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quarta-feira, 24 de maio de 2017

HISTÓRIA DE AMOR COM FINAL TRÁGICO


Não iam sequer a grande velocidade. Rodavam na casa dos sessenta, o que, sendo ligeiramente excessivo, não se poderia considerar condução perigosa atendendo ao piso seco, à estrada quase deserta, ao pouco volume de tráfego e à boa visibilidade.
Ela de saia comprida e blusa larga, que o tempo estava quente a convidava à frescura no vestir, ele de calças de ganga velhas e polo desbotado, evidenciando desleixo ou quero lá saber.
Ambos jovens, aí uns trinta a poucos, talvez e muitos, para o caso não interessa.
Não haviam trocado uma única palavra desde o início da viagem, nem o iriam fazer.
No rádio tocava uma música delico-doce irritante e sem sentido, qualquer coisa como vou querer-te para sempre e porque é que me traíste, acompanhada por um violino pouco plangente e um coro carpideiro e duas oitavas acima, mas nem um nem outro se atreveram a baixar o som ou a desligar o aparelho. 
A linguagem corporal adensava o ambiente opressivo, ele uma mão na roda da direcção e a outra fincada nas mudanças, medindo cada centímetro para não invadir o espaço dela, ela encostada à sua porta como que fugindo do próprio ar que ele respirava.
Não se olhavam, antes fixavam pontos imaginários no horizonte montanhoso e solarengo.
Era domingo, iam almoçar a casa da mãe dela. 
Em que mar de águas fétidas tinha desaguado o caudal, ora tumultuoso de paixão, ora sereno de carinho, do amor que tinham outrora sentido? Em que pântano lamacento se tinham atolado tantas juras, tantos projectos, tanta ânsia de vida em comum? Há quanto tempo se não abraçavam naquela partilha de eflúvios e sensações em que noutros tempos se perdiam, se maravilhavam e se descobriam? Que era feito das suaves caminhadas à beira mar, mão na mão, riso fácil, partilha de alegrias?
Travou com violência perante a bola vermelha e verde que se atravessou ao caminho, à espera da previsível criança que a perseguiria, retomou a marcha quando a previsão não se materializou.
Escondeu a angústia que lhe trepava pelo corpo numa crispação tenaz de mãos à volta do volante, ela fez o mesmo voltando-se para a janela para ocultar a lágrima furtiva e insistente.
Ele pensou “ como chegámos aqui? Que mal nos fizemos para tamanho e tão magoado descaminho? “ , ela pensou “ nem um pequeno esforço fizeste , que vai pensar a minha mãe quando lhe apareceres de calças sujas e camisola num fio de tanto uso ?“ Exagerava . As calças não estavam sujas.
Ele pensou “ quando começámos a afastar-nos, o que originou este desinteresse, este alheamento?”, ela pensou “ mudaste tanto, tu, o que dantes me davas em atenção e ternura agora mo ofereces em indiferença e sossego podre “ , ele esperançoso “ espero que o almoço não seja aquele lombo de porco duro como um corno e cheio de óleo rançoso que eu odeio “ , ela vingativa “ espero que o almoço seja aquele lombo de porco duro como um corno e cheio de óleo rançoso que tu odeias “ , ele suspiroso “ quinze minutos de conversa , uma hora para comer , mais meia para mais treta , às três já devemos estar de volta “ , ela concordante “ daqui a duas horas já podemos regressar “ , ele pesaroso “ estou tão cansado “ , ela prática “ por este andar vamos atrasar-nos “ , ele desanimado “ se ao menos tivesse um emprego de jeito para não andarmos a contar tostões no fim do mês “ , ela cáustica “ que falta de ambição , trabalhares no turno da noite duma bomba de gasolina “ , ele iludido " será que ainda temos um futuro , tu e eu ? " , ela exasperada " porque não falas comigo , porque te escondes nesse mutismo teimoso e enervante ? " , ele saudoso " e no entanto houve um tempo em que fomos felizes " , ela desconfiada " andarás tu com mais alguém ? " , ele aliviado " estamos a chegar " , ela convencida " melhor do que eu nunca tu vais arranjar meu menino " .
Tudo se passou muito rapidamente.
Duas moscas esverdeadas, unidas em cópula ardente e vigorosa, vieram embater no vidro do automóvel.
Ele abrandou, virou na primeira à direita, estacionou em frente à casinha branca com flores na varanda, à porta da qual se encontrava uma mulher já de idade. A filha sorriu-lhe, ele menos, a senhora retribuiu a cada um com a mesma intensidade. 
Da mala tiraram o bolo de chocolate, já meio amolecido, que tinham comprado na confeitaria da esquina. Cumprimentaram-se com beijinhos na face, da cozinha emanava um cheiro a carne de porco embebido em óleo rançoso.
Entraram os três, fecharam a porta.
Cá fora jaziam os dois apaixonados, as vidas cruel e precocemente ceifadas no acto supremo e pleno de consumação do seu amor, esmigalhadinhos no jazigo liso e frio do limpa pára-brisas.

