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Cumprimento
em nome da bancada da CDU nesta Assembleia todos os presentes nesta cerimônia evocativa
e através dos eleitos, representantes do povo, toda a população do Concelho de
Paredes
Comemoramos
agora os 40 anos da conquista da Democracia e da Liberdade. Congratulamo-nos
por o fazer em Paredes nesta Casa da Democracia.
O
25 de Abril, que queremos aqui sublinhar, não é somente uma data histórica a
recordar, um momento irrepetível e transcendente, protagonizado e vivido por gente
com rosto e entusiasmo num passado mais ou menos longínquo, em 1974.
Não
é somente o final de uma página negra da história de Portugal, de repressão, de
analfabetismo, de isolamento internacional, de emigração, da guerra colonial,
de censura, de ditadura. Página onde emergiram igualmente resistentes heróicos,
actos de abnegação e coragem, lutas persistentes, vidas consequentes, a unidade
antifascista e o Partido de classe, o PCP.
O
25 de Abril, que queremos evocar, não é somente um registo de recordações e emoções,
vertidas em imagens de multidões e de soldados – povo em armas, vertidas em
rimas e poemas, em músicas que cantam a liberdade e cheiros a flor e cravo.
O
25 de Abril, que nos atrevemos a redescobrir, não é somente o curso de uma institucionalização
democrática, de uma estabilização política, ou um texto constitucional onde se
plantou um consenso teórico posteriormente desvirtuado e as regras da vivência
em liberdade, nem é somente o exercício do Poder legítimo.
O
25 de Abril, que hoje nos inquieta e portanto nos mobiliza, não é um limitado
guião de um percurso discutível e insatisfatório, que “contabilistas” avaliam
em méritos e deméritos, mas que merece cuidada e séria reflexão.
Para
nós, e para além disso, que já é muito, o
25 de Abril é um sonho, um ideal, uma esperança agora tantas vezes agrilhoada, uma
inquietação perante a injustiça, a desigualdade, a miséria e a corrupção, um
conjunto de valores, uma mão cheia de conquistas (direito á saúde, direito á
educação, direito á habitação, direito a trabalho digno e remunerado, direito à
cultura, lazer e desporto, direito a viver em paz).
Não
queremos ser acusados de ser proprietários exclusivos desse sonho. Não o somos,
nunca o seremos. Mas não nos retiramos, ao contrário de outros, da trincheira
do exercício da resistência e da mobilização na defesa dos interesses nacionais
e populares.
E
tempos próximos impõem uma concretização de uma atitude propositiva e fundamentada.
Falamos da mobilização para o esclarecimento e votação no próximo dia 25 de
Maio. Que não sejam ilibados quem tem ou teve responsabilidades pela situação
actual. Por isso, quem tem memória não esquece e deve traduzir a sua revolta em
voto consciente.
Portugal,
o nosso País, graças às políticas dos partidos do chamado arco da governação
(PS, PSD e CDS), e ao rotativismo político de décadas, em que se sucede a mesma
orientação, alternando-se os protagonistas, caminha para um abismo, de onde
dificilmente sairá. Destrói-se o Estado
Social, construído ao longo de gerações, compromisso inter-geracional, e
factor de coesão social e inter-territorial, expressão de progresso na Saúde,
na Educação, no Trabalho e na Segurança Social. Privatizam-se serviços
públicos, alguns deles entregues ao capital estrangeiro, sem qualquer benefício
quanto á qualidade e preço desses serviços nem asseguradas riqueza e
contribuições significativas para o Orçamento de Estado. Falo da ANA, da EDP,
dos CTT, etc.
Alega-se
um pretenso despesismo do Estado, quando é a dívida privada um factor fundamental
de desequilíbrio orçamental e da Balança Comercial. Alega-se uma pretensa insustentabilidade de políticas sociais
e de rendimento, expresso no ridículo slogan “vivemos acima das nossas possibilidades” quando são catastróficas
as consequências de políticas de austeridade cega, de “baias” orçamentais de um
Tratado absurdo da União Europeia e de redução do investimento público.
A
economia estiola, ausente o consumo interno, fragilizadas as condições
objectivas da sua competitividade (preço da energia, telecomunicações, crédito,
formação profissional, experiência e estabilidade profissional). Acena-se com o
problema demográfico, o envelhecimento da população e entretanto desvaloriza-se
o trabalho, aumenta-se a precariedade, cortando salários e pensões,
incentivando o desemprego, colocando nos mais velhos, muitas vezes já
reformados, a responsabilidade de suportar a sobrevivência de filhos e netos. O
tecido produtivo, nomeadamente de pequenas e médias indústrias, foi
paulatinamente destruído, nomeadamente após a adesão á EU e á
institucionalização do Euro, operação não preparada e de impacto trágico para
uma pequena economia periférica como a portuguesa.
É
o capital financeiro que verdadeiramente preside em Lisboa, Bruxelas e em
Berlim, enredados os povos em lógicas de eliminação da consciência colectiva e
de supressão da participação popular, com um capitalismo desenfreado, sem
respeito pela condição humana e pelo destino da própria humanidade.
Pátria
– Lugar de Exílio. Pátria Madrasta para novos e velhos, obrigados a emigrar,
tantas vezes para lugares distantes, para conseguir obter o PÃO QUE O DIABO
AMASSOU. São inúmeros os exemplos. Inúmeras as recriminações para os chamados
partidos do arco da responsabilidade … responsáveis, sim, pelo estado a que isto chegou!
Somos
o País mais desigual da União Europeia, onde cresce mais o fosso entre os mais
ricos e os mais pobres. Aumentam os lucros dos grandes grupos econômicos e
diminui o rendimento das famílias e dos trabalhadores. Há que em nome de Abril
dizer NÃO!
Somos
um País dependente da agiotagem de credores, da voragem dos “mercados”, do
livre arbítrio de grandes potências estrangeiras, que ditam as condições do
presente e limitam as esperanças do futuro. Vivemos sob o jugo de um Pacto de
Agressão, estabelecido por imposição de instâncias supranacionais e aceites por
instituições internas.
Falamos
em nome de camadas e sectores atingidos por esta rapinagem voraz que tem no
Governo PSD/ CDS de Cavaco /Passos Coelho e Paulo Portas o seu instrumento
governativo. Falamos dos Trabalhadores da Administração Pública, da Juventude,
dos Reformados e Pensionistas. E tantos outros afectados nos seus direitos
fundamentais.
Hoje
como antes de 25 de Abril de 2014, há quem considere o Povo Português
despolitizado, apático e conformado. Mas a verdade é que, apesar de tantas
dificuldades, não deixou cair os braços. Tem os olhos na Revolução de Abril
cujas marcas e valores são sementes de futuro.
Sentir
Abril é dizer que o futuro pode ser diferente, um futuro de paz, liberdade,
saúde, educação, com direitos. Sentir Abril é romper com o passado, com os seus
limites, e avançar num Portugal independente e de progresso.
Nesta
Assembleia permanecerão no futuro diferentes sensibilidades e opiniões. Mas
acredito, nós acreditamos, ser possível uma identificação comum com o
diagnóstico feito e com muitas das propostas apresentados. Todos nós, membros
desta Assembleia, somos ABRIL. QUE NINGUÉM SE DEMITA NAS SUAS RESPONSABILIDADES
FUTURAS.
Porque
todo o tempo é de Abril, quando de luta é feito o tempo que vivemos. Abril
vive, Abril viverá!
Disse.
Cristiano
Ribeiro
(pela
bancada da CDU)