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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O LEGADO DE OBAMA


Estamos já no mundo pós-Obama. Quer se queira quer não, o tempo mudou, mudaram os atores, mudaram as circunstâncias. E sobre Trump viraram-se os holofotes, as análises, as expetativas. Contudo ao contrário do que ainda pensam muitos, Trump é consequência de Obama, mesmo sendo uma deriva não prevista.  

Os liberais americanos esforçam-se por endeusar Obama e em descredibilizar Trump. E se isto não é difícil (embora careça de uma explicação racional), atentas as intervenções racistas, xenófobas e obnóxias do outrora candidato, já a “beatificação” de Obama e sua bajulação não se justifica á luz de um olhar mais lúcido e verdadeiro. Entre Obama e Trump, a diferença não se mascarará de alternativa.

Os liberais americanos, acompanhados agora pela imprensa mediática de influência de massas, e tendo na sombra os serviços de segurança, foram apanhados pelo seu silêncio cúmplice para com a Administração Obama. Perdidos na originalidade de um afro-americano na presidência, ou no estilo descontraído e na retórica de um discurso fácil, não perceberam que faltaram quase sempre respostas da acção politica direta, nos compromissos estabelecidos (Guantánamo, por exemplo), na ética da política, tanto em política interna como na política externa, nos 8 anos da sua administração. Acumulam-se dados sobre uma apropriação do poder desde o 11 de Setembro de 2001 por parte de uma pequena elite, centrada num círculo junto de Hillary Clinton.

Nunca a América exerceu um tão grande poder predatório e destrutivo como com Obama (e a sua secretária de Estado Hillary Clinton). Cerca de 71 bombas made in USA por dia (3 bombas por hora) só em 2016, no Iraque, na Síria, no Afeganistão, no Paquistão, na Líbia, na Somália, ogivas com urânio, os drones com misseis hellfire assassinos, 138 operações secretas de forças especiais (esquadrões da morte), o financiamento do golpe na Ucrânia contra o poder legítimo, a legitimação do golpe no Brasil, a contínua subversão na Venezuela. Nunca a mentira pública da gestão Obama, o Prémio Nobel da Paz, se tornou tão transparente como com Assange, Snowden, Manning , nas práticas de tortura,  criação do Estado Islâmico, e apoio ilegítimo ao sionismo israelita. Sob a capa da globalização, a América estende a pata e por todo o lado esbraceja.

A sociedade americana de onde emergiu Obama, com a naturalidade aparente de uma “escolha” nacional, evoluiu para o grotesco, para o imprevisível, para o risco de um protofascismo. A população branca rural e “pobre” enfrentou o desemprego, a desindustrialização, a sua frustração perante a voracidade do capital transnacional, que lhe extorquiu a casa, a propriedade e os sonhos utópicos em que nasceu. Perdida a identidade de classe, assistiu irracionalmente á propagação da visão messiânica de Trump, de uma América Primeiro (ou Única?) unida pela identidade e nacionalismo de uma só raça e religião, um só credo político, afastadas as minorias, as controvérsias, o resto do mundo. A América da política proteccionista favorável às grandes empresas americanas é muito parecida com a Alemanha de Hitler. É sobretudo no Interior do vasto país que se defrontam as teses de Trump e dos seus adversários atuais.

A atual serpente nasceu do ovo. Mas o ovo foi fecundado e fertilizado anteriormente. Trump, apresentado como lunático, coloca no poder não representantes das empresas, mas as próprias empresas. Os muros que propõe construir são os acabamentos finais da obra de Obama. O capitalismo não tem moral, antes se adapta para conseguir a sua própria sobrevivência. Aguardemos contudo.

CR

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