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sábado, 30 de dezembro de 2023

FOICEBOOK: As cinco mensagens de Putine

FOICEBOOK: As cinco mensagens de Putine:   ANDREW KORYBKO 29 DE DEZEMBRO 2023 O Ministério da Defesa russo  confirmou   esta sexta feira  que lançou 50 ataques agrupados e u...

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Relembro texto publicado em 2011

 

DO 25 DE ABRIL À REFORMA ADMINISTRATIVA

Falar do 25 de Abril pode ser muito como pode ser pouco. Mas num órgão autárquico aprovar uma Moção sobre o 25 de Abril, tal como o vivemos em 2011, só pode ser importante. A moção foi aprovada na última sessão da Assembleia Municipal de Paredes, com 36 votos favoráveis dos deputados da CDU (os proponentes) e do PSD e 14 votos contrários do PS e do CDS. Dizia a  Moção:

Abril de 2011, volvidos 37 anos sobre a data que nos libertou de um regime retrógrado, totalitário e opressor, podemos dizer que os valores que brotaram do 25 de Abril de 1974 estão seriamente ameaçados com esta política de subserviência ao capital financeiro mundial, levando ao encerramento de milhares de pequenas empresas, impondo grandes sacrifícios ao povo Português, especialmente ao que menos têm e menos podem.

Apesar de todas as ameaças, a luta vai continuar por uma nova politica que promova os valores de Abril e dê Esperança a Portugal.

O País vive confrontado com uma profunda crise económica e social. Mais de 700.000 portugueses estão no desemprego, centenas de milhar sem proteção social, a precariedade alastra, empobrece-se a trabalhar, a emigração voltou a ser uma necessidade

Mais de 2 milhões de portugueses vivem na pobreza, o acesso a direitos essenciais, como a saúde, a habitação digna, a ação social, o ensino de qualidade, estão em resultado da política de direita cada vez mais longe de ser uma realidade para todos. Acentua-se as assimetrias entre o litoral e o interior.

Traindo os valores e ideais de Abril, o país está confrontado com uma intervenção externa por via da União Europeia e do FMI em resultado de uma decisão tomada no quadro das cedências do governo PS ao grande capital. Cedências que o povo português não pode aceitar.

Este é cada vez mais o tempo de defender e afirmar Abril! É tempo de respeitar, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República e não a subverter.

Esta Moção queima as mãos dos que foram responsáveis pelo estado a que chegou a economia e as finanças públicas. Percebe-se. O seu 25 de Abril já se extinguiu.  

E igualmente se percebe a discussão inoportuna da reorganização administrativa, que o PS e as suas extensões mediáticas pretendem implementar. Parece até que tal desígnio faz parte do pacote que a troika do capital quer implementar no processo dito de “ajuda” financeira. Aqui, como noutras áreas, o PS atua preparando o terreno da agiotagem internacional.

Reduzir concelhos, extinguir freguesias, traçar cegamente a régua e esquadro uma futura divisão administrativa, decidir contabilisticamente ganhos e perdas, receitas e despesas, parece ser proposta de alguns. Percebe-se o propósito. Isso permitir-lhes-ia criar uma gigantesca nuvem de suspeição sobre autarcas e sobre o Poder Local. Se se discute a redução /extinção de autarquias, pensará o menos avisado, é porque eles (autarcas) e elas (autarquias) gastam excessivamente ou gastam indevidamente. Nada mais falso. As verbas distribuídas às freguesias são pouco mais de 0,1% do Orçamento de Estado, são aplicadas em investimentos visíveis e de proximidade e são sujeitas ao controlo democrático das populações. E as competências e atribuições crescentes *as autarquias longe de lhes dar autonomia e eficiência, amarram-nas a politicas e a práticas de garrote centralista.   

Importa defender a capacidade das populações de terem autarcas da sua confiança, de participar nas decisões que as interessam, de expressarem o são sentimento de pertença territorial, de evidenciar a sua identidade. Uma freguesia não é uma unidade de produção, um modelo racional de lógica empresarial. é uma comunidade de interesses e afetividades.

Não alinhemos nesta cortina de fumo onde se esconde que há responsáveis pelo roubo de milhões de euros, ou politicas regressivas sociais, ou quem sacrifique impunemente a produção nacional em nome de utopias e lógicas internacionais. Extinta a escola, retiradas as unidades periféricas dos serviços públicos, extintas as estações dos CTT, só falta acabar com as freguesias e os seus agentes locais de intervenção. É o 24 de Abril.

