O OVO DA SERPENTE
Ingmar Bergman, realizador sueco, filmou O ovo da serpente, em 1977. É um filme impressivo, original no contexto da sua obra, que retrata a Berlim de 1923, numa Alemanha humilhada pela 1.ª Grande Guerra, com uma forte depressão e degradação sociais, uma hiperinflação, o medo, e a ascensão do nazismo hitleriano, tal como se concretizou nas décadas de 30 e 40 do século passado. Bergman alerta-nos assim para as circunstâncias passadas do nascimento da besta fascista e portanto para as possibilidades de um seu renascer. Já Bertold Brecht, o dramaturgo alemão, nos dizia que “a cadela do fascismo está sempre com o cio”.
Há nas nossa sociedades muitas inquietações, ameaças e frustrações e há quem sugira respostas simples, imediatas, populistas ou falsas para os problemas que as causam. É um espécie de “envenenamento” interno, lento, sem aparente antídoto. Ou uma força que te faz obedecer, ou descrer, uma força que te põe de bem com outros e de mal contigo, como dizia Sérgio Godinho.
Há pessoas que perderam a noção de futuro, são meros sobreviventes do presente, e só. Substituímos a razão individual, o projeto de sociedade, pela emoção descontrolada de massas uivantes em êxtase. À ponderação, estudo e mesmo exigência respondemos com radicalismos inúteis, ressentimentos, boçalidade e generalizações. Espezinhamos o inferior para não contestar o superior.
Está em curso um processo de redefinição da consciência coletiva, do interesse coletivo, um tsunami que abala alicerces sólidos e apoios conjunturais. A serpente já saiu novamente do ovo. Invadiu o espaço público, as instituições, a vida social. Tem outra pele, outros instrumentos, mas é a mesma serpente.
Em tempo de refluxo, a civilização tem de resistir à barbárie. Com propostas e denúncias. Com coragem. Tais são as minhas reflexões do 8 de fevereiro.
CR
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