Há precisamente 30 anos, ao entrar pela
primeira vez no Palácio de São Bento, Jerónimo de Sousa não fazia a mínima
ideia de "como era isso de ser deputado". Quando o DN lhe propôs um
regresso às memórias dessa época, o actual secretário-geral do PCP lembra a
ruptura que se registou entre a velha Assembleia Nacional da ditadura e a
Assembleia Constituinte que contribuiu decisivamente para firmar os alicerces
do regime democrático. "Vínhamos de uma assembleia fascista, com uma
composição muito classista, onde um operário não tinha entrada."
Nesse mês de Junho de 1975, o contraste
não podia ser maior até o PPD e o CDS exibiam operários na sua bancada. Mas
nenhum outro grupo parlamentar como o PCP tinha tantos "membros da classe
trabalhadora", como se dizia na terminologia marxista, muito em uso na
época.
Um desses operários, oriundo de
Alpiarça, era António Malaquias Abalada - um operário agrícola já idoso que mal
sabia ler ou escrever. Ao fazer uma das suas primeiras intervenções no
plenário, com um discurso escrito na mão, este deputado começou a ser alvo de
chacota generalizada, bem perceptível em diversas bancadas da Constituinte. Um
episódio que indignou Jerónimo de Sousa.
Três décadas volvidas, o dirigente
máximo do PCP guarda todos pormenores da cena, que reconstitui com visível
emoção.
"Aconteceu num dia em que se
discutia uma norma transitória que o PS e o PPD acabaram por incluir na
Constituição da República. Esta norma, na altura, permitiu a libertação de
todos os pides. Esse meu camarada António Abalada, que tinha passado pelas
masmorras da PIDE, fez então uma intervenção, naturalmente sentida. Mas lia de
forma muito deficiente - gaguejante, soletrando mal as palavras. Então a
Assembleia Constituinte desatou numas gargalhadas visivelmente
humilhantes", recorda Jerónimo de Sousa.
O que se passou então? O
secretário-geral dos comunistas continua a lembrar o episódio "Então esse
meu camarada largou o papel que tinha na mão e falou assim: 'Estão-se a rir de
mim porquê? Por eu não saber ler? Pois: é que eu, aos sete anos, já andava a
guardar gado; aos 17, fui preso pela PIDE. E quando fui preso não me
perguntaram se eu era do CDS ou do PS ou do PPD. Perguntaram, isso sim, se eu
era do Partido [Comunista Português]. E foram os meus camaradas intelectuais
deste partido que me ensinaram as poucas letras que eu conheço'."
Aquelas frases espontâneas, proferidas
como reacção à deselegância dos restantes deputados, constituíram uma autêntica
lição de vida. "A verdade é que o hemiciclo emudeceu. E o camarada Abalada
lá continuou a ler - manifestamente mal, como já fizera anteriormente - a sua
intervenção sobre a tal norma transitória", recorda Jerónimo de Sousa,
também ele com raízes operárias.
Mesmo com tantos anos decorridos, a
emoção é visível na face do secretário-geral comunista ao desfiar esta memória
dos seus tempos de deputado constituinte. "Aquele foi um dos momentos mais
impressionantes que eu testemunhei no hemiciclo de São Bento, no sentido de
classe. E foi também uma lição para a arrogância intelectual de muitos
deputados", conclui Jerónimo de Sousa.











