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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

GUERRA QUENTE



A comunidade internacional vive sobre um barril de pólvora e isso por vezes ignoramos. Há uma transformação radical, gigantesca e arriscada da relação da anterior superpotência mundial com o resto do Mundo. Nos Estados Unidos, origem dessa mudança, há um novo e perigoso consenso bipartidário, de democratas e republicanos, envolvendo também outras elites, de que os interesses norte-americanos estão ameaçados e que o Mundo lhes é hostil. E seria estúpido e imprudente focalizar ou resumir esse consenso à mente alienada de Donald Trump e sua Administração.

Nesse contexto, os inimigos surgidos são muitos. Desde os tradicionais, a Rússia, a China, Cuba, o Irão, a Venezuela, a Coreia do Norte, até os mais recentes, a Síria, a Turquia e a própria União Europeia, todos desfilam como alvos a abater. Os norte-americanos só têm verdadeiramente um aliado fiel, um cão de fila, o Estado de Israel. Restam outros, cada vez mais meros associados conjunturais (como Portugal) e países-colónias. Os pretextos para a guerra são vários: interesses geoeconómicos, a defesa da hegemonia do US Dólar, a ambição territorial. Mas sublinhe-se o fundamental, a lógica imperialista do capital made in States. Os tambores rufam, a beligerância está em marcha, uma nova Guerra Fria mais complexa, generalizada e imprevisível está em curso.

Os Estados Unidos, contra a tendência recente do curso da História, querem afirmar uma “sua” superioridade. O sobredimensionado super complexo militar e de segurança gasta metade do PIB norte-americano nesse esforço vão. Veja-se o caso da Síria. Ninguém desconhece o final da guerra interna da Síria, com a derrota do jihadismo. Agora seria o tempo necessário da reconstrução e da reconciliação. Mas os Estados Unidos não baixam a guarda. Instalam em pleno território sírio inúmeras bases militares, sem justificação possível, num flagrante atentado à soberania nacional. Apoiam as forças opositoras em acções militares nos seus últimos redutos. Consolidam a presença dos curdos em áreas extensas como o nordeste da Síria. Colaboram com Israel na atuação impune em todo o espaço aéreo. Promovem sanções económicas unilaterais à Síria, como ao Irão. Mantêm uma pressão diplomática inadmissível na ONU. Mas há limites políticos e morais para a barbárie americana na Síria. O objetivo básico da sua louca política externa: a Rússia não pode vencer… a China não pode vencer….o Irão não pode vencer… Damasco não pode vencer…

A guerra com a China revela-se altamente perigosa. A China tem uma importância económica, politica e militar que a coloca fora da perspectiva de um tratamento sobranceiro ou vexante como com uma Coreia do Norte. A China tem uma política externa consolidada e respeitada. As provocações no mar da China ou em Hong Kong não vão enfraquecer a liderança chinesa. A aliança russo-chinesa envolvendo treinos militares responderá com firmeza ao tal consenso. E a participação enfeudada de países ocidentais como Portugal nas diatribes norte-americanas só poderão conduzir a um sacrifício dos interesses nacionais. O apresamento do petroleiro iraniano ao largo de Gibraltar, pela Grã-Bretanha às ordens de Washington, constitui um exemplo perigoso de um alinhamento perverso.

CR

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