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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O ENCÉFALO E A ESTUPIDEZ

No Portal Vermelho, sítio brasileiro do PC do B, recolhi a informação de que no Brasil, o Supremo Tribunal Federal vai decidir sobre a Interrupção da Gravidez de fetos sem cérebro. Pasmei e reli. Perante uma anomalia congénita incompatível com a vida, no Brasil ainda se discute se a sociedade aceita o aborto em caso de anencefalia.

E os argumentos roçam a imbecilidade. Alguns admitem neste caso o aborto pelo facto dos riscos para a mãe serem superiores a uma gestação comum. E por aí se ficam. Outros, grupos ditos de defesa dos direitos humanos e profissionais de saúde, alegam que a interrupção de uma gestação de um anencéfalo não pode ser considerada tecnicamente um aborto. E nessa posição defensiva tranquilizam a consciência e adormecem a inteligência.

Nos adversários da interrupção predominam as entidades reaccionárias de cunho religioso. Admitem alguns o argumento da possibilidade dos restantes órgãos de um anencéfalo poderem ser doados após 9 meses de gestação. È a mentalidade patética que nunca questiona a dor de quem não vê concretizado um acto de amor.

Remeter para o Poder Judicial o que deveria ser decisão política do legislador, constitui uma inqualificável aberração. É no Brasil de Lula, de Dilma, do progresso económico. Afinal onde começa no Brasil o encéfalo e acaba a estupidez?

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Gravidez & Aborto - Histórias da Santa Madre

A roda ininterrupta
por César Príncipe [*]
As datas mais consentâneas para referendar a problemática do aborto seriam o 13 e o 28 de Maio. O 13, porque sendo o Dia da Virgem, carrega toda a carga edificante para remissão da mulher portuguesa (atleta de alta competição europeia em abortos clandestinos e maternidades na adolescência); no 28, porque sendo o Dia do Aborto da Democracia, carrega toda a carga vexatória suportada pela mulher portuguesa. São duas efemérides de eleição da Direita Canónica, cuja virilidade preenche os calendários e os anais da História. Entretanto, que fazer?
Não serão as leis nem os sermões que impedirão o trabalhinho de clínica apetrechada ou de vão de escada. As leis apenas impelirão as grávidas para as habilidosas ou darão cobertura sanitária às situações de facto. Em Portugal, tende-se a mascarar o aborto, fingindo-se que se proíbe. Apenas se proíbe, como já referimos, a devida assistência aos ignorantes e aos desamparados. Seria mesmo interessante que certa Imprensa da especialidade averiguasse se figuras que se manifestam contra a legislação despenalizante alguma vez, no seio familiar ou extraconjugal, interromperam voluntariamente a marcha embrionária e fetal. Seria uma investigação paradigmática para ajudar a reabilitar a nossa democracia, minada pelas artes de furtar e do embuste. Referendar a lei das dez semanas? Que remédio: assim o impuseram. Mas por que não referendar o flagelo da droga, lento e lesto assassino de centenas de milhares de portugueses? Por que não plebiscitar as reformas antecipadas de titulares de cargos públicos e as indemnizações aos gestores de turno? Por que não consultaram o povo sobre a interrupção involuntária do emprego, das maternidades e das urgências hospitalares? Por que não consultaram o povo sobre as privatizações, o preço das habitações ou dos automóveis? Porque não consultaram o povo para o país aderir à NATO e à UE?
O povo só é consultado para que se pronuncie a favor dos seus adversários ou para evitar embaraços ao Bloco Central de Interesses. Não é por acaso que, no universo partidário, os adversários da despenalização do aborto são, na generalidade, adeptos da penalização das regiões. É o poder discricionário do Estado e de uma casta social sobre os úteros e sobre as terras. Não contente por dominar bancos, hipermercados, fábricas e campos, televisões e fundos europeus, a Direita ainda quer controlar as trompas de falópio. Uma questão científica se começa, entretanto, a adensar: a pílula abortiva. E depois? Referenda-se a pílula? Uma recomendação se o Sim contra a despenalização não vencer nesta campanha contra a Idade Média no séc. XXI: enquanto a miraculosa pílula não sofisticar os arsenais da clandestinidade, o remédio será depositar os filhos indesejados ou mongolóides na Roda da Maternidade Ininterrupta, uma Roda pós-moderna, talvez tipo Caixa Multibanco ou máquina de tabaco ou de bebidas e talvez nas imediações da residência de Marcelo Rebelo de Sousa ou do paço do bispo de Vila Real.
Acolhendo, com toda a solicitude, os desvalidos (diz-se que mais de vinte, trinta ou quarenta mil por ano em Portugal), a que se juntarão entre 9.000 a 10.000 que, neste momento, são aliviados em Espanha, estes depositários genéticos da Raça albergarão um potencial demográfico capaz de fornecer toda a mão-de-obra à OTA, ao TGV e às guerras que os USA/NATO empreendam pelas terras de Maomé. Que reforço de militância da Jihad Sexual Portuguesa! Imaginação ao Poder!

