Sobre o
Cristianismo Revolucionário
Intervenção lida no debate “O PCP, os
Católicos e a Igreja”, org. Partido Comunista Português. Biblioteca de
Penacova, 7 Fev. 2015.
Todos
os que militais
debaixo
desta bandeira
não
durmais já, não durmais,
pois
que não há paz na terra. (1)
Estas parecem ser palavras de um poeta
que resolveu desenvolver o tema da bandeira comunista a partir do potente poema
de Ary dos Santos. Mas não são. São versos de um poema de Teresa de Ávila
escrito no século XVI.
Cada religião tem a sua história. As
religiões não caem do céu. São construções históricas com raízes sociais e
culturais, determinadas por complexos de relações económicas (e, portanto, de
poder). O cristianismo foi perseguido pelo Império Romano até à publicação do
Édito de Milão, no ano 313, durante o reinado do primeiro imperador cristão,
Constantino I. Este decreto estabeleceu a neutralidade do poder imperial em
relação ao credo religioso, terminando com as perseguições sancionadas
oficialmente, especialmente à comunidade cristã. Até esse momento, os cristãos
reuniam-se nas casas, nas catacumbas, escondidos. Nos Actos dos Apóstolos,
escrito por volta do ano 80, lemos algo que evoca aquilo que o pensamento
marxista designa de comunismo primitivo: “Todos os crentes viviam unidos e
possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro
por todos, de acordo com as necessidades de cada um.” (2,44-45).
“Igreja” vem da palavra grega ekklesia,
que significa assembleia. Esta comunidade de homens e mulheres livres para si e
à procura da libertação efectiva ganhou, mais tarde, uma máscara institucional,
calcificada. Tal não aconteceu por acaso. Foi uma forma da Igreja se assumir
como poder, sendo integrada no poder dominante existente. Isso tornou-se
notório em particular quando — ironia das ironias, explicada pela correlação
das forças sociais naquela época — o cristianismo se tornou religião oficial do
Império Romano no final do século IV, pela mão do imperador Teodósio I. A
partir daí, todas as outras religiões foram proibidas. Séculos depois, através
de processos e instituições como o Tribunal do Santo Ofício, vulgarmente chamado
de Inquisição, a perseguição que se tinha abatido sobre os primeiros cristãos
passou de fora para dentro da Igreja.
Em simultâneo, na generalidade, as
celebrações litúrgicas foram-se tornando funções da co-existência de classes
com interesses antagónicos, sem discurso crítico que enfrentasse essa
contradição no terreno religioso. A liturgia da palavra e a liturgia
eucarística cumpriam assim o papel de uma normalização social, conseguindo o
prodígio de celebrar a igualdade ao mesmo tempo que sancionavam a desigualdade.
Só que o lugar de um cristão numa sociedade injusta é na cruz, ou seja, é a
falar e a agir assumindo o risco de ser incompreendido, acossado, agredido, e
assassinado como Cristo foi. A insurreição contra a sujeição, a supremacia, e a
desigualdade vigentes de diversas formas na sociedade esclavagista (na qual
emergiu o cristianismo), no feudalismo, e finalmente no capitalismo, permaneceu
entre alguns cristãos ao longo de todo este processo histórico — por isso, aqui
estou e aqui estamos. Fico-me por alguns exemplos da Ordem dos Pregadores, mais
conhecida como Ordem Dominicana.
Frei António de Montesinos, como voz da
comunidade dominicana instalada na ilha Espanhola, actual ilha de São Domingos,
disse um sermão a 21 de Dezembro de 1511 que enfureceu os colonizadores do
Império Espanhol que o ouviram. Insurgia-se ele contra “a crueldade e tirania”
que via sem poder ignorar. E perguntava: “Dizei: com que direito e com que
justiça tendes este índios em tão cruel e horrível servidão? Com que autoridade
fizestes tão detestáveis guerras a estas gentes que estavam nas suas terras
[...]? [...] Estes não são homens?” (2). Repreendidos os frades, os
representantes da coroa requereram um sermão rectificador. Foi pior a emenda
que o soneto. O frade voltou à carga ainda com mais veemência. O rei Fernando
II de Aragão ordenou que frei António e os seus confrades fossem expulsos do
território. Foi o início de uma longa luta pelos direitos dos nativos das
terras conquistadas.
