Intervenção inicial de debate com um eleito da CDU na Assembleia Municipal de Paredes , promovido pelo Rotary de Paredes , sob o tema "O FUTURO DE PAREDES"- Dia 2 de março de 2021
Meus senhores,
Falar do futuro de
Paredes, concelho em que somos autarcas eleitos e em que trabalhamos ou
residimos, é uma tarefa aliciante.
Tudo o aqui eu disser
(e que só a mim em última instância responsabiliza) pode ser lido como desejo
inconsequente, promessa inviável ou discurso sem adesão á realidade. É um
risco. Não é meu propósito fazer proselitismo.
O desafio proposto porém
merece resposta. Que concelho desejaríamos ajudar a construir?
Certamente um
concelho de referência, não necessariamente o MELHOR, mas certamente diferente
do atual. Um concelho amigo do ambiente, atravessado de rios e riachos de águas
límpidas e margens cuidadas, e dispondo de universais infra-estruturas de
abastecimento de água e saneamento. Um concelho próspero, de raízes sólidas no
Trabalho e na sua dignidade. Um concelho de múltiplas oportunidades de
realização e de crescimento pessoal e colectivo.
O que falta?
Fazer todo um longo
caminho. Até uma nova sociedade, socialista. Utopia, dirão alguns. Correr atrás
de uma utopia vale a pena? Sim, mesmo que nunca se alcance, serve para não se
deixar de caminhar, disse-o sabiamente Eduardo Galeano.
Convém referir o que
penso, o pensamento de um comunista de idade madura, com história eivada de reflexões,
peripécias e acontecimentos.
Penso (e aqui
desapontarei alguma expetativa muito “localista” dos meus caros anfitriões) que
antes de Paredes _ o seu passado, presente e futuro _ está o Pais. O todo
condicionará sempre a parte. Nunca haverá ilhas possíveis de um diferente desenvolvimento
e de progresso num Pais unitário, não regionalizado.
Tenho como certo que
é preciso construir sistematicamente e com persistência uma sociedade
diferente, uma sociedade de valores e objectivos comumente aceites, para o qual
somos (e queremos ser) atores indispensáveis.
Duas frivolidades:
- O País será sempre
o que os seus cidadãos quiserem, independentemente das propostas de quem
estuda, pensa e julga poder concretizar um futuro melhor.
- O País concreto tem
sempre alternativas, umas mais conformes a um destino de subalternidade, de uma
“apagada e vil tristeza”, cemitério de infelicidades e frustrações.
Estando a reler “Os
miseráveis” de Vitor Hugo, interrogo-me se a sociedade francesa aí descrita no
século XIX não será a mesma sociedade presente, nos seus traços gerais, quer
sociais quer psicológicos.
Assistimos aqui como então
a uma inaceitável desigualdade, a uma polarização da riqueza, à subversão de
princípios éticos, ao mesmo desespero, consciente ou não, perante a injustiça,
a fragilidade económica e a doença.
Os forçados de então
remetidos às galés para cumprirem penas são os emigrantes de agora, exilados em
precárias condições de trabalho na Europa dita rica, a cumprir as penas da
sobrevivência.
Será esse sempre o nosso destino?
Vejamos a nossa aposta
na Educação. Uma Educação pública, de qualidade e generalizada, desde a
infância à vida adulta, é essencial para a construção de uma sociedade melhor.
Quanto mais instruídos formos, mais capazes seremos de abrir novos rumos na
cidadania e na LIBERDADE. Sim, só é verdadeiramente livre quem dispuser de
pensamento autónomo, devidamente fundamentado, fruto de aprendizagem e experiência
própria e alheia, capaz de exprimir a sua individualidade e opinião.
Uma sociedade
participativa exige portanto conhecimento, literacia, competência, afastadas as
mediocridades e as ignorâncias. Será isto utópico?
Vejamos a nossa aposta
na Saúde. Uma Saúde ao alcance de todos constitui-se em fator de estabilidade e
segurança, baluarte numa sociedade de destino comum e solidário. Os tempos
presentes confirmam que um Serviço de Saúde público mais do que uma
circunstância, fruto de emergência, deve constituir orientação civilizacional e
permanente. Será isto utópico?
Uma sociedade com
acesso concreto e permanente aos benefícios dos avanços da ciência cumpre igualitariamente
as necessidades individuais.
Vejamos a nossa aposta no
Estado, nas suas instituições, nos seus serviços. Mais do que discutir a sua
dimensão, ou a sua reorganização, importaria discutir o exercício das suas
funções, a legitimidade da sua acção, a sua eficácia, a administração como
escola de virtudes.
Uma sociedade que
defende serviços públicos de qualidade, que se orgulha das suas instituições e
nos seus representantes, que encontra na sua acção a projecção dos seus
desejos, constitui-se em digna construtora da utopia de que falava.
Por último, falarei
um pouco do papel exigível aos comunistas e aliados na CDU. E aqui volto ao
estrito plano local. Temos obra e referências. Mesmo que limitadas.
Somos acusados de
conviver com benefício próprio com diferentes gestões autárquicas. Votamos no
passado e no presente a favor de planos e orçamentos. Os que se indignaram
ontem, de dedo em riste aceitam agora e vice-versa. Respeitamos a vontade
popular expressa em eleições. Por razões de identidade, mesmo incompreendidos
ou silenciados, somos autónomos e coerentes.
Reafirmo um
compromisso de permanente diálogo com todos, independentemente de circunstancialismos.
Não temos um guião aplicável que nos diga que por exemplo, a taxa de IMI deve
ser x ou y, independentemente de investimentos programados. Ou outras receitas programadas
ou modelos.
Procuramos ser fiéis
a um passado glorioso de 10O anos de existência, o que convenhamos, não é
pouco.
Como diz Jorge Palma,
enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar…mesmo que contra a
corrente!
Agradeço o simpático convite.
E estou disponível para o diálogo.
CR