[*] Escritor, jornalista
Este artigo encontra-se no htpp://resistir.info/ de 1 de Fevereiro de 2007

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

ABORTO – OS NÚMEROS DA REALIDADE

O Jornal i de 22 de Dezembro de 2010 decidiu presentear-nos com um alerta alarmista: há 53 abortos legais realizados em média por dia em Portugal e o número de abortos não pára de aumentar. Os números que suportam essa ideia não a comprovam. No 2.º semestre de 2007 , registaram-se 6.257 abortos legais. Em 2008 foram 18.607. Em 2009 foram 19.572 e e de Janeiro a Agosto de 2010, estamos nos 13.033 abortos legais. Os números não justificam a ideia alarmista. Há então que “inventar”. O i não dorme. Ou pelo menos, alguém que o manipula.
As estimativas iniciais apontavam para 20 mil IVG legais por ano. Estamos ligeiramente abaixo. Bolas, nem nisto!
Há “especialistas” que dizem que na Europa os números estabilizam ao fim de 2 ou 3 anos e depois descem. E aí surgem as trombetas do alarme...e se em Portugal não for assim?

Três anos após a entrada em vigor da despenalização da interrupção voluntária da gravidez (IVG), continua a haver abortos clandestinos, certamente. Mas são “reduzidíssimos”. E já quase não há registo de entradas de mulheres com complicações nas urgências.
A percepção de que se mantém alguma prática clandestina vem do bom senso. Sendo legal interromper a gravidez até às dez semanas, há sempre casos em que o prazo limite é ultrapassado. O recurso “a práticas inseguras e sem supervisão médica” deve-se também a outros factores. O primeiro deles será a dificuldade em expor-se indo a um serviço público. Outro prende-se com os costumes, hábitos que a alteração da lei não conseguiu alterar.
A verdade é que não há dados. Uma medição possível será a das complicações de abortos que chegam aos hospitais. Aí, todos são claros: a diminuição foi “drástica” e os casos são “reduzidíssimos”...

As reincindências são sempre preocupantes. Em 2009, foram feitos 19.572 abortos, dos quais 18.961 ao abrigo da legalização da IVG a pedido da mulher. Em cerca de 16% dos casos era já um segundo aborto. Mais de 3% das mulheres iam no terceiro e 1,4% em mais de três.

Essa é uma das razões para que se defenda a revisão da lei. Há quem entenda que deve ser desburocratizada e deve incitar a uma maior intervenção dos cuidados primários. Importa ainda reforçar a educação sexual e campanhas de sensibilização. Eventualmente aplicar taxas moderadoras à IVG poderia ajudar a fazer descer as reincidências. Mas “pintar” com cores negras a IVG em Portugal como fez o i não é justo. Os direitos das mulheres são inatacáveis numa perspectiva progressista da sociedade.

Cristiano Ribeiro