um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

recordando 2011

 Projecto de Resolução N.o /XII (1.a) - Recomenda ao Governo a urgente construção do IC35

Durante muitos anos, seguramente mais de 10 anos, os vários Partidos Políticos têm defendido a necessidade da construção do IC35. Ainda no passado mês de Junho, a Assembleia Municipal do concelho de Marco de Canaveses aprovou, por unanimidade, uma moção da CDU que recomenda ao Governo que proceda à construção imediata do IC35.

Na verdade, a pretensão da construção do IC35, que visa ligar a A4 à A25, é já uma muito velha, mas justa aspiração das populações dos concelhos de Penafiel, Marco de Canaveses, Castelo de Paiva e Cinfães, entre outras.

Desde a década de 80 que se discute a necessidade de construir um itinerário complementar (IC) que seja uma alternativa à EN 106.

A EN 106 já não constitui, há muito tempo, uma verdadeira solução de mobilidade para estas populações. A elevada sinistralidade, um percurso sinuoso e o tempo que leva a ligação entre Penafiel e Castelo de Paiva, são incompatíveis com o volume de tráfego que esta via comporta, com níveis de segurança minimamente aceitáveis e com as necessidades destas populações.

Como refere o estudo de impacto ambiental do projecto de construção do IC35 “A EN 106 apresenta elevados volumes de tráfego rodoviário, não é vedada, apresenta ampla ocupação marginal e nela coexistem todos os tipos de trânsito (pedonal, agrícola, motorizado local e motorizado de médio curso), combinação não adequada a este tipo de itinerário no que se refere à sinistralidade e ao serviço prestado aos utentes da via, bem como às populações marginais”.

Quem conheça a realidade destes concelhos percebe, muito bem, o martírio que circular nesta via representa.

Importa também referir que a inexistência do IC35 acarreta elevados impactos para a economia local.

Como é sabido, a existência de vias de comunicação eficazes e eficientes, é fundamental para o desenvolvimento económico. Ora, como também é sabido, aquela região do vale do Tâmega e do Sousa enfrenta uma grave crise económica e social que importa enfrentar. Assim, a construção do IC35 pode ser determinante para a captação de investimento, atracção de empresas e consequentemente, para o aumento do emprego nestes concelhos.

Se dúvidas ainda existirem quanto à necessidade de construir o IC35 basta referir que na EN 106, de acordo com uma das várias petições que estão a ser promovidas na internet, circulam cerca de 27.000 utilizadores por dia, sendo esta uma via que, objectivamente, não tem condições para suportar tal volume de tráfego.

Ainda de acordo com os dados usados na petição, nos últimos 4 anos verificaram-se 573 acidentes, que provocaram 235 vítimas, sendo 204 feridos leves, 24 feridos graves e 7 mortes.

Onde não existem dúvidas é nas declarações de intenção quanto à construção do IC35, mas como diz o nosso povo ”de boas intenções está o inferno cheio”.

Por diversas vezes e de uma forma reiterada, diferentes responsáveis políticos, ora do PS ora do PSD, assumiram o compromisso de construir esta importante via de circulação, sem que no entanto, até aos dias de hoje, ela seja uma realidade para a vida concreta das populações. Acontece que a sua construção tem vindo a ser sucessivamente adiada.

Importa lembrar que depois da tragédia da queda da ponte Hintze Ribeiro, no dia 4 de Março de 2001, diversos responsáveis políticos assumiram o compromisso da construção do IC35.

A tragédia da ponte de Entre-os-Rios afectou estas populações de uma forma dramática, pelo que, justamente, foram assumidos diferentes compromissos para mitigar as consequências dessa tragédia.

Acontece que já passaram mais de 10 anos sobre a data em que a Assembleia da República aprovou um projecto de resolução que, entre outras medidas, recomendou a urgente construção do IC35. A resolução 28/2001, publicada a 5 de Abril de 2001, subscrita por todos os grupos parlamentares e aprovada por unanimidade diz que o Governo devia, com “carácter de prioridade absoluta” proceder ao lançamento de um conjunto de obras. Entre essas obras consta a construção do IC35.

