um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

domingo, 22 de outubro de 2023

TEXTO

 A COR-DE-ROSA

O Primeiro Ministro António Costa reuniu com o Ministro da Saúde e com o Diretor Executivo do SNS. E disso quis dar testemunho. Da reunião, em momento crítico, terá resultado para um público interessado uma única conclusão: os problemas das urgências são devidos à não utilização generalizada do SNS24 e ao comportamento dos utentes. Compreendo a interessante conclusão. É o espetável.

Este António Costa nunca reconheceria que o problema das Urgências estaria nos recursos humanos disponíveis a montante, na motivação dos profissionais de saúde, na sua indisponibilidade para realizar horas extraordinárias excessivas, na incompetência de muitas Administrações da Saúde, na evolução demográfica. Isso seria esperar demais para a auto-suficiência contentinha de um Poder por vezes absoluto, autocrático e autista no sector. A atual crise, para António Costa, resolver-se-ia com uma mera ligação telefónica dos utentes para o SNS24, chave de resolução, pois este é considerado porta de entrada do SNS. Serão portanto os utentes, iletrados e descuidados consumidores de serviços, os verdadeiros responsáveis pelo caos existente. Compreendo a argumentação, mas discordo completamente.

A realidade atual das Urgências desmente quaisquer ilibações das responsabilidades do Governo e do Ministério. As Urgências Hospitalares fechadas, os SASU`s sem médicos, o condicionamento dos serviços públicos de saúde, a intransigência negocial, o deixa-andar prolongado, a ineficácia na decisão, a falta de empenhamento, contribuem para um resultado preocupante. A Saúde dos portugueses é assunto demasiado importante para se restringir a um acesso a uma plataforma digital, pois é sempre na presença física dos profissionais, na gestão oportuna dos problemas, que está a solução. Não se tratam problemas de saúde na sua esmagadora maioria por telefone.

Ousa-se falar em crescente investimento ao longo dos anos com a Saúde. Ousa-se falar em crescente número de consultas, de episódios de urgência, e de cirurgias efetuadas. Costa estará no País das Maravilhas.

Talvez fosse importante referir que 40% do investimento publico, do orçamento para a Saúde, vai para os privados, para medicamentos, exames complementares de diagnóstico, tratamentos, internamentos, cirurgias SIGIC, cuidados assistenciais na comunidade, que assim o embolsam. Talvez fosse importante falar de uma contabilidade “criativa” que conta como efetuadas consultas não presenciais, oportunas “faltas” atribuídas a utentes, devoluções de pedidos de referenciação, comunicações por e-mail, etc. Talvez fosse importante referir que as boas práticas em Medicina Geral e Familiar, em Pediatria, em Obstetrícia, e outras, estão há muito sacrificadas por falta de recursos, por falta de equipamentos, por ausência de respostas, por não cumprimento de normas orientadoras e protocolos.

Uma visão cor-de-rosa desvirtua a necessidade de amplas medidas de salvaguarda do SNS público. Diz António Costa que as novas gerações de médicos têm uns enigmáticos “novos hábitos de trabalho”. Não sei de que fala. Talvez um jornalismo esclarecedor pudesse tentar justificar com o próprio essa afirmação. O presente difere necessariamente do passado, nas exigências colocadas. Importava ter planeado a resposta. O que não aconteceu.

CR

terça-feira, 10 de outubro de 2023

LÁGRIMAS DE GAZA


UMA AULA DE DESENHO

de Nizar Qabbani



Meu filho põe a sua caixa de pintura à minha frente

E pede-me que desenhe um pássaro.

Ponho o pincel no pote de cor cinza

E pinto um quadro com fechaduras e grades.


Seus olhos arregalaram-se surpreendidos:

…Mas isso é uma prisão, pai,

Não sabes desenhar um pássaro?

E digo-lhe-: Filho, perdoa-me.

Esqueci-me da forma dos pássaros.

 

Meu filho pousa o caderno de desenhos à minha frente

E pede-me que desenhe uma espiga de trigo.

Pego no pincel e desenho uma arma.

Meu filho ri-se da minha ignorância, perguntando:

Pai, não sabes a diferença entre uma espiga de trigo e uma arma?

E digo-lhe: “Filho, uma vez usei a forma da espiga de trigo

a forma do pão

a forma da rosa

mas nestes tempos duros

as árvores da floresta juntaram-se

aos homens da milícia

e a rosa veste uniformes escuros.

Neste tempo de espigas de trigo armadas

de pássaros armados

de cultura armada

e de religião armada

não se pode comprar pão

sem se encontrar uma arma no seu interior

não se pode colher uma rosa do campo

sem que os seus espinhos nos rasguem a cara

não se pode comprar um livro

que não vá explodir entre os nossos dedos.

 

Meu filho senta-se na berma da cama

e pede-me que recite um poema.

Uma lágrima cai de meus olhos na almofada.

Meu filho pega-a, surpreendido e diz:

Mas isto é uma lágrima, pai, não é um poema!

E digo-lhe: Quando cresceres, meu filho,

e aprenderes o “Diwan” da poesia árabe

descobrirás que palavra e lágrima são gémeas

e que o poema árabe

não é mais que uma lágrima chorada por dedos que escrevem.

 

Meu filho pega nos pincéis,

na caixa de pintura que estava à minha frente

e pede-me que lhe desenhe uma pátria.

O pincel treme nas minhas mãos

E eu afundo-me nas lágrimas.