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quinta-feira, 27 de outubro de 2016

importante texto

Sobre o Cristianismo Revolucionário
Intervenção lida no debate “O PCP, os Católicos e a Igreja”, org. Partido Comunista Português. Biblioteca de Penacova, 7 Fev. 2015.

Todos os que militais
debaixo desta bandeira
não durmais já, não durmais,
pois que não há paz na terra. (1)

Estas parecem ser palavras de um poeta que resolveu desenvolver o tema da bandeira comunista a partir do potente poema de Ary dos Santos. Mas não são. São versos de um poema de Teresa de Ávila escrito no século XVI.
Cada religião tem a sua história. As religiões não caem do céu. São construções históricas com raízes sociais e culturais, determinadas por complexos de relações económicas (e, portanto, de poder). O cristianismo foi perseguido pelo Império Romano até à publicação do Édito de Milão, no ano 313, durante o reinado do primeiro imperador cristão, Constantino I. Este decreto estabeleceu a neutralidade do poder imperial em relação ao credo religioso, terminando com as perseguições sancionadas oficialmente, especialmente à comunidade cristã. Até esse momento, os cristãos reuniam-se nas casas, nas catacumbas, escondidos. Nos Actos dos Apóstolos, escrito por volta do ano 80, lemos algo que evoca aquilo que o pensamento marxista designa de comunismo primitivo: “Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um.” (2,44-45).
“Igreja” vem da palavra grega ekklesia, que significa assembleia. Esta comunidade de homens e mulheres livres para si e à procura da libertação efectiva ganhou, mais tarde, uma máscara institucional, calcificada. Tal não aconteceu por acaso. Foi uma forma da Igreja se assumir como poder, sendo integrada no poder dominante existente. Isso tornou-se notório em particular quando — ironia das ironias, explicada pela correlação das forças sociais naquela época — o cristianismo se tornou religião oficial do Império Romano no final do século IV, pela mão do imperador Teodósio I. A partir daí, todas as outras religiões foram proibidas. Séculos depois, através de processos e instituições como o Tribunal do Santo Ofício, vulgarmente chamado de Inquisição, a perseguição que se tinha abatido sobre os primeiros cristãos passou de fora para dentro da Igreja.
Em simultâneo, na generalidade, as celebrações litúrgicas foram-se tornando funções da co-existência de classes com interesses antagónicos, sem discurso crítico que enfrentasse essa contradição no terreno religioso. A liturgia da palavra e a liturgia eucarística cumpriam assim o papel de uma normalização social, conseguindo o prodígio de celebrar a igualdade ao mesmo tempo que sancionavam a desigualdade. Só que o lugar de um cristão numa sociedade injusta é na cruz, ou seja, é a falar e a agir assumindo o risco de ser incompreendido, acossado, agredido, e assassinado como Cristo foi. A insurreição contra a sujeição, a supremacia, e a desigualdade vigentes de diversas formas na sociedade esclavagista (na qual emergiu o cristianismo), no feudalismo, e finalmente no capitalismo, permaneceu entre alguns cristãos ao longo de todo este processo histórico — por isso, aqui estou e aqui estamos. Fico-me por alguns exemplos da Ordem dos Pregadores, mais conhecida como Ordem Dominicana.
Frei António de Montesinos, como voz da comunidade dominicana instalada na ilha Espanhola, actual ilha de São Domingos, disse um sermão a 21 de Dezembro de 1511 que enfureceu os colonizadores do Império Espanhol que o ouviram. Insurgia-se ele contra “a crueldade e tirania” que via sem poder ignorar. E perguntava: “Dizei: com que direito e com que justiça tendes este índios em tão cruel e horrível servidão? Com que autoridade fizestes tão detestáveis guerras a estas gentes que estavam nas suas terras [...]? [...] Estes não são homens?” (2). Repreendidos os frades, os representantes da coroa requereram um sermão rectificador. Foi pior a emenda que o soneto. O frade voltou à carga ainda com mais veemência. O rei Fernando II de Aragão ordenou que frei António e os seus confrades fossem expulsos do território. Foi o início de uma longa luta pelos direitos dos nativos das terras conquistadas.
Frei Bartolomeu de las Casas assistiu a tudo isto e narrou-o. Escreveu dois importantes tratados em defesa dos índios e dos negros contra a escravidão que lhes foi imposta pelas forças colonialistas e imperalistas, Brevíssima Relação da Destruição das Índias e Brevíssima Relação da Destruição de África (3). Como diz Fidel Castro numa das suas conversas com frei Betto: “A verdade mais objetiva que encontraram nos países conquistados pelas nações mais avançadas foi a perda de sua liberdade, o abuso, a exploração, as cadeias e, por vezes, inclusive o extermínio. É preciso assinalar que já naquele tempo houve sacerdotes que reagiram contra aqueles crimes inauditos, como por exemplo o padre Bartolomeu de las Casas.” (4) Sobre frei Bartolomeu, Fidel acrescenta o seguinte em tom de elogio: “A Ordem pode se sentir orgulhosa dele, foi um dos exemplos mais honrados, pois denunciou e se opôs aos horrores que se seguiram à conquista” (5).