CR

domingo, 22 de outubro de 2023

TEXTO

 A COR-DE-ROSA

O Primeiro Ministro António Costa reuniu com o Ministro da Saúde e com o Diretor Executivo do SNS. E disso quis dar testemunho. Da reunião, em momento crítico, terá resultado para um público interessado uma única conclusão: os problemas das urgências são devidos à não utilização generalizada do SNS24 e ao comportamento dos utentes. Compreendo a interessante conclusão. É o espetável.

Este António Costa nunca reconheceria que o problema das Urgências estaria nos recursos humanos disponíveis a montante, na motivação dos profissionais de saúde, na sua indisponibilidade para realizar horas extraordinárias excessivas, na incompetência de muitas Administrações da Saúde, na evolução demográfica. Isso seria esperar demais para a auto-suficiência contentinha de um Poder por vezes absoluto, autocrático e autista no sector. A atual crise, para António Costa, resolver-se-ia com uma mera ligação telefónica dos utentes para o SNS24, chave de resolução, pois este é considerado porta de entrada do SNS. Serão portanto os utentes, iletrados e descuidados consumidores de serviços, os verdadeiros responsáveis pelo caos existente. Compreendo a argumentação, mas discordo completamente.

A realidade atual das Urgências desmente quaisquer ilibações das responsabilidades do Governo e do Ministério. As Urgências Hospitalares fechadas, os SASU`s sem médicos, o condicionamento dos serviços públicos de saúde, a intransigência negocial, o deixa-andar prolongado, a ineficácia na decisão, a falta de empenhamento, contribuem para um resultado preocupante. A Saúde dos portugueses é assunto demasiado importante para se restringir a um acesso a uma plataforma digital, pois é sempre na presença física dos profissionais, na gestão oportuna dos problemas, que está a solução. Não se tratam problemas de saúde na sua esmagadora maioria por telefone.

Ousa-se falar em crescente investimento ao longo dos anos com a Saúde. Ousa-se falar em crescente número de consultas, de episódios de urgência, e de cirurgias efetuadas. Costa estará no País das Maravilhas.

Talvez fosse importante referir que 40% do investimento publico, do orçamento para a Saúde, vai para os privados, para medicamentos, exames complementares de diagnóstico, tratamentos, internamentos, cirurgias SIGIC, cuidados assistenciais na comunidade, que assim o embolsam. Talvez fosse importante falar de uma contabilidade “criativa” que conta como efetuadas consultas não presenciais, oportunas “faltas” atribuídas a utentes, devoluções de pedidos de referenciação, comunicações por e-mail, etc. Talvez fosse importante referir que as boas práticas em Medicina Geral e Familiar, em Pediatria, em Obstetrícia, e outras, estão há muito sacrificadas por falta de recursos, por falta de equipamentos, por ausência de respostas, por não cumprimento de normas orientadoras e protocolos.

Uma visão cor-de-rosa desvirtua a necessidade de amplas medidas de salvaguarda do SNS público. Diz António Costa que as novas gerações de médicos têm uns enigmáticos “novos hábitos de trabalho”. Não sei de que fala. Talvez um jornalismo esclarecedor pudesse tentar justificar com o próprio essa afirmação. O presente difere necessariamente do passado, nas exigências colocadas. Importava ter planeado a resposta. O que não aconteceu.

CR

terça-feira, 10 de outubro de 2023

LÁGRIMAS DE GAZA


UMA AULA DE DESENHO

de Nizar Qabbani



Meu filho põe a sua caixa de pintura à minha frente

E pede-me que desenhe um pássaro.

Ponho o pincel no pote de cor cinza

E pinto um quadro com fechaduras e grades.


Seus olhos arregalaram-se surpreendidos:

…Mas isso é uma prisão, pai,

Não sabes desenhar um pássaro?

E digo-lhe-: Filho, perdoa-me.

Esqueci-me da forma dos pássaros.

 

Meu filho pousa o caderno de desenhos à minha frente

E pede-me que desenhe uma espiga de trigo.

Pego no pincel e desenho uma arma.

Meu filho ri-se da minha ignorância, perguntando:

Pai, não sabes a diferença entre uma espiga de trigo e uma arma?

E digo-lhe: “Filho, uma vez usei a forma da espiga de trigo

a forma do pão

a forma da rosa

mas nestes tempos duros

as árvores da floresta juntaram-se

aos homens da milícia

e a rosa veste uniformes escuros.

