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domingo, 30 de outubro de 2016

poema


PASIONARIA
Morrerei como o pássaro: a cantar,
Penetrado de plumas e firmeza,
Sobre o perene clarão das coisas.
Cantando, a cova terá de me aceitar,
a alma deitada, voltada a cabeça
para as formosuras mais formosas.
Uma mulher que é uma estepe única
habitada de aço e criaturas,
sobe de espuma e atravessa de onda
esta comarca só de formosuras.
Dá vontade de beijar os pés e o sorriso
a esta ferida espanhola,
a expressão desse rosto de nação enlutada,
e aquela terra que de súbito pisa
como se contivesse a terra na pegada.
O fogo a incendeia e a alimenta:
labareda que apaixona e cresce, libertada
ao voar da amendoeira florida do seu vulto.
A seus pés, arde a cinza mais gelada.
Vasca de generosos fundamentos:
azinho, pedra, vida e erva nobre,
nasceste para dar a direcção aos ventos,
nasceste para ser esposa de algum roble.
Somente os montes te podem suster,
gravada estás em tronco sensitivo,
esculpida no sol forte dos vinhedos.
O mineiro descobre para te ouvir e ver
As surdas galerias do mineral cativo
E, pela terra, as leva a teus dedos.
Teus dedos e unhas fulgem como carvões,
ameaçando fogo até aos astros
porque em metade da palavra pões
um sangue que deixa fósforo em seus rastros.
Clamam teus braços que até fazem espuma
ao chocar contra o vento:
transbordam de ti o peito e as artérias
porque tanta maldade se consuma,
porque tanto tormento,
porque tantas misérias.
Os ferreiros te cantam ao som da ferraria,
Pasionaria escreve o pastor no seu cajado
e o pescador com beijos desenha-te nas velas.
Escuro o meio-dia,
a mulher redimida e exaltada,
naufragadas e feridas as gazelas
reconhecem-se sob o fulgor que envia
tua voz candente, manancial de estrelas.
Queimando com o fogo da cal mais abrasada,
Falando com a boca dos poços minerais,
mulher, Espanha, mãe em infinito,
és capaz de produzir clarões astrais,
és capaz de arder de um único grito.
Perdem maldade e sombra tigres e carcereiros.
Por tua voz fala a Espanha das vastas cordilheiras,
a dos braços pobres e explorados,
crescem os heróis cheios de palmeiras
e morrem a saudar-te pilotos e soldados.
Ao ouvir-te bater como coberta
de meridianos, bigornas e cigarras,
o varão espanhol sai à sua porta
e sofre percorrendo planícies de guitarras.
A arder ficarás em chama erguida
sobre o arco nebuloso do olvido,
sobre o tempo que teme ultrapassar tua vida
e toca como um cego, numa ponte
de cenho envelhecido,
um violino queixoso e impotente.
Tua força cinzelada brilhará eternamente,
Fogosamente cheia de esplendores,
E quem pela cadeia foi mordido
Em teus cabelos terminará suas dores.

Miguel Hernandez

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