Já depois do feudalismo, em pleno capitalismo, frei Betto, frei Tito, e outros frades de São Paulo, foram presos durante a ditadura militar no Brasil (1964-85) e sujeitos a longos interrogatórios e alguns a terríveis torturas. Tinham colaborado com um dos principais resistentes ao regime, o comunista Carlos Marighella, fundador do grupo de guerrilha Acção Libertadora Nacional (ALN). Numa carta de Janeiro de 1971 dirigida a um companheiro, frei Tito escreveu: “Para mim foi motivo de grande satisfação ter convivido com você durante 12 meses no presídio Tiradentes. Sob o signo deste herói que, infelizmente, virou nome de cárcere, reuniremos os grandes ideais que o futuro do povo brasileiro tanto anseia: a construção do socialismo. E só os verdadeiros homens é que foram chamados para este grande ideal. Contra isso, nada vence; nem tortura e nem perseguições.” (6)
Uma análise científica sobre a função das instituições religiosas ao longo da história da humanidade conduz à conclusão de que a religião tem sido usada por quem oprime e explora para legitimar esse estado de coisas, esse statu quo. Esta legitimação tem como base nomeadamente a invenção de uma autoridade que está acima de todos, arrogando-se o poder de falar em nome dos deuses. Por essa razão, o frade dominicano Yves Congar provocou escândalo, um escândalo necessário, quando afirmou que “[o] Papa não está acima da Igreja, o Papa está dentro da Igreja” (7). O marxismo, por estar interessado na realidade, não pode ter uma visão idealista da religião, isto é, não pode considerar que a religião é independente das condições históricas. A religião é também um campo de batalha, de ideias é certo, mas também de práticas. Lembro, por exemplo, que Joseph Ratzinger, quando era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, antes de ser eleito papa, acusou a teologia da libertação e a sua defesa de uma prática pela real libertação humana de ortopraxis, uma espécie de reverso da ortodoxia. A teologia da libertação, herdeira de frei António e frei Bartolomeu, atacada mas resistente à eliminação, suportada pela análise marxista no modo como desvenda a exploração capitalista, tem chamado a atenção para o facto de que a teologia se produz em determinadas conjunturas. Por esse motivo, a teologia tem tendência para se alinhar com a ideologia da classe dominadora e dominante. Como Engels admite, “o cristianismo era, na origem, o movimento dos oprimidos: apareceu primeiro como a religião dos escravos e dos libertos, dos pobres e dos homens privados de direitos, dos povos subjugados ou dispersos por Roma” (8). Esta linhagem revolucionária que Engels identifica não se evaporou.
Nesse sentido, vale a pena voltarmos a um discurso lido por Álvaro Cunhal a 26 de Setembro de 1975 no Porto. Estávamos em plena campanha violenta contra o PCP. Multiplicavam-se os ataques a Centros de Trabalho do Partido. A facção mais reaccionária da Igreja, à qual pertenciam figuras como o cónego Melo e forças terroristas como o MDLP (responsável, aliás, pelo assassinato do progressista padre Max), mobilizava e instigava muitos crentes contra os comunistas. Apesar destes factores, Álvaro Cunhal não perdeu a clareza de leitura da situação, reiterando, em primeiro lugar, a posição do PCP de defesa intransigente da liberdade religiosa e transmitindo, em segundo lugar, uma forte imagem de unidade: “Na luta do povo, nas fábricas, nos campos, nos quartéis, não se pergunta quem é e quem não é católico”, todos lutavam “ombro a ombro” (9). Mas entre uma coisa e outra, é introduzida a ideia de que a “intolerância” e o “desrespeito pela consciência” dessas forças as situavam longe de Cristo: “Para quem alguma vez tenha lido os Evangelhos está perfeitamente claro que não são certamente os caciques locais fascistas e reaccionários, os salteadores e incendiários e os seus inspiradores, que mais próximos estão das palavras e dos actos de Cristo. Entre as aspirações sociais dos Evangelhos na sua época e as aspirações sociais dos comunistas nos dias de hoje há uma proximidade incomparavelmente maior do que entre as aspirações de Cristo e as ideias objectivas dos reaccionários, mesmo que sejam elementos do clero.” (10) Esta passagem está em linha o que eu tenho vindo a dizer. É conhecido o aforismo do bispo brasileiro Hélder Câmara, chamado por alguns de Arcebispo Vermelho: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista.” Um cristão deve ser radical, na acepção elaborada por Karl Marx, não podendo abdicar de ir à raiz das coisas, à causa dos problemas. Ao reflectirmos sobre uma afirmação tão comum hoje em dia como a de que “não há dinheiro”, a nossa tarefa deve ser percebermos porquê, ou melhor, compreendermos quem se está a apoderar da riqueza que todos nós, trabalhadores, produzimos.
Ninguém nasce cristão como ninguém nasce comunista. Vamos fazendo sentido da nossa vida com opções que nos comprometem. É neste caminho que podemos falar em nós, força unida com objectivos comuns de transformação do mundo, todo animado por diferentes perspectivas e contributos, incluindo neste sujeito todas as pessoas que desejem ser nele incluídas. Nós somos aqueles que não dormem, como diz Teresa de Ávila, porque ainda não há paz — e também porque temos como verdadeiro que sem justiça a paz nunca triunfará. Não é de estranhar que a palavra “esperança” seja das que mais nos une, não só no combate à resignação, mas também no acto de dar outra destinação às nossas vidas — como gosta de dizer José Barata-Moura —, que está, digamos assim, à mão de semear. Termino, esperançoso, precisamente com palavras dele: “A esperança não é uma consolação de bem-aventurança sonhada e prometida em termos de maior ou menor proximidade e imanência. Só ganha sentido, de uma forma não mistificadora, quando unida à força material que um projecto social de transformação encarna, em virtude das próprias condições históricas em que se desenvolve.” (11)

