A comunidade
internacional vive sobre um barril de pólvora e isso por vezes ignoramos. Há
uma transformação radical, gigantesca e arriscada da relação da anterior superpotência
mundial com o resto do Mundo. Nos Estados Unidos, origem dessa mudança, há um
novo e perigoso consenso bipartidário, de democratas e republicanos, envolvendo
também outras elites, de que os interesses norte-americanos estão ameaçados e
que o Mundo lhes é hostil. E seria estúpido e imprudente focalizar ou resumir
esse consenso à mente alienada de Donald Trump e sua Administração.
Nesse contexto, os
inimigos surgidos são muitos. Desde os tradicionais, a Rússia, a China, Cuba, o
Irão, a Venezuela, a Coreia do Norte, até os mais recentes, a Síria, a Turquia
e a própria União Europeia, todos desfilam como alvos a abater. Os
norte-americanos só têm verdadeiramente um aliado fiel, um cão de fila, o
Estado de Israel. Restam outros, cada vez mais meros associados conjunturais (como
Portugal) e países-colónias. Os pretextos para a guerra são vários: interesses
geoeconómicos, a defesa da hegemonia do US Dólar, a ambição territorial. Mas
sublinhe-se o fundamental, a lógica imperialista do capital made in States. Os tambores
rufam, a beligerância está em marcha, uma nova Guerra Fria mais complexa,
generalizada e imprevisível está em curso.
Os Estados Unidos,
contra a tendência recente do curso da História, querem afirmar uma “sua” superioridade.
O sobredimensionado super complexo militar e de segurança gasta metade do PIB norte-americano
nesse esforço vão. Veja-se o caso da Síria. Ninguém desconhece o final da
guerra interna da Síria, com a derrota do jihadismo. Agora seria o tempo
necessário da reconstrução e da reconciliação. Mas os Estados Unidos não baixam
a guarda. Instalam em pleno território sírio inúmeras bases militares, sem
justificação possível, num flagrante atentado à soberania nacional. Apoiam as
forças opositoras em acções militares nos seus últimos redutos. Consolidam a
presença dos curdos em áreas extensas como o nordeste da Síria. Colaboram com
Israel na atuação impune em todo o espaço aéreo. Promovem sanções económicas
unilaterais à Síria, como ao Irão. Mantêm uma pressão diplomática inadmissível na
ONU. Mas há limites políticos e morais para a barbárie americana na Síria. O
objetivo básico da sua louca política externa: a Rússia não pode vencer… a
China não pode vencer….o Irão não pode vencer… Damasco não pode vencer…
A guerra com a China revela-se
altamente perigosa. A China tem uma importância económica, politica e militar
que a coloca fora da perspectiva de um tratamento sobranceiro ou vexante como com
uma Coreia do Norte. A China tem uma política externa consolidada e respeitada.
As provocações no mar da China ou em Hong Kong não vão enfraquecer a liderança
chinesa. A aliança russo-chinesa envolvendo treinos militares responderá com
firmeza ao tal consenso. E a participação enfeudada de países ocidentais como
Portugal nas diatribes norte-americanas só poderão conduzir a um sacrifício dos
interesses nacionais. O apresamento do petroleiro iraniano ao largo de
Gibraltar, pela Grã-Bretanha às ordens de Washington, constitui um exemplo
perigoso de um alinhamento perverso.
CR