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domingo, 19 de janeiro de 2020

AS RUGAS DE JERÓNIMO


Um interlocutor bastante improvável referia-me muito recentemente a “necessidade” de substituir o Secretário-geral do PCP por alguém “mais novo”. Confesso ter ficado desta vez ainda mais surpreendido pela referência, tão imprevista em conversa trivial do dia-a-dia, e tão assertiva, pois surgida como se se tratasse de questão imperiosa. 

Da recente entrevista de Jerónimo de Sousa à Cristina Ferreira na SIC, muitos dizem ter ficado a (re)conhecer um ser humano especial e a lhe atribuir um grande valor. Uma instituição, lhe chamou Cristina Ferreira. 

Em Jerónimo, alguns só lhe descortinam a idade, as rugas, o olhar pesado (ou cansado), a sinceridade, a coerência, um percurso de vida historicamente datado. E por aqui ficam. Alguns porém vão mais longe. 

E lá descobrem a coragem específica de ocupar cargo político de tanta responsabilidade, sendo de origem operária, sem licenciatura ou doutoramento, a excepção em terra de doutores e especialistas.

E lá conseguem deslumbrar a capacidade e intuição para o exercício global da política, independentemente do local em que se exerce (Parlamento, Sindicato, Partido).

E lá vêem a profunda dinâmica inter-geracional dos dirigentes do Partido.

E lá observam e concluem que com Jerónimo foi e é possível uma alternativa, uma mudança de rumo, a negociação, a oposição e o confronto. Mas poucos, muito poucos, conseguem ver o que seria justo e razoável: uma identificação de 24 horas por dia, uma presença 7 dias por semana, ao serviço de uma causa, uma disponibilidade física muito exigente. Uma atualidade permanente. E isso torna-o gigante. 

O tempo de vida é finito, sabemo-lo todos. Não há determinismo histórico que nos conduza inevitavelmente para o Bem, para a Justiça ou para a Liberdade. 

São os homens que atentas as circunstancias constroem o seu futuro e da sociedade em geral. Cada um por si mas sobretudo organizados em consciência e força colectivas dá e dará sempre a sua contribuição. Para o bem e para o mal. 

Não busco na imagem física de Jerónimo a modernidade ou a atratibilidade do projeto ou a sua prova dos nove. O coletivo é muito mais forte, tal como as ideias. A idade dá-nos alguma sabedoria mas cria limitações e retira capacidades. Sabemos todos quão fútil é parecer ser o que não se é. 

Em ano de Congresso, onde para além de outros aspetos certamente se discutirá internamente os rostos e protagonistas, tenho uma certeza: Jerónimo de Sousa estará presente nessa discussão, sem interesses pessoais ou de grupo a defender, sem telhados de vidro ou património de origem desconhecida. Como sempre, exemplar. 

E por isso, desde já, obrigado, Camarada.  

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