um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

segunda-feira, 1 de junho de 2026

indicadores

 A FACTURA

2.204.252
Número de trabalhadores quem em janeiro receberam até mil euros de salário (dados da Segurança Social sobre a remuneração base)
1.563.710
Número de utentes sem médico de família no final de dezembro de 2025 (dados do portal da transparência do SNS). Ao mesmo tempo, desde 2011, o número de vagas abertas no internato médico é superior ao das vagas preenchidas (no ano passado, houve 2190 abertas e apenas 1915 preenchidas)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

texto

 O OVO DA SERPENTE

Ingmar Bergman, realizador sueco, filmou O ovo da serpente,  em 1977. É um filme impressivo, original no contexto da sua obra, que retrata a Berlim de 1923, numa Alemanha humilhada pela 1.ª Grande Guerra, com uma forte depressão e degradação sociais, uma hiperinflação, o medo, e a ascensão do nazismo hitleriano, tal como se concretizou nas décadas de 30 e 40 do século passado. Bergman alerta-nos assim para as circunstâncias passadas do nascimento da besta fascista e portanto para as possibilidades de um seu renascer. Já Bertold Brecht, o dramaturgo alemão, nos dizia que “a cadela do fascismo está sempre com o cio”.  

Há nas nossa sociedades muitas inquietações, ameaças e frustrações e há quem sugira respostas simples, imediatas, populistas ou falsas para os problemas que as causam. É um espécie de “envenenamento” interno, lento, sem aparente antídoto. Ou uma força que te faz obedecer, ou descrer, uma força que te põe de bem com outros e de mal contigo, como dizia Sérgio Godinho.

Há pessoas que perderam a noção de futuro, são meros sobreviventes do presente, e só. Substituímos a razão individual, o projeto de sociedade, pela emoção descontrolada de massas uivantes em êxtase. À ponderação, estudo e mesmo exigência respondemos com radicalismos inúteis, ressentimentos, boçalidade e generalizações. Espezinhamos o inferior para não contestar o superior.

Está em curso um processo de redefinição da consciência coletiva, do interesse coletivo, um tsunami que abala alicerces sólidos e apoios conjunturais. A serpente já saiu novamente do ovo. Invadiu o espaço público, as instituições, a vida social. Tem outra pele, outros instrumentos, mas é a mesma serpente.

Em tempo de refluxo, a civilização tem de resistir à barbárie. Com propostas e denúncias. Com coragem. Tais são as minhas reflexões do 8 de fevereiro.

 CR