um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

segunda-feira, 27 de maio de 2024

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 O LEGADO E A AMNÉSIA


É sempre importante avaliar o passado recente para dele tirar conclusões. O legado de António Costa (ou do Governo do PS, se se quiser) não será excepção. O que se fez? Que problemas se resolveram ou se mantiveram? Que realizações positivas se podem assinalar?

António Costa nos dois últimos anos dispôs de condições favoráveis a um exercício qualificado do Poder. E não digo óptimas só porque houve a epidemia do COVID e a guerra na Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022.

Porém para além do discutível “equilíbrio orçamental” e de umas tantas medidas de “panaceia social”, como a política dos transportes, não houve significativo desenvolvimento, reflectido em indicadores económicos, em percepção de bem estar-social ou afirmação de identidade nacional.

Continuamos a ser um país reduzido ao sol, ao vento e à praia, vivendo da monocultura do turismo, sem autonomia estratégica, sem futuro que não passe por pedir licença a Bruxelas, a Berlim ou a Washington. Internamente,

somos condicionados por uma elite que controla a economia, as finanças, a política, as universidades, a comunicação social, com os seus serventuários, os seus filhotes, a sua alcateia. E António Costa nunca se demarcou desses interesses, dessa plumagem.

Agravou-se muito sensivelmente o sector da Educação, com resultados medíocres em muitas áreas, com um pessoal docente envelhecido e desmotivado, e ma persistente desvalorização da sua importância. Acentuou-se a tendência para o individualismo, a concorrência feroz e a desigualdade entre emissão de diplomas e competências. A confiança dos principais agentes educativos foi profundamente abalada com a trágica epopeia da recuperação do tempo de serviço perdido pelos professores. António Costa nunca valorizou a Educação como se exigia.

Na saúde, o SNS, o serviço de saúde universal e de qualidade que tínhamos, abriu fendas á luz da inércia e incompetência dos governantes, que optaram pelos interesses e agenda dos privados. Se Arnaud e outros sonharam com a sua criação, António Costa e outros insistiram na sua destruição. O contínuo de medidas, por omissão e por acção, não deixa dúvidas sobre o resultado final. António Costa, quer com Temido ou com Pizarro no leme, nunca delineou uma estratégia coerente para assegurar serviços de qualidade, essenciais, e de proximidade.

Na política externa, fomos uns cachorrinhos de rabinho a dar, alinhando nas piores iniciativas que surgem no mundo, seja na Ucrânia, seja na Palestina, sem autonomia ou vontade própria, alimentando injustiças e aventuras.

Voltamos ao início. Acumulam-se problemas, com um progresso limitado, mas que só beneficia os bancos, as multinacionais, as imobiliárias, os especuladores, o alto funcionalismo, uma classe política submissa e interesseira. A grande maioria da população, de reformados, idosos, trabalhadores no ativo, jovens licenciados, vive uma existência medíocre e limitada ao dia-a-dia, ao seu pobre rendimento, sem acesso à verdadeira informação, à Cultura, ao Lazer, à Saúde como direito, ou a Educação como oportunidade.

Mas António Costa tem já um sucessor gémeo.

CR

segunda-feira, 13 de maio de 2024

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 O INFERNO NA TERRA

Direi apenas aqui o que sei muitos já têm reflectido e dito. Como é possível? Vivemos atualmente num mundo com guerras que se eternizam, que se amplificam com o seu cortejo de consequências graves, sem que se antevejam finais de negociação e paz. O conflito tornou-se irremediável e caminha velozmente para a destruição de qualquer hipótese de negociação. A paz é tão retórica que já não se anuncia como possível. Isto seria já lamentável no quadro civilizacional em que estamos mas torna-se insustentável e irrespirável. Como é possível?

Repetimos o quadro de um século atrás. Mas agora há armas mais sofisticadas e letais, estratégias militares mais danosas, comunicações mais lineares e globais. Somos espectadores horrorizados de algo que não controlamos. A guerra, com os seus horrores, as suas indignidades, transporta-nos para zonas de consciência de uma incomodidade e impotência crescentes. 

Porém há muita gente, gente de bem, inteligência e sensibilidade, protestando nas ruas e universidades do Ocidente contra o genocídio sionista de Gaza. Também no nosso Pais (com a excepção dos jovens universitários portugueses, entretidos nas bebedeiras das Queimas das Fitas!).

Há muita gente que não suporta mais ver imagens de lençóis brancos tapando corpos de crianças e adultos, vítimas de bombardeamentos indiscriminados.

Há muita gente que já não suporta ver imagens de cidadãos vagueando com uns poucos pertences por uma faixa de terreno muito limitada, procurando segurança, um tecto e comida.

Há muita gente que já não suporta ver os seus representantes políticos alheados ou cúmplices desta carnificina étnica.

A História certamente não absolverá quem fizer da guerra instrumento de tensão, confrontação e agressão. O militarismo e a guerra não são a solução política dos conflitos internacionais. É preciso criar um novo sistema de segurança colectiva. E se na guerra da Rússia com a NATO, há que parar o projeto louco da extensão do bloco político-militar do Ocidente às fronteiras da Rússia, respeitando a vontade das populações, já a Questão Palestiniana deve ser urgentemente considerada.

Ao fim do massacre e genocídio de populações palestinianas, obtido por um cessar-fogo imediato e permanente, e apoio humanitário de urgência, conduzido pela comunidade internacional, seguir-se-ia a criação do estado Palestiniano, com as fronteiras de 1967 e capital Jerusalém Oriental. Doa a quem doer, recue quem tiver que recuar, só assim o Médio Oriente poderá trilhar justos passos de paz e prosperidade.

Na memória de todos ficarão sinais de uma violência inaudita, de uma intransigência criminosa, de uma degradação da condição humana, de vítimas e algozes. Afinal o inferno pode ser terreno.

CR