Convém ainda lembrar que, no âmbito dos fundos comunitários, no QREN, a construção do IC35 tem vindo a ser incluída como um dos projectos alvo de financiamento. Os sucessivos atrasos podem comprometer esse financiamento pelo que urge avançar com a construção do IC35. Para o PCP, este atraso na construção do IC35 não é aceitável.

As diversas petições, que estão a ser promovidas na internet, são um sinal claro do descontentamento que este atraso está a provocar e demonstram que é tempo, de uma vez por todas, de iniciar a construção do IC35.

O PCP, lutou e irá continuar a lutar pela construção desta importante infra-estrutura. Lutou, porque no passado, em diferentes tomadas de posição públicas, exigiu ao Governo a sua construção e por diversas vezes apresentou, em sede de Orçamento do Estado, nomeadamente no PIDDAC, propostas concretas de inscrição de verbas para a construção do IC35.

E iremos continuar a lutar pela construção do IC35 porque se trata de um investimento fundamental para o desenvolvimento económico e social destes concelhos.

Assim, o PCP apresenta o presente projecto de resolução que visa pressionar o Governo PSD/CDS- PP para que este cumpra com a sua palavra e, de uma vez por todas, inicie o processo de construção do IC35.

Nestes termos e ao abrigo das disposições regimentais e constitucionais aplicáveis, a Assembleia da República recomenda ao Governo:

- Que promova, com carácter de urgência, a construção do IC35.

Assembleia da República, em 7 de Julho de 2011

 

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

mil vezes dito e redito, mil vezes verdadeiro

 O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa nos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão do peixe, da farinha, do aluguer, dos sapatos e dos remédios dependem de decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe que é imbecil, que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, corrupto, é o lacaio dos exploradores do Povo!

   Brecht

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

INTERVENÇÃO

 Exmos. Sr. Presidente da Assembleia Municipal de Paredes e restante Membros da Mesa

Exmos. Sr. Presidente da Câmara Municipal de  Paredes  e Senhores Vereadores

Exmos. Membros da Assembleia Municipal , Presidentes de Junta

Publico aqui presente

Comunicação Social

Equipa de Apoio à Assembleia Municipal

 

Caros Senhores

Estamos aqui hoje em Sessão Extraordinária desta Assembleia Municipal para discutir e votar uma proposta do PSD sobre a RESOLUÇÃO UNILATERAL  E COM  JUSTA CAUSA DO CONTRATO DE CONCESSÃO DA EXPLORAÇÃO E GESTÃO DOS SISTEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA E DE RECOLHA, TRATAMENTO E REJEIÇÃO DE EFLUENTES DO CONCELHO DE PAREDES celebrado com a BE  WATER (AP _ ÁGUAS DE PAREDES S.A. )e consequente pedido de indemnização.

A Bancada da CDU tomou conhecimento ontem dos considerandos e conclusões da referida proposta, no cumprimento de uma deliberação da Reunião de Lideres efectuada na semana passada e está por isso informada das razões e objectivos desta proposta.

A Bancada da CDU acompanhou a posição do Executivo Camarário sobre o tema, tanto o expresso na reunião do Executivo como em entrevistas à imprensa local e regional DO Senhor Presidente da Câmara, Conhece portanto a alternativa proposta pelo Executivo , o resgate da referida concessão e portanto a remunicipalização dos serviços.

Analisados os processos , e as alternativas, a Bancada da CDU votará CONTRA a referida proposta, salientando porém o esforço dos proponentes em discutir positivamente o futuro deste sector importantíssimo para a população do Concelho.

Em anterior exposição no Período de Antes da Ordem do Dia na Sessão Ordinária anterior desta Assembleia Municipal expusemos razões para o reconhecimento da necessidade de pôr fim á concessão, de parar com a privatização.

Em documento de 2009  a CDU de Baltar expunha em documento oportuno e pedagógico o processo em véspera das eleições autárquicas  e até afirmava (relembro) que um voto CDU era um compromisso com aspetos essenciais

# a rescisão do contrato de concessão com a VEOLIA

# a consagração da propriedade colectiva da água, um bem essencial

# a garantia de acesso de todas as pessoas à água potável

# os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento da própria Câmara

# preços justos para a água, Saneamento e respectivas Taxas de Ligação

# o apoio  ás famílias mais carenciadas e aos empresários locais

Finda a citação, constate-se a antecipação e previsão da CDU. Em 2009…

Mas agora em 2020 estamos, parece,  todos de acordo. A ÁGUA É UM BEM PÚBLICO E NÃO UMA MERCADORIA TRANSACIONÁVEL.

