.»

Felizmente que tudo correu bem, como foi relatado pelo Carlos Coutinho, cerca das três da manhã, no encontro que havíamos marcado para a Rua Barata Salgueiro.

De facto, nessa madrugada, duas potentes explosões quase simultâneas abalavam meia Lisboa e eram ouvidas com grande estranheza na Margem Sul, fazendo algumas pessoas sair da cama e vir à janela.

Tinha começado uma nova forma de luta contra o fascismo e contra a guerra colonial.

De O Século, de 27-10-1970, respigamos parte da notícia então publicada sobre o acontecimento:

«DUAS EXPLOSÕES A BORDO DO NAVIO "CUNENE"»

Nem toda a Lisboa deu por isso, mas houve na verdade milhares de pessoas que foram acordadas com dois enormes estrondos, que sacudiram alguns prédios da área de Alcântara. A primeira explosão deu-se ainda não eram cinco horas; a segunda, poucos minutos depois, mais forte aquela do que esta. As autoridades foram alertadas e logo se soube do que se tratava. As explosões deram-se no costado do navio «Cunene», da «Sociedade Geral», atracado na muralha norte da doca de Alcântara.

[...] Naturalmente os poucos homens da tripulação ficaram alarmados, mas logo recuperaram o ânimo e procuraram esgotar a água que começou a entrar, pondo a funcionar as bombas de bordo.

O rombo produzido no costado do navio, pelo lado de fora, não era demasiado grande, mas tinha o diâmetro bastante para, se não acudissem a tempo, permitir abundante entrada de água pondo, assim, o barco em perigo.

[...] Foi ordenado um inquérito rigoroso para se apurarem as causas do estranho acontecimento.

O "Cunene" foi construído na Polónia e desloca 16 mil toneladas.»

(Do IV capítulo do livro de Jaime Serra, “As explosões que abalaram o fascismo”, Edições «Avante!», Lisboa, Março/99 e publicado em «O Militante» Nº 240- Maio / Junho – 1999)

 

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