FILOSOFIAS E REALIDADES
O Homem moderno vive assoberbado por necessidades e
vivências típicas do presente, mas que aparentemente o impedem de estudar e
refletir sobre o passado e, muito menos, de sonhar e projetar-se no futuro. Ele
vive para a sobrevivência ou o sucesso imediato, algumas vezes para a
satisfação imediata de desejos e emoções. E não se diga que isto é exclusivo da
juventude.
O passado não o seduz claramente, o futuro não o
compromete. Assim assume-se como obediente de um curso, de um rio, que sente
que lhe bordeja a existência. Daí resulta a sua adesão a respostas simples,
primárias, e a simpatia por sentimentos básicos e globais. Mais do que
protagonista, ele quer-se espectador.
Porém não havendo filtros de racionalidade ou
moderação na narrativa que lhe impõem, ou que a si próprio se impõe, ele vê-se
confrontado muitas vezes com o insólito, o intraduzível, o inexplicável.
A consciência afasta-se da razão e caminha pelos
caminhos do místico, do burlesco e do medo. Como compreender o outro, o
diferente, aquele mais complexo ou mais sábio? O Eu é incapaz, e o Nós,
fragilizado, também. O silêncio instala-se. Nada se quer útil. Nada pode ser
útil. Só a mentira, o logro, seduz.
Caminha-se para um fim remoto. O pensamento
organizado, escorreito, está como se ele próprio percorresse uma estrada em
obras. E a dúvida acelera-se. Será a nova via local aceitável de navegação e
trânsito?
O génio do mal soltou-se da garrafa. Recentemente
descobriu-se uma rede organizada de criminosos, com ligações à estrema direita
mais reacionária, preparando um assalto violento às instituições democráticas.
Como é possível? Qual a sua extensão? Que cumplicidades? São a violência, o
ódio, as armas legais e ilegais, as comunicações encriptadas, a organização de
milícias, a infiltração nas forças de segurança, a pulverização de nomes e
associações com o mesmo fim (Portugueses Primeiro, 1143, Blood and Honour,
Hammerskins, Habeas Corpus, Movimento Armilar Lusitano). No Relatório Anual de
Segurança Interna, a sua actividade foi liminarmente e inexplicadamente apagada. Por quem? Porquê?
Já se sabia da existência e influência dos neonazis
nas redes sociais. Já se conheciam as ligações, algumas familiares, com
partidos parlamentares e outros. O caldo de cultura e os financiamentos são
conhecidos.
O aparelho de Estado está permeável. Uma responsável
da Unidade Nacional Contra o Terrorismo da PJ veio a público com a equiparação da extrema direita e uma “extrema esquerda”.
Convinha que esclarecesse que factos conhece, para uma tal simetria. O mesmo
disse Carlos Moedas, mas esse é demasiado pequeno para se levar a sério.
Se não, perguntar-se-á: Quem nos
protege da Polícia? Ou da Justiça? Quem nos protege das infiltrações nas Forças
de Segurança? Quem nos protege do aparelho de Estado, de um Estado Democrático,
exposto a ideais neonazis? Nós, resistindo com coragem.
CR