Consideramos que o  EXECUTIVO  tem todas as condições _ politicas, jurídicas, financeiras e negociais – para assumir a resolução definitiva deste imbróglio.  

Mas na proposta do PSD,  nos seus considerandos fala-se de um Aditamento de 2008. E aqui há esclarecimentos que deviam ser prestados. O PAI da privatização, desse erro estratégico, é o PSD, mas os PADRINHOS são Granja da Fonseca, Celso Ferreira, José Manuel Outeiro, entre outros. Não deveriam eles prestar aqui esclarecimentos sobre os incumprimentos, sobre as tarifas, sobre os compromissos bilaterais?

E não será que  o ADITAMENTO não terá sido um ADIANTAMENTO, em que a  GULA do negócio se sobrepôs à PRUDÊNCIA, dando-se como certo que as populações dispensariam os seus subsistemas, e portanto se faria um NEGÓCIO MAIS RENTÁVEL?

Termino em nome da CDU afirmando que aguardamos a marcação de uma Sessão ou Ponto de Ordem de próxima Assembleia Municipal onde possamos aprovar uma estratégia e uma orientação cuja conclusão final  mais segura, seja mais curta  e com custos  programáveis ou previsíveis do que na proposta do PSD.

Disse.

Cristiano Ribeiro (CDU)

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

COMUNICADO

 

VITÓRIA DOS TRABALHADORES DAS PEDREIRAS

Fim do factor de sustentabilidade nas reformas!

Há largos anos que o PCP tem lutado, em conjunto com os trabalhadores das pedreiras e das minas, pelo reconhecimento efectivo da penosidade das suas profissões, nomeadamente pela eliminação das penalizações no acesso à reforma antecipada.

Dando voz às lutas e reivindicações fomos apresentando várias propostas, incluindo em Orçamento de Estado, para eliminação de factor de sustentabilidade para as profissões consideradas de desgaste rápido, incluindo os trabalhadores das pedreiras e os mineiros.

Não deixando de destacar a importância significativa para estes trabalhadores do recente diploma aprovado em Conselho de Ministros que elimina o factor de sustentabilidade e que vem ao encontro do que temos insistentemente proposto, não podemos deixar de dizer que o mesmo vem tardiamente, pois esta proposta do PCP foi aprovada no OE de 2019.

Valeu a pena insistir, apresentar propostas, questionar o Governo e exigir a concretização da proposta do PCP que elimina o factor de sustentabilidade para estes trabalhadores. Esta é uma medida da mais elementar justiça que demonstra que lutar vale a pena.

E daqui saudamos todos os trabalhadores das pedreiras, os mineiros que há décadas lutam pelo reconhecimento efectivo da sua profissão. E daqui assumimos o compromisso de acompanhar a concretização desta medida e de lutar para que a nenhum trabalhador nesta situação seja negado este direito, mesmo aos que entregaram os seus pedidos de reforma antes da publicação deste diploma.

Estes trabalhadores podem contar com o PCP, como têm contado ao longo de largos anos em que temos acompanhado as suas lutas.

Setembro de 2020

A DIRECÇÃO SUB-REGIONAL DO VALE DO SOUSA E BAIXO TÂMEGA DO PCP

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

A TRAGÉDIA COMUNICACIONAL

 Em Cabo Delgado, norte de Moçambique há uma guerra devastadora há já dois anos. Há relatos imprecisos de ocupação territorial por parte de forças islâmicas radicais , deslocamento de populações, violência, morte. Contudo o conhecimento dos factos é incrivelmente reduzido. Aparentemente ninguém do exterior se interessa, não há correspondentes de notícias nacionais ou estrangeiros no local e posições públicas dos organismos internacionais são desconhecidas. O que se passa?  Onde está a cooperação militar de países como Portugal, a União Europeia, a União Africana, os Estados Unidos, para mediar conflito ou para o controlar? Que armas são empregues e quem as vende? Sabendo da riqueza em recursos naturais da região, como não colocar na mesa do cenário de guerra os interesses das grandes corporações internacionais candidatas à exploração desses recursos r e deles dar noticia? Onde pára o jornalismo de referência, de causas, de princípios? E a politica internacional na desacreditada ONU?