Frei Bartolomeu de las Casas assistiu a
tudo isto e narrou-o. Escreveu dois importantes tratados em defesa dos índios e
dos negros contra a escravidão que lhes foi imposta pelas forças colonialistas
e imperalistas, Brevíssima Relação da Destruição das Índias e Brevíssima
Relação da Destruição de África (3). Como diz Fidel Castro numa das suas
conversas com frei Betto: “A verdade mais objetiva que encontraram nos países
conquistados pelas nações mais avançadas foi a perda de sua liberdade, o abuso,
a exploração, as cadeias e, por vezes, inclusive o extermínio. É preciso
assinalar que já naquele tempo houve sacerdotes que reagiram contra aqueles
crimes inauditos, como por exemplo o padre Bartolomeu de las Casas.” (4) Sobre
frei Bartolomeu, Fidel acrescenta o seguinte em tom de elogio: “A Ordem pode se
sentir orgulhosa dele, foi um dos exemplos mais honrados, pois denunciou e se
opôs aos horrores que se seguiram à conquista” (5).
Já depois do feudalismo, em pleno
capitalismo, frei Betto, frei Tito, e outros frades de São Paulo, foram presos
durante a ditadura militar no Brasil (1964-85) e sujeitos a longos
interrogatórios e alguns a terríveis torturas. Tinham colaborado com um dos
principais resistentes ao regime, o comunista Carlos Marighella, fundador do
grupo de guerrilha Acção Libertadora Nacional (ALN). Numa carta de Janeiro de
1971 dirigida a um companheiro, frei Tito escreveu: “Para mim foi motivo de
grande satisfação ter convivido com você durante 12 meses no presídio
Tiradentes. Sob o signo deste herói que, infelizmente, virou nome de cárcere,
reuniremos os grandes ideais que o futuro do povo brasileiro tanto anseia: a
construção do socialismo. E só os verdadeiros homens é que foram chamados para
este grande ideal. Contra isso, nada vence; nem tortura e nem perseguições.”
(6)
Uma análise científica sobre a função
das instituições religiosas ao longo da história da humanidade conduz à
conclusão de que a religião tem sido usada por quem oprime e explora para
legitimar esse estado de coisas, esse statu quo. Esta legitimação tem
como base nomeadamente a invenção de uma autoridade que está acima de todos,
arrogando-se o poder de falar em nome dos deuses. Por essa razão, o frade
dominicano Yves Congar provocou escândalo, um escândalo necessário, quando
afirmou que “[o] Papa não está acima da Igreja, o Papa está dentro da Igreja”
(7). O marxismo, por estar interessado na realidade, não pode ter uma visão
idealista da religião, isto é, não pode considerar que a religião é
independente das condições históricas. A religião é também um campo de batalha,
de ideias é certo, mas também de práticas. Lembro, por exemplo, que Joseph
Ratzinger, quando era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, antes de
ser eleito papa, acusou a teologia da libertação e a sua defesa de uma prática
pela real libertação humana de ortopraxis, uma espécie de reverso da ortodoxia.
A teologia da libertação, herdeira de frei António e frei Bartolomeu, atacada
mas resistente à eliminação, suportada pela análise marxista no modo como
desvenda a exploração capitalista, tem chamado a atenção para o facto de que a
teologia se produz em determinadas conjunturas. Por esse motivo, a teologia tem
tendência para se alinhar com a ideologia da classe dominadora e dominante.
Como Engels admite, “o cristianismo era, na origem, o movimento dos oprimidos:
apareceu primeiro como a religião dos escravos e dos libertos, dos pobres e dos
homens privados de direitos, dos povos subjugados ou dispersos por Roma” (8).
Esta linhagem revolucionária que Engels identifica não se evaporou.
