GATO ESCONDIDO?
A reportagem da CNN/ TVI produzida pela jornalista Sandra
Felgueiras sugeria uma descoberta impactante através de uma investigação jornalística
exemplar, um Exclusivo.
Há uma doença provocada, sem cura à data, internacionalmente
chamada de PSSD, que traduziria em português por Síndrome de Disfunção Sexual Pós
Administração de Antidepressivos. Uma percentagem de utentes utilizadores de
certos antidepressivos manifestariam mesmo após a descontinuação do tratamento
sintomas irreversíveis e devastadores como disfunção sexual e anestesia genital
e tal situação não estaria vinculada às indicações e contra-indicações
explicadas aos utentes pelos prescritores.
Dito assim, o aviso/alerta da reportagem pareceria muito pertinente,
e mesmo indispensável. Os profissionais de saúde devem sempre prescrever
fármacos se e quando necessários e indispensáveis, atentos a efeitos
indesejáveis já reconhecidos e abertos a soluções terapêuticas alternativas quando
existem. No contexto de uma utilização generalizada no País e no mundo de
fármacos como os antidepressivos, que parece a muitos de nós excessiva e
desproporcionada, competiria às entidades públicas da saúde, nomeadamente as
reguladoras, emitir pareceres, avisos ou recomendações sobre o tema.
Descontado algum dramatismo excessivo da reportagem de que as
imagens de depoentes “sem rosto” nos remetem para uma qualquer clandestinidade,
o tema parece sério. Li e refleti.
Haverá um número não quantificado de casos em que a
utilização de medicamentos para perturbações depressivas e ansiedade podem
criar irreversíveis desajustes sexuais. A Agência Europeia do Medicamento em
2019 já foi alertada para esse facto, procurando-se Atualizar a informação
clinica anexa às embalagens.
As dúvidas são inúmeras. Primeira dúvida: o alarme social
justifica-se pelo número de casos? E sabe-se que que as próprias perturbações
da função sexual são um dos sintomas de perturbação depressiva, muitas vezes
não diagnosticadas ou valorizadas na avaliação inicial. Daí a segunda dúvida.
Casos reais ou fictícios? E de entre os fármacos prescritos a atenção vai para
grupos específicos, os chamados Inibidores específicos da recaptação da
serotonina e os inibidores específicos da recaptação da serotonina e da noradrenalina
(nomes químicos: escitalopram, fluoxetina, venlafaxina, sertralina, paroxetina,
duloxetina, fluvoxamina…). E outra (terceira) dúvida permanece. Serão só estes
ou o mesmo se passa em outros grupos terapêuticos empregues nas perturbações mentais
e ansiedade?
Aqui chegados, perguntar-se-ia se a substituição de fármacos,
os citados como “mais comuns e acessíveis do mercado” ou “mais baratos” por
outros (mirtazapina, trazodone, bupropion, agomelatina, vortioxetina…) de
aparente “mais baixo risco” seria suficiente e apropriado.
Será que o mercado farmacêutic0 se prepara para lançamento de
novos produtos sem este “pecado original”? O gato escondido com rabo de fora,
que justificaria a reportagem?
Não me compete a mim ser totalmente esclarecedor. Tal diz
respeito às entidades científicas e de supervisão de boas práticas.
Uma coisa é certa. A abordagem necessária de terapêuticas não
farmacológicas das patologias mentais carece de uma rede de profissionais de
saúde inexistente e de práticas conexas.
CR