CR

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Humor



O primeiro caso de desconfinamento na história da humanidade terá ocorrido segundo virtuosas fontes bíblicas com Adão e Eva. Eles não respeitaram o isolamento social, a distância de segurança, que lhes era imposto. Desconfinaram, procriaram e assim promoveram o vírus, a que se deu então o nome de pecado original. Consta segundo as mesmas fontes que libertos mas responsáveis e num supremo ato de rebeldia pensaram em simultâneo Vamos a partir de agora avante. E assim segundo a minha historiografia terá nascido a semente da tradição e da projeção da festa. A Festa.

CR

quarta-feira, 1 de abril de 2020

POEMA

RIFÃO QUOTIDIANO

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA

domingo, 29 de março de 2020

FLICK FLACK À RETAGUARDA


Francisco Lousã na sua página de Facebook diz:
A debandada dos federalistas
O príncipe dos federalistas, Yannis Varoufakis, apresentou-se às eleições europeias com um movimento, "Primavera Europeia" (que aliás incluía um partido português) e que prometia um programa para uma UE federal e unida.
Varoufakis mudou de opinião agora. Acaba de escrever que a decisão do Reino Unido de sair da UE foi não só necessário como racional

Fiquei estupefacto. Até há pouco tempo Francisco Louçã afirmava-se federalista, de um “novo tipo”, mas federalista. O próprio BE admitia-o, tanto no ideário, como na própria organização inter-partidária europeia com o Partido da Esquerda Europeia. A sua fé federalista na União Europeia não era seguida pelo PCP e pelo PC grego. Temos agora um flick-flack. Não é somente de Varoufakis. Ser federalista hoje não é cartão de visita aconselhável. Mas ser oportunista não é bonito.   
 CR

quarta-feira, 25 de março de 2020

REFLEXÃO

Primeiro a perplexidade, depois o medo, invadiram e cegaram as nossas vidas, tornando-nos frágeis marionetas de um não controlado destino
CR

segunda-feira, 23 de março de 2020

poema

PANDEMIA
Chamem-te o que quiserem, vírus
corona, covid, pandemia: és, apenas,
mais uma face escondida da má morte,
cobarde, sem foice de ceifar-nos que se veja
e a olho nú possamos alvejar.
Não prestas. És o lado mudo,
o invisível advogado de acusação
sem contraditório, o executor,
a fogueira de uma Inquisição que às avessas
nos arde por dentro e é
tão injusta como todas as Inquisições.
Sabes que vais perder a guerra. Mas,
como sempre alegremente fazem
os que tiram prazer dela, causas,
ao enorme batalhão de soldados
que agora todos somos,
as baixas que não merecemos e que apenas
farão perdurar em nós, depois do Dia D,
o sabor amargo de uma vitória dolorosa
iluminada por milhares de velas e de flores
que enfeitarão
a vala comum aonde guardaremos,
numa fortaleza de lágrimas,
o fruto mais fértil da saudade

Nuno Gomes dos Santos

quinta-feira, 12 de março de 2020

POEMA



POEMA  BOFETADA NOJO
Lá na praia de Carcavelos
aconteceu o anormal
houve gente, muita gente
a fazer de animal

Lá na praia de Carcavelos
houve eclipse geral
e perdeu-se o bom senso
lá no meio do areal

Á declaração de pandemia global,
a ignorância
a irresponsabilidade
a palermice
o ridículo
respondeu:
“Todos ao banho, pessoal!”

Lá na praia de Carcavelos
lá na zona de Cascais
há açaimos e coleiras
a colocar nos animais.

CR

sábado, 7 de março de 2020

GENTE GUERREIRA


As primeiras vítimas em Portugal da infecção pelo COVID-19 são, não o esqueçamos, pessoas normais que certamente dispensariam o protagonismo da atual pandemia. Imagino a consciência que possuem da sua precária situação, clinica e social. Imagino o injusto sentimento de culpabilidade que transportam nestes dias. 