Nesse sentido, vale a pena voltarmos a
um discurso lido por Álvaro Cunhal a 26 de Setembro de 1975 no Porto. Estávamos
em plena campanha violenta contra o PCP. Multiplicavam-se os ataques a Centros
de Trabalho do Partido. A facção mais reaccionária da Igreja, à qual pertenciam
figuras como o cónego Melo e forças terroristas como o MDLP (responsável,
aliás, pelo assassinato do progressista padre Max), mobilizava e instigava
muitos crentes contra os comunistas. Apesar destes factores, Álvaro Cunhal não
perdeu a clareza de leitura da situação, reiterando, em primeiro lugar, a posição
do PCP de defesa intransigente da liberdade religiosa e transmitindo, em
segundo lugar, uma forte imagem de unidade: “Na luta do povo, nas fábricas, nos
campos, nos quartéis, não se pergunta quem é e quem não é católico”, todos
lutavam “ombro a ombro” (9). Mas entre uma coisa e outra, é introduzida a ideia
de que a “intolerância” e o “desrespeito pela consciência” dessas forças as
situavam longe de Cristo: “Para quem alguma vez tenha lido os Evangelhos está
perfeitamente claro que não são certamente os caciques locais fascistas e
reaccionários, os salteadores e incendiários e os seus inspiradores, que mais
próximos estão das palavras e dos actos de Cristo. Entre as aspirações sociais
dos Evangelhos na sua época e as aspirações sociais dos comunistas nos dias de
hoje há uma proximidade incomparavelmente maior do que entre as aspirações de
Cristo e as ideias objectivas dos reaccionários, mesmo que sejam elementos do
clero.” (10) Esta passagem está em linha o que eu tenho vindo a dizer. É
conhecido o aforismo do bispo brasileiro Hélder Câmara, chamado por alguns de
Arcebispo Vermelho: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando
pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista.” Um cristão deve ser
radical, na acepção elaborada por Karl Marx, não podendo abdicar de ir à raiz
das coisas, à causa dos problemas. Ao reflectirmos sobre uma afirmação tão
comum hoje em dia como a de que “não há dinheiro”, a nossa tarefa deve ser
percebermos porquê, ou melhor, compreendermos quem se está a apoderar da
riqueza que todos nós, trabalhadores, produzimos.
Ninguém nasce cristão como ninguém nasce
comunista. Vamos fazendo sentido da nossa vida com opções que nos comprometem.
É neste caminho que podemos falar em nós, força unida com objectivos comuns de
transformação do mundo, todo animado por diferentes perspectivas e contributos,
incluindo neste sujeito todas as pessoas que desejem ser nele incluídas. Nós
somos aqueles que não dormem, como diz Teresa de Ávila, porque ainda não há paz
— e também porque temos como verdadeiro que sem justiça a paz nunca triunfará.
Não é de estranhar que a palavra “esperança” seja das que mais nos une, não só
no combate à resignação, mas também no acto de dar outra destinação às nossas
vidas — como gosta de dizer José Barata-Moura —, que está, digamos assim, à mão
de semear. Termino, esperançoso, precisamente com palavras dele: “A esperança
não é uma consolação de bem-aventurança sonhada e prometida em termos de maior
ou menor proximidade e imanência. Só ganha sentido, de uma forma não
mistificadora, quando unida à força material que um projecto social de
transformação encarna, em virtude das próprias condições históricas em que se
desenvolve.” (11)
Sérgio
Dias Branco
Notas
(1) Teresa de Ávila, OCD, Seta de
Fogo, trad. José Bento, 2.ª ed. (Lisboa: Assírio & Alvim, 2011), p.
109.
(2) António de Montesinos, OP,
Bartolomeu de las Casas, OP, e Francisco de Vitória, OP, E Estes Não Serão
Homens?: Os Dominicanos e a Evangelização das Américas, trad. Catarina
Silva Nunes (Coimbra: Edições Tenacitas, 2014), p. 19.
(3) Bartolomeu de las Casas, OP, Brevíssima
Relação da Destruição das Índias, trad. Júlio Henriques (Lisboa: Edições
Antígona, 1990) e Brevíssima Relação da Destruição de África, trad.
Henriques (Lisboa: Edições Antígona, 1996).
(4) Frei Betto, OP e Fidel Castro, Fidel
e a Religião: Conversas com Frei Betto [1985] (Lisboa: Caminho, 1986), p.
192.
(5) Ibid.
(6) Apud. Betto, OP, Batismo de
Sangue: Os Dominicanos e a Morte de Carlos Marighella [1982], 9.ª ed. (Rio
de Janeiro: Editora Bertrand, 1987), p. 202, http://www.dhnet.org.br/verdade/res....
(7) Apud. Jean Coronel, OP, Acuso a
Igreja [1996], trad. José A. Pereira Neto (Lisboa: Editorial Notícias,
2003), p. 40.
(9) Álvaro Cunhal, “Discurso no Comício
do PCP / Palácio de Cristal, Porto, 26 de Setembro de 1975”, in Obras
Escolhidas Tomo V (1974-1975), coord. Francisco Melo (Lisboa: Edições
“Avante!”, 2014), p. 675.
(10) Ibid., p. 674.
(11) José Barata-Moura, Estética da
Canção Política (Lisboa: Livros Horizonte, 1977), p. 19.