INTERVENÇÃO
Neste dia 25 de abril de 2018, é com orgulho e satisfação que
como autarca eleito pela Coligação Democrática Unitária – CDU respondo com este
depoimento ao amável convite da Câmara Municipal de Paredes, nomeadamente da
senhora vereadora Dr.ª Beatriz Meireles.
Comemorar Abril é comemorar uma data com importante
significado na História do País, com consequências evidentes no destino de Portugal
e dos Portugueses. Com a chamada Revolução
dos Cravos, abriram-se portas até então fechadas. Surgiu a Liberdade e a
Democracia, em todas as suas expressões cívicas e politicas e aos portugueses
foram entregues as chaves de acesso ao seu futuro. Surgiu igualmente a Paz
libertadora, dentro e fora do espaço geográfico nacional. Abril foi utopia, poesia,
sonho, e projecto, sem dúvida; mas foi também proposta concreta, direitos
conquistados, progresso alcançado, afirmação individual e colectiva.
Com Abril e sempre na luta, conquistamos o salário mínimo, o
direito á Segurança Social, o acesso a um Serviço Nacional de Saúde de
qualidade, a Escola Pública.
Para uma geração como a minha, então jovem espectador e
modesto actor dessa mudança, foi um desafio entusiasmante, um compromisso permanente,
uma oportunidade de ser protagonista efectivo da História. Foram tempos
exigentes, conflituais certamente mas também inevitavelmente, foram tempos de umas
(ou várias) inequívocas verdades, sinceridades e frontalidades. O poder do povo
preencheu as ruas e mais tarde as instituições.
O Poder Local Democrático criado, de que eu e muitos de nós somos
tributários agentes, foi terreno onde muitos ainda poderão ver reflectidos
essas nobres intenções, o trabalhar com o povo e no interesse do povo através dos
órgãos democráticos eleitos.
É este Abril que aqui festejamos. É este Abril que aqui
recordamos.
Mas mal estaríamos se não identificássemos as perversões, as contradições,
ou silenciássemos o não cumprimento das esperanças tão festivamente propaladas.
A vida, dinâmica e por vezes tão contraditória, trouxe amplas surpresas
negativas, evoluções incompreensíveis.
A Banca, entretanto nacionalizada no decurso da revolução e
posteriormente generosamente privatizada, revelou-se para muitos um cancro que
ciclicamente esbulha a riqueza nacional e portanto o rendimento dos
portugueses. E a oligarquia financeira não hesitou em sequestrar os governos.
Impondo-lhes a sua estratégia e a sua impunidade.
O aparelho de Estado foi usado muitas vezes como fonte e instrumento
de acesso privilegiado a negócios particulares, funcionando com uma Administração
Pública cega e acrítica e encontrando sempre alguns políticos disponíveis para
parcerias com a ilegalidade e a fraude. Nunca foi tão directo (e pantanoso) o
caminho entre quem decide e quem lucra.
O próprio Poder Local estagnou ou se desvirtuou, respondendo
muitas vezes mais a impulsos conjunturais e menos a necessidades estruturais e
fundamentais, com delegações de competências a nível superior e para compartimentos
inferiores, não conformes com espírito de Abril.
Não esquecemos a extinção de freguesias, essa malfadada
reorganização administrativa que afastou as populações e seus interesses dos
seus eleitos.
Paredes é um bom exemplo, de responsabilidades assumidas que
se mostraram financeiramente desastrosas, hipotecando o presente e o futuro, de
patológicos projectos megalómanos e de taxas de execução de actividade não
conformes a documentos previsionais.
Como aceitar, ao recordar Abril, que as principais figuras do
Estado afirmem compreensão com “razões” e “oportunidade” de actos perigosos de
guerra, contrários á lei internacional e aos interesses dos povos, como o
recente na Síria, atrelando o País a encenações e montagens propagandísticas, e
a lideranças insensatas e mentirosas?
Como aceitar, ao recordar Abril, que haja tantos governantes
ou ex-governantes envolvidos em processos judiciais de gravidade nunca vista,
tanta corrupção e impunidade, que leva até um ex-primeiro ministro a afirmar
ufano que a vaidade é que move os políticos.
Como aceitar, ao recordar Abril, que o cidadão seja colocado,
quando no desemprego, na velhice, na doença, ou na deficiência, em situação de
fragilidade ou vulnerabilidade, porque o Estado não faz os investimentos
necessários nas áreas sociais, respondendo apenas a uma estrita lógica de
“equilíbrio orçamental”, exigida por interesses estrangeiros?
Viva Abril! Viva um Portugal de Liberdade, de Justiça e de
Independência Nacional!
Cristiano Ribeiro