Neste tempo de espigas de trigo armadas

de pássaros armados

de cultura armada

e de religião armada

não se pode comprar pão

sem se encontrar uma arma no seu interior

não se pode colher uma rosa do campo

sem que os seus espinhos nos rasguem a cara

não se pode comprar um livro

que não vá explodir entre os nossos dedos.

 

Meu filho senta-se na berma da cama

e pede-me que recite um poema.

Uma lágrima cai de meus olhos na almofada.

Meu filho pega-a, surpreendido e diz:

Mas isto é uma lágrima, pai, não é um poema!

E digo-lhe: Quando cresceres, meu filho,

e aprenderes o “Diwan” da poesia árabe

descobrirás que palavra e lágrima são gémeas

e que o poema árabe

não é mais que uma lágrima chorada por dedos que escrevem.

 

Meu filho pega nos pincéis,

na caixa de pintura que estava à minha frente

e pede-me que lhe desenhe uma pátria.

O pincel treme nas minhas mãos

E eu afundo-me nas lágrimas.

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

poema

 Os Comunistas


... Passaram bastantes anos desde que ingressei no Partido... Estou contente... Os comunistas constituem uma boa família... Têm a pele curtida e o coração valoroso... Por todo o lado recebem pauladas... Pauladas exclusivamente para eles... Vivam os espiritistas, os monárquicos, os aberrantes, os criminosos de vários graus... Viva a filosofia com fumo mas sem esqueletos... Viva o cão que ladra e que morde, vivam os astrólogos libidinosos, viva a pornografia, viva o cinismo, viva o camarão, viva toda a gente menos os comunistas... Vivam os cintos de castidade, vivam os conservadores que não lavam os pés ideológicos há quinhentos anos... Vivam os piolhos das populações miseráveis, viva a força comum gratuita, viva o anarco-capitalismo, viva Rilke, viva André Gide com o seu coribantismo, viva qualquer misticismo... Tudo está bem... Todos são heróicos... Todos os jornais devem publicar-se... Todos devem publicar-se, menos os comunistas... Todos os políticos devem entrar em São Domingos sem algemas... Todos devem festejar a morte do sanguinário Trujillo, menos os que mais duramente o combateram... Viva o Carnaval, os derradeiros dias do Carnaval... Há disfarces para todos... Disfarces de idealistas cristãos, disfarces de extrema-esquerda, disfarces de damas beneficentes e de matronas caritativas... Mas, cuidado, não deixem entrar os comunistas... Fechem bem a porta... Não se enganem...

Não têm nenhum direito... Preocupemo-nos com o subjectivo, com a essência do homem, com a essência da essência... Assim estaremos todos contentes... Temos liberdade... Que grande é a liberdade!... Eles não a respeitam, não a conhecem... A liberdade para se preocupar com a essência... Com a essência da essência...

... Assim passaram os últimos anos... Passou o jazz, chegou o soul, naufragámos nos postulados da pintura abstracta, abalou-nos e matou-nos a guerra... Deste lado tudo continuava igual... Ou não continuava igual?... Depois de tantos discursos sobre o espírito e de tantas matracadas na cabeça, alguma coisa continuava mal... Muito mal... Os cálculos tinham falhado... Os povos organizavam-se... Prosseguiam as guerrilhas e as greves... Cuba e o Chile tornam-se independentes:.. Muitos homens e mulheres cantavam A Internacional... Que estranho... Que desconsolador...

Agora cantam-na em chinês, em búlgaro, em espanhol da América... É preciso tomar medidas urgentes... É preciso proibi-lo... É preciso falar mais do espírito... Exaltar mais o mundo livre... É preciso falar dar mais matracadas... É preciso dar mais dólares... Isto não pode continuar... Entre a liberdade das matracas e o medo de Germán Arciniegas... E agora Cuba... No nosso próprio hemisfério, na metade da nossa maçã, estes barbudos com a mesma canção... E para que nos serve Cristo?... De que maneira nos têm servido os padres?... Já não se pode confiar em ninguém... Nem nos próprios padres... Não vêem os nossos pontos de vista... Não vêem como baixam as nossas acções na Bolsa...

... Entretanto trepam os homens pelo sistema solar... Ficam pegadas de sapatos na Lua... Tudo se esforça por mudar, menos os velhos sistemas... A vida dos velhos sistemas nasceu de imensas teias de aranha medievais... Teias de aranha mais duras que os ferros das máquinas... No entanto, há gente que acredita numa mudança, que praticou a mudança, que fez triunfar a mudança, que fez florescer a mudança... Caramba!... A Primavera é inexorável!

Pablo Neruda, in "Confesso que Vivi"