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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

intervenção CDU

Encontro distrital autárquico da CDU do distrito do Porto

Intervenção de Cristiano Ribeiro

Camaradas e amigos

Pediram-me para fazer uma intervenção sobre a realidade por mim sentida no Interior do Distrito do Porto.  

Julgo que na qualidade de autarca eleito pela CDU num concelho do Interior, membro de uma Assembleia Municipal (no caso de Paredes), poderei dar testemunho de algumas preocupações e problemas, sem procurar ser exaustivo ou sistemático. Assinalarei portanto desta forma alguns problemas, que deverão merecer estudo e proposta de uma intervenção séria e qualificada como é timbre da CDU.

Em primeiro lugar, abordaria muito sucintamente o problema da emigração e da mobilidade dos trabalhadores da região. Milhares, muitos milhares de trabalhadores, vivem e trabalham por períodos, mais ou menos curtos, mais ou menos longos, fora da região.

 Deles temos notícia em grandes parangonas, quando acontecem os acidentes de viação em estradas na Europa.

É verdadeiramente dramático quando se quantifica a realidade da deslocação dos residentes para obter trabalho (na construção civil, em enfermagem e outros sectores) e obter sobrevivência em áreas longínquas do território nacional como é o distrito de Bragança, a região de Lisboa, o Algarve ou a RA da Madeira. O mesmo se passa quando o destino é a Bélgica, a Inglaterra, a Suíça ou a França, ou espaços tão longínquos como a Argélia, Angola, Malawi ou as Guianas Franceses.

Sabemos todos que esses trabalhadores deixam por cá as famílias, as raízes, os amigos, tantas vezes o compromisso social e politico, e partem angustiados, cansados, tantas vezes sem esperança.

Denuncio aqui a precaridade de vida, a fragilidade física e psíquica de quem em saúde precária tantas vezes se vê obrigado a partir, uma fractura de costelas em acidente lá, e que a necessidade não permite consolidar cá, uma hipertensão grave não controlada, e que a agenda não pode tratar, um risco eminente de uma pancreatite, a que os deuses da sorte se invocam. Muitos são os novos escravos do Capitalismo.

E aqui quem fica? Uma família disfuncional, as viúvas de vivos ausentes, os filhos sem pai ou pais , os avós a serem outra vez pais, a dificuldade, ausente apoio social que permita suportar o aumento preço dos medicamentos, os  gastos com a educação, as taxas moderadoras, com as pensões tão reduzidas.

São inúmeros os casos de abandono social. Em primeiro lugar, os idosos. E esse é outro problema. Gente limitada na sua saúde física e mental, confusos, desprotegidos, a quem o contacto do telemóvel de familiares distantes conforta mas não soluciona. Gente sem apoio, ou quando se efectiva é um apoio burocratizado, de papeis, atestados, comprovativos, eu sei lá.

Gente que fica nos corredores de hospitais de um SNS em que houve um redução das camas públicas e um aumento dos apetites privados. Gente que é eliminada  sub-repticiamente das listas de cirurgia ou consulta dos hospitais para que esses hospitais tenham “rentabilidade financeira”. Gente de Penafiel que tem de se  deslocar para Amarante e de qualquer forma  porque lá se construiu um enorme edifício hospitalar desocupado e é necessário “dar-lhe ocupação”.  Gente que morre de gripe, sem aquecimento, roupa, alimentação ou cuidados médicos.

Poderia falar da caldeira da escola avariada que deixou 900 alunos sem ginástica durante vários meses. E do incómodo da direcção da escola perante a denúncia….

Poderia falar dos autarcas ou candidatos a autarcas desavindos no PS e no PSD. Poderia falar do medo, do terror e da discricionariedade em serviços públicos, onde impera o silêncio, o compadrio, a prepotência. 

Não há política verdadeira alternativa se não ousarmos questionar o modelo de sociedade, os direitos dos trabalhadores, as condições sociais dos mais desfavorecidos.

CR




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