Sérgio Dias Branco

Notas
(1) Teresa de Ávila, OCD, Seta de Fogo, trad. José Bento, 2.ª ed. (Lisboa: Assírio & Alvim, 2011), p. 109.
(2) António de Montesinos, OP, Bartolomeu de las Casas, OP, e Francisco de Vitória, OP, E Estes Não Serão Homens?: Os Dominicanos e a Evangelização das Américas, trad. Catarina Silva Nunes (Coimbra: Edições Tenacitas, 2014), p. 19.
(3) Bartolomeu de las Casas, OP, Brevíssima Relação da Destruição das Índias, trad. Júlio Henriques (Lisboa: Edições Antígona, 1990) e Brevíssima Relação da Destruição de África, trad. Henriques (Lisboa: Edições Antígona, 1996).
(4) Frei Betto, OP e Fidel Castro, Fidel e a Religião: Conversas com Frei Betto [1985] (Lisboa: Caminho, 1986), p. 192.
(5) Ibid.
(6) Apud. Betto, OP, Batismo de Sangue: Os Dominicanos e a Morte de Carlos Marighella [1982], 9.ª ed. (Rio de Janeiro: Editora Bertrand, 1987), p. 202, http://www.dhnet.org.br/verdade/res....
(7) Apud. Jean Coronel, OP, Acuso a Igreja [1996], trad. José A. Pereira Neto (Lisboa: Editorial Notícias, 2003), p. 40.
(8) Friederich Engels, Contribuição para a História do Cristianismo Primitivo [1895], par. 1, https://www.marxists.org/portugues/....
(9) Álvaro Cunhal, “Discurso no Comício do PCP / Palácio de Cristal, Porto, 26 de Setembro de 1975”, in Obras Escolhidas Tomo V (1974-1975), coord. Francisco Melo (Lisboa: Edições “Avante!”, 2014), p. 675.
(10) Ibid., p. 674.

(11) José Barata-Moura, Estética da Canção Política (Lisboa: Livros Horizonte, 1977), p. 19.

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