Por isso expresso-lhes a minha solidariedade,  atenta às circunstancias. Pessoas bem formadas, pessoas de bem, desejam-lhes uma rápida convalescença clinica e uma talvez mais tardia reabilitação social. São tão necessários, tão imprescindíveis como nós. Neles haverá sempre a fragilidade humana. Mas também haverá a capacidade de superação. Não será o isolamento terapêutico que destruirá o espirito de gente guerreira.

CR

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Fragmento da História


O Jornal de Noticias de 7 de março de 2010 noticiava a visita de João Ferreira, Eurodeputado do PCP ao Concelho de Paredes no dia anterior. Era a época do descontentamento dos utentes de saúde de Lordelo e Rebordosa, de longas filas de madrugada para obter o acesso à consulta no Centro de Saúde. Reuniu-se o eurodeputado comunista com uma Comissão de Utentes que o informou que de um universo de 20.000 utentes, cerca de 6.000 utentes de Rebordosa e Lordelo não tinham Médico de Família. João Ferreira manifestou a sua preocupação com directivas comunitárias então em discussão que apontavam para a liberalização do sector da Saúde e para a privatização dos serviços. A jornada de trabalho terminou de tarde com a visita a cooperativas de distribuição de água em freguesias do Concelho, onde se discutiu a gestão da água como bem público.


CR

domingo, 19 de janeiro de 2020

AS RUGAS DE JERÓNIMO


Um interlocutor bastante improvável referia-me muito recentemente a “necessidade” de substituir o Secretário-geral do PCP por alguém “mais novo”. Confesso ter ficado desta vez ainda mais surpreendido pela referência, tão imprevista em conversa trivial do dia-a-dia, e tão assertiva, pois surgida como se se tratasse de questão imperiosa. 

Da recente entrevista de Jerónimo de Sousa à Cristina Ferreira na SIC, muitos dizem ter ficado a (re)conhecer um ser humano especial e a lhe atribuir um grande valor. Uma instituição, lhe chamou Cristina Ferreira. 

Em Jerónimo, alguns só lhe descortinam a idade, as rugas, o olhar pesado (ou cansado), a sinceridade, a coerência, um percurso de vida historicamente datado. E por aqui ficam. Alguns porém vão mais longe. 

E lá descobrem a coragem específica de ocupar cargo político de tanta responsabilidade, sendo de origem operária, sem licenciatura ou doutoramento, a excepção em terra de doutores e especialistas.

E lá conseguem deslumbrar a capacidade e intuição para o exercício global da política, independentemente do local em que se exerce (Parlamento, Sindicato, Partido).

E lá vêem a profunda dinâmica inter-geracional dos dirigentes do Partido.

E lá observam e concluem que com Jerónimo foi e é possível uma alternativa, uma mudança de rumo, a negociação, a oposição e o confronto. Mas poucos, muito poucos, conseguem ver o que seria justo e razoável: uma identificação de 24 horas por dia, uma presença 7 dias por semana, ao serviço de uma causa, uma disponibilidade física muito exigente. Uma atualidade permanente. E isso torna-o gigante. 

O tempo de vida é finito, sabemo-lo todos. Não há determinismo histórico que nos conduza inevitavelmente para o Bem, para a Justiça ou para a Liberdade. 

São os homens que atentas as circunstancias constroem o seu futuro e da sociedade em geral. Cada um por si mas sobretudo organizados em consciência e força colectivas dá e dará sempre a sua contribuição. Para o bem e para o mal. 

Não busco na imagem física de Jerónimo a modernidade ou a atratibilidade do projeto ou a sua prova dos nove. O coletivo é muito mais forte, tal como as ideias. A idade dá-nos alguma sabedoria mas cria limitações e retira capacidades. Sabemos todos quão fútil é parecer ser o que não se é. 

Em ano de Congresso, onde para além de outros aspetos certamente se discutirá internamente os rostos e protagonistas, tenho uma certeza: Jerónimo de Sousa estará presente nessa discussão, sem interesses pessoais ou de grupo a defender, sem telhados de vidro ou património de origem desconhecida. Como sempre, exemplar. 

E por isso, desde já, obrigado, Camarada.