UMA AULA
DE DESENHO
de Nizar
Qabbani
Meu filho põe a sua caixa de pintura à minha frente
E pede-me que desenhe um pássaro.
Ponho o pincel no pote de cor cinza
E pinto um quadro com fechaduras e grades.
Seus olhos arregalaram-se surpreendidos:
…Mas isso é uma prisão, pai,
Não sabes desenhar um pássaro?
E digo-lhe-: Filho, perdoa-me.
Esqueci-me da forma dos pássaros.
Meu filho pousa o caderno de desenhos à
minha frente
E pede-me que desenhe uma espiga de trigo.
Pego no pincel e desenho uma arma.
Meu filho ri-se da minha ignorância,
perguntando:
Pai, não sabes a diferença entre uma
espiga de trigo e uma arma?
E digo-lhe: “Filho, uma vez usei a
forma da espiga de trigo
a forma do pão
a forma da rosa
mas nestes tempos duros
as árvores da floresta juntaram-se
aos homens da milícia
e a rosa veste uniformes escuros.
Neste tempo de espigas de trigo armadas
de pássaros armados
de cultura armada
e de religião armada
não se pode comprar pão
sem se encontrar uma arma no seu interior
não se pode colher uma rosa do campo
sem que os seus espinhos nos rasguem a cara
não se pode comprar um livro
que não vá explodir entre os nossos dedos.
Meu filho senta-se na berma da cama
e pede-me que recite um poema.
Uma lágrima cai de meus olhos na almofada.
Meu filho pega-a, surpreendido e diz:
Mas isto é uma lágrima, pai, não é um
poema!
E digo-lhe: Quando cresceres, meu
filho,
e aprenderes o “Diwan” da poesia árabe
descobrirás que palavra e lágrima são
gémeas
e que o poema árabe
não é mais que uma lágrima chorada por
dedos que escrevem.
Meu filho pega nos pincéis,
na caixa de pintura que estava à minha
frente
e pede-me que lhe desenhe uma pátria.
O pincel treme nas minhas mãos
E eu afundo-me nas lágrimas.
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