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segunda-feira, 3 de abril de 2017

AS NEGRAS SOMBRAS DE PEPETELA

(ou o discurso inconsequente e reacionário sobre expiação de culpas)

O livro O planalto e a estepe foi publicado em 2009 pelo escritor e antigo guerrilheiro do MPLA Pepetela. Li-o recentemente e impressionou-me muito. Trata-se de um drama pessoal, pungente, que ocorre ao longo de uma viagem, de um percurso, de uma evolução. Mas como é possível que alguém dotado de tanto talento e sensibilidade como é indiscutivelmente o escritor angolano, testemunha direta de realidades tão diversas, com compromissos pessoais e ideológicos, possa escrever uma obra, em tons explicitamente autobiográficos, tão contraditória, e tão sombria?

O tema da ficção escrita é a história de um “amor impossível”, ou “amor impedido” entre Júlio, um branco angolano do Huíla, e uma jovem mongol, que se encontram em estudos de economia em Moscovo na década de 60. Júlio, filho de colono pobre, viveu os tempos da infância no planalto angolano, com a sua multivivência com os amigos negros, a ingenuidade da infância e adolescência vividas num contexto de colonialismo e racismo. Mas aconteceu a deslocação para Coimbra para estudar, e mais tarde os estudos interrompidos pelo apelo da sua crescente consciencialização política levam-no numa longa viagem, que passa por Marrocos e termina em Moscovo, viagem essa que expõe um singular Pepetela.

Que diz surpreendentemente que então (e cito) “Coimbra e Portugal eram terras de gente temente ao poder, respeitando os mandantes, dobrada a espinha perante gansters de feira”. Que “descobre” que os candidatos a guerrilheiros negros são destinados ao treino militar enquanto os seus camaradas brancos são selecionados a tirar cursos nas academias soviéticas, contrariamente a vastos exemplos da verdade histórica (o percurso politico e institucional de Eduardo Santos, Lúcio Lara, Iko Carreira, por exemplo, desmente este “racismo branco”). Que as matérias dos currículos escolares eram “repetitivas e vazias”. Que o “internacionalismo proletário era uma treta”. E aqui começa a cruzada paranoica anti- soviética de Pepetela, que atinge por vezes lamentavelmente o nojo (“todos se sentem úteis, sem noção de serem quase inúteis. Gente feliz, portanto”).

 A trama ficcional (onde Pepetela se mostra sempre competente) é interessante mas é simples pretexto. Luar, a mongol, é filha do Ministro da Defesa, e grávida de Júlio, enfrenta a resistência da família dela baseada em pressupostos rácicos e de nacionalidade. Mais tarde, 35 anos depois, reencontram-se após uma vida de percursos diferentes mas a felicidade será por pouco tempo.

 Os pormenores/comentários são o essencial. São inúmeras as efabulações: é a tese da suspeita dos dirigentes soviéticos pelos africanos brancos, “de olhos azuis”, como espiões de Salazar infiltrados; as guias necessariamente “redondas” que são (veja-se!) “dotadas para as línguas”; o medo dos microfones omnipresente; a diferença racista entre africanos e europeus “a cheirar a alho”, pormenores que fazem parte de uma qualquer sebenta anticomunista.

Predomina a diatribe contra os hospedeiros responsáveis pela formação de uma geração de novos quadros revolucionários. A União Soviética e mais especificamente o Kremlin, “a Meca e Roma da esquerda mundial” (cito), não passaria de um lugar “divino” de “punhais escondidos” onde “se recolhia nos bastidores moedas de ouro”. E é apresentada como “o país mais avançado do mundo na ciência de manipular cérebros, com pouca ou nenhuma rentabilidade no trabalho, mas pleno emprego”. Será difícil encontrar maior reacionarismo e atentado á verdade! Quanto aos partidos comunistas eles seriam todos “iguais” com “métodos semelhantes que se reproduzem como porquinhos”… (fim de citação). Mas a perfídia maior da escrita atinge o PCF e o seu secretário geral Maurice Thorez, a quem se apontam “pequenas traições” e a morte de militantes.

O pico da deriva ideológica é a tese de que os soviéticos fizeram os estudantes africanos deixar de acreditar na religião para mais tarde o abandono de certezas ideológicas os fazerem retomar os deuses. Isto num idiota perspectiva de “acabar o curso primeiro e depois pensar segundo a sua própria cabeça”

Esta escrita de Pepetela lembra a escrita da Curva da estrada, de Ferreira de Castro, dela contudo divergindo radicalmente. Ferreira de Castro faz uma ode ao ideal da liberdade, com peripécias e contornos verosímeis, refletindo a realidade, valorizando ideais positivos, Pepetela faz um ajuste de contas ao (seu) passado, distorcendo a realidade em tons grosseiros e panfletários. A sua caracterização do apoio soviético aos movimentos de libertação nacional das colónias africanas torna-o lamentavelmente indigno do meu respeito: “criaram tremendas injustiças em todos os países onde tentaram espalhar a revolução” (cito). Os limites da ignomínia foram ultrapassados com esta infecção ideológica.

Com a construção da personagem do Júlio, o infeliz general reformado, Pepetela, o ativo general da palavra, vive as sombras de um percurso desencantado. As culpas e fracassos próprios dos quadros e dirigentes angolanos, como ele, são mais difíceis de reconhecer do que atribuir com rancor aos outros indiscutíveis influências negativas. As sombras próprias e as sombras alheias. Que descem sobre Pepetela e o transformam numa vacuidade ideológica.

CR


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