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sábado, 29 de julho de 2017

O jantar do Rei Sol e do amigo americano

Pepe Escobar

O que Donald Trump e o presidente francês Emmanuel Macron realmente conversaram durante aquela efusiva cena francesa? Sendo a França, comecemos pelo que realmente conta: a gastronomia.

Sim, aquele jantar no restaurante Jules Verne de preços absurdamente caros de Alain Ducasse na Tour Eiffel. Ótima mesa junto à janela, com bela vista. Só os grandes, com esposas, Melania e Brigitte. Os Macrons são falantes fluentes de inglês. Nenhuma inconfidência escapou do Palácio Eliseu.


O jantar no Jules Verne e a nota (em €), que não foi paga por Marcelo Odebrecht

O restaurante é parte do império de Ducasse em expansão, gerenciado pelo empresário Xavier Alberti, casado com Audrey Bourolleau, que por acaso é conselheira de agricultura do presidente Macron.
Assim sendo, fica tudo em família. E a família politica dos Macron é praticamente um quem-é-quem francês. Prevalece um grave equívoco, especialmente nos EUA, de que Macron seria outsider, lobo solitário anti-establishment. Nada mais longe da verdade.
Macron é o golden boy do establishment francês. Foi criado/apoiado por uma vasta galáxia neoliberal "pragmática", da Fundação Saint Simon ao Edmond de Rothschild Group, Instituto Montaigne e o think-tank Terra Nova, modelado pelo Instituto de Política Progressiva criado por Bill Clinton e Joseph Lieberman, e cuja tarefa é permitir que a vida económica, política e social francesa seja fertilizada pela modernidade norte-americana.
O partido político de Macron – renomeado "República em Marcha" depois da vitória nas eleições presidenciais – foi de fato inventado do nada, no ano passado, no Instituto Montaigne. Abundam laços com a Fundação Rockefeller, o Instituto Aspen, o National Endowment for Democracy e os inevitáveis neoconservadores e Straussianos. Mas principalmente, o macronismo reflete a influência de Les Gracques, um grupo de funcionários civis da ala direita do Partido Socialista e gerentes de empresas dedicados a fazer que a França se torne alucinadamente neoliberal sem qualquer limitação ou controle.

Trump só pode mesmo invejar o status de Macron, que só uma minoria crítica consegue ver pelo que realmente é: um neo Rei Sol, que controla não só o braço executivo mas também o braço legislativo do governo, a mídia-empresa dominante e a própria imagem (Brigitte vive vestida da cabeça aos pés em Louis Vuitton, empresa do bilionário Bernard Arnault, aplicado macronista; a imagem do casal é supervisionada por Mimi Marchand, rainha ladina dos paparazzi parisienses).

Todo o espectro da oligarquia francesa é macronista. O que implica que, de fato, o outsider é Trump, – não só em Washington mas inclusive para a elite de Manhattan, que em essência o despreza.

Macron, o Rei Sol, especialista em fusões e aquisições, não demorou a identificar e mergulhar num vácuo, abraçando Trump como O Amigo Americano enquanto o resto da União Europeia permanece previsivelmente paralisada pelas ramificações de "EUA em primeiro lugar" (orig. "America First").

'Especialistas' macronistas oficiais insistem que Trump, depois de conseguir o acordo de Paris, não deve permanecer autoisolado, no que tenha a ver com a Europa. Não passa de tática de diversão. O verdadeiro jogo é que Macron está tão frustrado quanto Trump, quando se trata dos superávits comerciais alemães "muito ruins – e, de um ponto de vista francês, por causa da obsessão da austeridade.

Assim sendo... o que fazer para roubar mais algumas noites de sono da chanceler Angela Merkel? Você eleva o gasto francês com a defesa acima dos 2%-do-PIB do padrão OTAN; você convida Trump para Paris e curte uma parada militar no Dia da Bastilha (completada com uma banda que toque Daft Punk, à qual Trump fez cara de quem não entendeu); e você se posiciona como principal interlocutor na União Europeia (UE). E quando a crise vier, qualquer crise, Trump telefonará para o Eliseu, não para Berlim ou Bruxelas.

O que Macron deseja para a Europa é um quadro de mercados sólidos de capitais, e uma união bancária; essa "restruturação" deve gerar trilhões de euros para o mercado de eurobonds. Macron não tem muito tempo para convencer Merkel-obcecada-por-autoridade de que esse é o caminho a seguir.

E há também a História da Grande Ásia

A Alemanha – bem como toda a máquina exportadora da União Europeia – sabe que o futuro é "rumo ao Oriente". O comércio entre UE e China, Índia, Japão, Coreia do Sul e Sudeste da Ásia já supera em US$300 bilhões a.a. o comércio da UE com os EUA. E já está acontecendo, mesmo antes de a UE assegurar status de "economia de mercado" à China, e antes do recentemente assinado acordo de livre comércio com o Japão.

As Novas Rotas da Seda, rebatizadas  Belt and Road Initiative (BRI)], com sua promessa de conectividade eurasiana total, são ganha-ganha comprovado, no que tenha a ver com distintos industriais alemães e investidores da UE. Diferente disso, na Think-tank-elândia norte-americana o tom predominante nas análises é desqualificar a Iniciativa Cinturão e Estrada como "um esquema" condenado a fracassar.

Macron está plenamente consciente de todas essas desconexões. E move-se por todo o espectro, tentando preencher qualquer vácuo. Identificou que o projeto de Trump, aquela sua política real para a Rússia, já foi enquadrado e paralisado pelo estado profundo dos EUA. Assim sendo, está conversando ativamente com Vladimir Putin – o que com certeza incluirá benefícios para o business ao longo do percurso.

Não está isolando o Irã, nem o lançando no ostracismo. Bem ao contrário, Macron sabe que investimento europeu futuro massivo na economia do Irã – de energia a infraestrutura – supera qualquer demonização infantil. Poderia ter convencido Trump de que se opor ao acordo nuclear com o Irã é proposta perdedora. O mais provável é que não o tenha feito – porque sabe que empresas francesas – não empresas dos EUA –, colherão negócios extra.

Trump sempre terá Paris

E isso nos leva de volta ao que foi realmente discutido em detalhes: Síria. Macron, abutre diplomado em questões de segurança nacional, já está muito longe do velho e já sem futuro "Assad tem de sair". E Trump não poderia concordar mais, quando Macron diz e repete que a ameaça N.º1 é o terror salafista.

Assim sendo, temos Putin, Trump e Macron praticamente em sincronia. Macron com certeza identificou o quanto a narrativa de prender-matar-rebentar a Síria já está andando de lado – bem rápido. Aleppo já está dedicada ao futuro que a espera sem jihadistas. E a China já pensa na Síria como nó da Nova Rota da Seda.

Funcionários da União Europeia espalham que, sem mudança de regime, nem agora nem em futuro próximo, a UE não financiará a reconstrução da Síria pós-guerra: não passa de ameaça oca. Damasco já anunciou que China, Rússia e Irã terão preferência nos contratos de reconstrução. A OTAN, afinal, vive desde 2011 com a ideia da mudança de regime.

Não se sabe ainda com certeza se Macron conseguiu gravar no cérebro d'O Amigo Americano que uma Síria livre de terroristas e unida é excelente para o business – e abre caminho para muitos outros negócios, em todos os fronts. Claro, assumindo-se que os atuais e futuros cessar-fogo sejam respeitados, e elementos bandidos do Estado Islâmico não estraguem o cenário.

Assim sendo, é hora de voltar ao atoleiro – e àquela velha histérica do Russiagate 24/7.


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