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domingo, 23 de junho de 2024

TEXTO

 INICIATIVA DE "PAZ" EM TURISMO RURAL ALPINO

A Cimeira da Paz na Ucrânia realizada na estância turística suíça foi a meu ver um fiasco previsível, atendendo às circunstâncias e aos promotores. Foi previsível e foi lamentável. As circunstâncias geradas incluíram o não-convite à Rússia, parte interessada, a ausência da grande maioria dos países da ONU convidados (cerca de 160), o baixo nível da representação de algumas delegações presentes, como a dos EUA, e o propósito não escondido de prolongar a guerra. Da reunião, de positivo, ficaram só imagens da bela paisagem rural local.

 E o apoio formal a Kiev expresso no documento final constitui-se em ilusório resultado, porque só 77 dos 92 países presentes o assinaram. Faltaram à iniciativa de “Paz” a China, Angola, Moçambique e muitos outros e não assinaram o documento final países como o Brasil, a Índia, a Arábia Saudita, o México, os Emiratos Árabes Unidos, a África do Sul, a Tailândia, a Colômbia, a Indonésia, a Jordânia e muitos outros. Restaram assim como entusiastas da Cimeira pouco mais do que os países da União Europeia e da NATO.

As conclusões estavam há muito pré-determinadas, sendo portanto resultado de uma manobra hipócrita das chancelarias ocidentais, com o beneplácito da Presidência Suíça, que se comportou como o cachorrinho merecedor de umas festinhas na testa… 

Alguém afirmou que a realidade atual, do campo de batalha, neste junho de 2024, teria sacrificado as perspectivas iniciais. Talvez. É difícil antever uma vitória ocidental no espaço da Ucrânia. Mas não só.

A verdadeira Paz não passa pelo discurso simplista ou maniqueísta, devê-lo-iam saber todos. E nesse particular, a anfitriã Suíça, a neutral Suiça, desperdiçou um património anterior de autonomia estratégica e resvalou decididamente para a inutilidade diplomática. A recusa da paz negociada entre a Rússia e a Ucrânia não abre qualquer porta. A alternativa é a continuação da guerra, que não interessa a ninguém e especialmente à Ucrânia.

Dos líderes ocidentais presentes, lamentavelmente só distinguiria Meloni, a Primeira-ministra italiana, não por ser personalidade apresentável, mas por ser a única com presente e algum futuro imediato. Os restantes, da Alemanha, França, Grã-Bretanha, Canadá, Japão e Estados Unidos, são velhos poltrões, desprezados nos seus países, com porta de saída da vida pública anunciada.

Das decisões desse conclave, como se viu, nada ficará para a História. A encenação foi canhestra. A fotografia oficial é elucidativa do compromisso (tal como a fotografia) distante atingido. Até Portugal apareceu, em bicos dos pés, dando uma verdadeira dimensão liliputiana da sua influência.

Apesar desta Cimeira ser uma inconsequente apreciação da guerra, sem estudo das causas, das dinâmicas, sem avaliação das capacidades, numa apreciação unilateral e no caso irrealista, desprezando o essencial, a paz é possível e desejável. A Rússia, as comunidades russas existentes, no interior e no exterior, só pararão quando virem respeitados os seus interesses vitais, a segurança colectiva regional. A NATO e a Ordem Internacional vigente já o deveriam saber. Estender armas nucleares para a fronteira russa é suicídio anunciado.  

A guerra que nunca deveria ter começado deve acabar.

CR