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quarta-feira, 3 de março de 2021

Intervenção

 Intervenção inicial de debate com um eleito da CDU na Assembleia Municipal de Paredes , promovido pelo Rotary de Paredes , sob o tema "O FUTURO DE PAREDES"- Dia 2 de março de 2021 


Meus senhores,

Falar do futuro de Paredes, concelho em que somos autarcas eleitos e em que trabalhamos ou residimos, é uma tarefa aliciante.

Tudo o aqui eu disser (e que só a mim em última instância responsabiliza) pode ser lido como desejo inconsequente, promessa inviável ou discurso sem adesão á realidade. É um risco. Não é meu propósito fazer proselitismo.

O desafio proposto porém merece resposta. Que concelho desejaríamos ajudar a construir?

Certamente um concelho de referência, não necessariamente o MELHOR, mas certamente diferente do atual. Um concelho amigo do ambiente, atravessado de rios e riachos de águas límpidas e margens cuidadas, e dispondo de universais infra-estruturas de abastecimento de água e saneamento. Um concelho próspero, de raízes sólidas no Trabalho e na sua dignidade. Um concelho de múltiplas oportunidades de realização e de crescimento pessoal e colectivo.

O que falta?

Fazer todo um longo caminho. Até uma nova sociedade, socialista. Utopia, dirão alguns. Correr atrás de uma utopia vale a pena? Sim, mesmo que nunca se alcance, serve para não se deixar de caminhar, disse-o sabiamente Eduardo Galeano.

Convém referir o que penso, o pensamento de um comunista de idade madura, com história eivada de reflexões, peripécias e acontecimentos.

Penso (e aqui desapontarei alguma expetativa muito “localista” dos meus caros anfitriões) que antes de Paredes _ o seu passado, presente e futuro _ está o Pais. O todo condicionará sempre a parte. Nunca haverá ilhas possíveis de um diferente desenvolvimento e de progresso num Pais unitário, não regionalizado.

Tenho como certo que é preciso construir sistematicamente e com persistência uma sociedade diferente, uma sociedade de valores e objectivos comumente aceites, para o qual somos (e queremos ser) atores indispensáveis. 

Duas frivolidades:

- O País será sempre o que os seus cidadãos quiserem, independentemente das propostas de quem estuda, pensa e julga poder concretizar um futuro melhor.

- O País concreto tem sempre alternativas, umas mais conformes a um destino de subalternidade, de uma “apagada e vil tristeza”, cemitério de infelicidades e frustrações.

Estando a reler “Os miseráveis” de Vitor Hugo, interrogo-me se a sociedade francesa aí descrita no século XIX não será a mesma sociedade presente, nos seus traços gerais, quer sociais quer psicológicos.

Assistimos aqui como então a uma inaceitável desigualdade, a uma polarização da riqueza, à subversão de princípios éticos, ao mesmo desespero, consciente ou não, perante a injustiça, a fragilidade económica e a doença.

Os forçados de então remetidos às galés para cumprirem penas são os emigrantes de agora, exilados em precárias condições de trabalho na Europa dita rica, a cumprir as penas da sobrevivência.

 Será esse sempre o nosso destino?

Vejamos a nossa aposta na Educação. Uma Educação pública, de qualidade e generalizada, desde a infância à vida adulta, é essencial para a construção de uma sociedade melhor. Quanto mais instruídos formos, mais capazes seremos de abrir novos rumos na cidadania e na LIBERDADE. Sim, só é verdadeiramente livre quem dispuser de pensamento autónomo, devidamente fundamentado, fruto de aprendizagem e experiência própria e alheia, capaz de exprimir a sua individualidade e opinião.  

Uma sociedade participativa exige portanto conhecimento, literacia, competência, afastadas as mediocridades e as ignorâncias. Será isto utópico?

Vejamos a nossa aposta na Saúde. Uma Saúde ao alcance de todos constitui-se em fator de estabilidade e segurança, baluarte numa sociedade de destino comum e solidário. Os tempos presentes confirmam que um Serviço de Saúde público mais do que uma circunstância, fruto de emergência, deve constituir orientação civilizacional e permanente. Será isto utópico?  

Uma sociedade com acesso concreto e permanente aos benefícios dos avanços da ciência cumpre igualitariamente as necessidades individuais.

Vejamos a nossa aposta no Estado, nas suas instituições, nos seus serviços. Mais do que discutir a sua dimensão, ou a sua reorganização, importaria discutir o exercício das suas funções, a legitimidade da sua acção, a sua eficácia, a administração como escola de virtudes.

Uma sociedade que defende serviços públicos de qualidade, que se orgulha das suas instituições e nos seus representantes, que encontra na sua acção a projecção dos seus desejos, constitui-se em digna construtora da utopia de que falava.

Por último, falarei um pouco do papel exigível aos comunistas e aliados na CDU. E aqui volto ao estrito plano local. Temos obra e referências. Mesmo que limitadas.  

Somos acusados de conviver com benefício próprio com diferentes gestões autárquicas. Votamos no passado e no presente a favor de planos e orçamentos. Os que se indignaram ontem, de dedo em riste aceitam agora e vice-versa. Respeitamos a vontade popular expressa em eleições. Por razões de identidade, mesmo incompreendidos ou silenciados, somos autónomos e coerentes.

Reafirmo um compromisso de permanente diálogo com todos, independentemente de circunstancialismos. Não temos um guião aplicável que nos diga que por exemplo, a taxa de IMI deve ser x ou y, independentemente de investimentos programados. Ou outras receitas programadas ou modelos.

Procuramos ser fiéis a um passado glorioso de 10O anos de existência, o que convenhamos, não é pouco.

Como diz Jorge Palma, enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar…mesmo que contra a corrente!

Agradeço o simpático convite. E estou disponível para o diálogo.

CR