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sábado, 6 de novembro de 2021

DA HISTÓRIA

 O DEPUTADO MUDO E O JOVEM GOMES DA SILVA

Guardo densa memória daquela visita à União Soviética.

Admito que, se houvesse participado de uma delegação similar, Kafka teria escrito um conto fantástico inspirado pelos seus pequenos e estranhos incidentes.

Foi no ano 91. Retribuíamos a vinda a Portugal de uma delegação do Soviete Supremo. A URSS tinha entrado em agonia. Os parlamentares soviéticos tais coisas disseram durante um jantar em Lisboa que o deputado Guilherme Silva pelo PSD, fascinado, condensou o seu apreço num comentário: «Verifico com satisfação que os senhores deputados da URSS estão mais próximos ideologicamente do PSD do que das ideias dos deputados Odete Santos e Miguel Urbano, presentes nesta mesa»

Eramos seis na delegação da AR que meses depois visitou o país de Lenine: os deputados Sottomayor Cardia e Manuel Alegre do PS, eu pelo PCP, e três representantes do PSD: Pedro Roseta, o jovem Rui Gomes da Silva e um cidadão cujo nome não recordo, eleito pelo Algarve. Dele se sabia somente que estava ligado à Construção Civil. Tinha, como parlamentar, a vocação da mudez. Nunca lhe ouvi a voz no plenário de S. Bento.

Pedro Roseta, que chefiava a delegação, temia os seus dois correligionários. Inteligente e culto, receava os efeitos da verborreia de um e da eventual ruptura do silêncio do outro.

A primeira situação kafkiana ocorreu em Leninegrado durante um almoço oferecido à delegação pelo Presidente da Câmara da cidade.

Interrompendo uma fala da tradutora que enaltecia a sabedoria militar do defunto czar Nicolau II, o deputado mudo formulou uma pergunta algo embaraçosa: «quando custa em média em Leninegrado _ indagou­ _ o metro quadrado de terreno? Sou construtor e gostaria de saber.»

O alcaide, gorbatcheviano militante, hesitou, inquieto. Não quis explicar que, sendo a URSS um país socialista, os solos eram bem público, não estando a venda. Numa resposta enovelada afirmou que o problema da construção estava em debate e que os terrenos ainda não podiam ser adquiridos.

Inconformado e surpreendido, o parlamentar construtor insistiu:

«Sim, mas, por favor, faça um cálculo. Em média qual o valor do metro quadrado?»

O Presidente da Câmara, não querendo desagradar ao empresário, atirou para o ar, em rublos, um número inventado no momento.

O deputado silencioso puxou da calculadora, fez a conversão, e comentou:

«Incrível. É baratíssimo. Por esse preço, se me autorizassem, comprava um bairro inteiro de Leninegrado para construir prédios».

A atmosfera do almoço mudou a partir desse desabafo. A intérprete traduziu com entusiasmo. O deputado construtor logo passou a receber demonstrações de apreço excepcionais. Dirigiram-se-lhe como a um Rockefeller lusitano. O resto da delegação foi ignorado.

Dias depois, em Samarcanda, no Uzbequistão, durante a visita a uma fábrica de tapetes, o deputado mudo voltou a falar. Quis saber o custo do metro quadrado das peças expostas. Informado de que dependia da qualidade, anotou os preços e comentou sorridente:

«É tudo praticamente de graça. Pena que não possa levar um carregamento no avião da Aeroflot»  

O director da fábrica deu algumas ordens secas e minutos depois surgiram funcionários carregados, e montes de tapetes orientais, magníficos, foram desdobrados na sala, envolvendo o deputado. O homem quase se assustou. Fez-me pensar em personagens das Mil e Uma Noites.

Do então jovem Rui Gomes da Silva­ _ de cuja existência eu tomara conhecimento quando caiu do ar, em nevoento episódio, com um avião vindo da Jamba do Savimbi em companhia do filho de Mário Soares_ a lembrança mais forte, impagável, que conservo é a de uma conversa no Hotel Moskva , onde estávamos hospedados.

Uma manhã abordou-me para fazer uma confissão e pedir um conselho.

Vinha de cenho franzido.

«Trata-se de uma questão delicada_ esclareceu. Trouxe uma mala cheia de coisas que pretendo desfazer-me e não sei como…»

Sugeri que fosse um pouco mais preciso.

«Não quero jogar tudo no cesto dos papéis e não sei como destruir aquilo»

«Oh homem, mas de que se trata afinal?«

Gomes da Silva pousou em mim um olhar vazio e a confissão chegou, tímida, em voz baixa:

«Estamos a comer estupendamente. Eles oferecem-nos banquetes pantagruélicos. Foi uma surpresa para mim. Na mala eu trouxe uma montanha de pacotes de bolachas portuguesas. Foi conselho de amigos do meu partido. Disseram-me que ia passar fome na Rússia…»

Hoje é ministro.  

MIGUEL URBANO RODRIGUES