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Revista Cx editada pela Caixa Geral de Depósitos, na sua edição Outubro /Dezembro de 2010 traz uma entrevista a
Ernâni Lopes, o conhecido professor e economista , recentemente falecido. E esta circunstância infeliz fez-me ler a entrevista com particular interesse , tentando encontrar nela enriquecedoras razões e ideias substanciais que definissem um pensamento e, no caso, um percurso de vida que se esgotava.
Certamente por grande culpa da jornalista
Maria João Alexandre, a entrevista envereda por um longo bocejo elogiativo, a que o entrevistado não soube (ou pode) fugir.
Os qualificativos dirigidos a Ernâni Lopes vão de um titular “
Guru da Nação”, a “
Consultor da Nação”, passando por “
profeta”,
“guru da economia nacional”. E continua ao longo de 6 páginas da referida revista em comentários dispersos que assinalam a sua “
visão única”, a “
conversa surpreendente”, um “
fala(r) com frontalidade”, enfim próprio tudo de um “
português com vistas largas, com fé (com maiúsculas)”.
Ernâni lá retribui os encómios com um apesar de tudo mais modesto “
eu não sou de curta duração”, mas não deixa escapar que “
quando eu falava nesse asssunto há 30 anos, as pessoas não percebiam”. Mas Maria João Pacheco , “
fascinada”, não estava para águas mornas. Vejam lá que até descobriu que “
lê-se a propósito de certos temas: Já dizia o Professor Ernâni Lopes” , a “
energia de quem não tem nada a perder”, a
“motivação nacional, algo profunda, altruísta, que o move”.
Mas perder tempo com estados de ânimo ou incapacidades jornalisticas não seria particularmente útil.
Afinal o que pensava realmente Ernâni Lopes?
Há um seu lado mais
consensual, com afirmações de que teria sido um professor “
há uma eternidade,” (desde 1965, precisa), de que ensinar é dar-se, de que ser professor é a actividade mais nobre do ser humano, de que há muita gente boa em Portugal (sendo certo que nos interessam alguns bem maus) , de que houve um “
facilitismo alastrante” no ensino e que se assistiu a “
um vale tudo para enriquecer de qualquer maneira e depressa” . Também é claro que se afirma que Portugal é um País Atlântico, que a Lusofonia é que sim e que há ligações importantes do País aos EUA. Isto parece igualmente consensual.
Já o que há de verdadeiramente propositivo em Ernâni Lopes encontra-se no meio da selva dos adjectivos e bajulações. Ele defende para o futuro de Portugal e como força motora do presente
5 domínios:
1)Turismo
2)Ambiente
3)Serviços de valor acrescentado (seniores afluentes, educação, formação, relações internacionais, saúde
4)Economia do mar
5)Cidades e desenvolvimento
Nestes domínios, uma saliência para o Mar como designio nacional e “
carácter identidário” e uma outra para as Cidades como produtoras de riqueza. Faltou tempo para desenvolver isto que é polémico. Mas sobretudo ficou o vazio das respostas que um bom jornalismo certamente faria:
Que importância teria a agricultura na correcção das assimetrias regionais? Que implicação teve a Moeda única? Que modelo de desenvolvimento no futuro? Onde param os milhões de subsidios europeus? Onde e como actuar na defesa dos interesses nacionais? Perguntas.
CRISTIANO RIBEIRO