A Cimeira das delegações
lideradas pelos Presidentes Norte-Americano e Norte- Coreano em Singapura despertou
ironicamente uma sequência anacrónica de perplexidades e de interpretações. Uma
cimeira que pretenderia por diálogo e negociações resolver um conflito
histórico e abolir um cenário apocalíptico nuclear transformou-se na mente de alguns
numa cena de enredo psicopatológico, com perturbações comportamentais
inauditas. Trump, o bom, modelo da civilização ocidental dominante, berço de
todos os princípios morais, abençoado por Deus e pela natureza, como diz a
canção, teria cedido a Kim, o pérfido, o selvagem, líder pária, ditador implacável.
Quando muitos esperavam a submissão, o vexame, o exercício prático da
superioridade militar e da vitória politica por Trump, a que se submeteria unilateralmente
Kim, encostado á parede, sem alternativas, eis que aparece um clima, uma éntente, um princípio de acordo que co-responsabiliza
e determina novos e urgentes passos para a Paz. Isto seria normal e louvável em
conflitos entre Estados ou regionais. Isso seria anseio de povos atingidos por
guerras, destruição de infraestruturas, e correntes migratórias de abandono e
miséria. Mas a nova Ordem Internacional pós Guerra Fria impôs o unilateralismo,
a dependência das periferias geográficas e politicas aos interesses do Império,
a visão única da política, a ideia do fim da História. E os hilariclintonianos de
vários matizes, de várias latitudes, com várias consciências, mas sempre
intemporais, não suportam que alguém por racionalidade, medo ou incompetência
rompa com essa nova Ordem. E Trump virou bad boy, ingénuo, desorientado,
impreparado. E Kim permaneceu como louco, sádico ou mesmo grotesco.
Há quem obtuso não aprenda nada.
Nem quando a realidade nos diz para ter esperança.
CR