António Jorge
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quarta-feira, 12 de abril de 2017

Extrato do livro Ensaio sobre a Lucidez , de José Saramago

"....O mais corrente neste mundo, nestes tempos em que às cegas vamos tropeçando, é esbarrarmos, ao virar a esquina mais próxima, com homens e mulheres na maturidade da existência e da prosperidade, que, tendo sido aos dezoito anos, não só as risonhas primaveras de estilo, mas também, e talvez sobretudo, briosos revolucionários decididos a arrasar o sistema dos pais e pôr no seu lugar o paraíso, enfim, da fraternidade, se encontram agora, com firmeza pelo menos igual, repoltreados em convicções e práticas que, depois de haverem passado, para aquecer e flexibilizar os músculos, por qualquer das muitas versões do conservadorismo moderado, acabaram por desembocar no mais desbocado e reaccionário egoísmo. Em palavras não tão cerimoniosas, estes homens e estas mulheres, diante do espelho da sua vida, cospem todos os dias na cara do que foram o escarro do que são. ,,,"

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Sugestão de leitura

O Priorado do Cifrão, de João Aguiar é um livro de 2008 que procura ficcionar a realidade actual, com pistas sobre a estratégia de concentração e usufruto de poder, onde se perfilam seitas, empresas de comunicação e polícias ao serviço de blocos geopolíticos. Tudo bem condimentado com assassínios, decifrações, teorias de conspiração e segredos.

Uma não muito original odisseia na tradição dos livros de Dan Brown e José Rodrigues dos Santos. Ou com sentido crítico ou de gozo, usando os mesmos clichés. Livros que iludem ou descaracterizam o teor ideológico das forças participantes no processo histórico. Como se o curso de uma aventura esotérica pudesse mudar a História.


CR

terça-feira, 12 de março de 2013

Sugestão de leitura


 
Da autoria do desaparecido autor sueco Stieg Larsson, um dos mais arrebatadores thrillers de sempre e primeiro de uma trilogia imperdível. O livro, editado em 2005, conta a aventura do jornalista de economia, Mikael Blomkvist. Depois de ser julgado por difamação ao financeiro Hans-Erik Wennerström e condenado a três meses de prisão, decide afastar-se temporariamente das suas funções na revista Millennium. Na mesma altura, é encarregado de uma missão invulgar. Henrik Vanger, em tempos um dos mais importantes industriais da Suécia, quer que Mikael Blomkvist escreva a história da família Vanger. Mas é óbvio que a história da família é apenas uma capa para a verdadeira missão de Blomkvist: descobrir o que aconteceu à sobrinha-neta de Vanger, que desapareceu sem deixar rasto há quase quarenta anos. Algo que Henrik Vanger nunca pôde esquecer. Blomkvist aceita a missão com relutância e recorre à ajuda da jovem Lisbeth Salander. Uma rapariga complicada, com tatuagens e piercings, mas também uma hacker de exceção. Juntos, Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander mergulham no passado profundo da família Vanger e encontram uma história mais sombria e sangrenta do que jamais poderiam imaginar.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

SUGESTÃO DE LEITURA

“Teoria geral do esquecimento” é um romance de José Eduardo Agualusa publicado em 2012.


Partindo de factos da experiência histórica de uma Angola, das vésperas da independência até recentemente, Agualusa constrói um enredo ficionado em torno de um ato limite de Ludovica, uma portuguesa apanhada sozinha em Luanda pelo turbilhão dos acontecimentos. O seu auto-isolamento, mais do que a realidade de uma parede que a separa quase totalmente do mundo, representa uma defesa, um radical conflito interior, uma cegueira, uma impossibilidade de compreender a vida exterior.


As personagens criadas por Agualusa, para além de Ludovica, têm conteúdo, identificam poderes, sentimentos, níveis de consciência. São por vezes algo superficiais, panfletárias, folclóricas até (como os pastores Kuvale). Mas a sátira politica, o realismo narrativo, não deixa de ter uma piscadela de olho às concepções mais facilitistas e esquemáticas da análise histórica. Talvez por isso nasceu romance.
Angola aparece assim como terra de ajuste de contas, lugar impossível, e de descrença, onde o socialismo não serviu, o capitalismo destrói, e a independência ainda não provou a sua necessidade. É uma Angola- museu, sem colonialismo anterior, sem traços de exploração e racismo, onde as causas e determinantes do passado se evaporam como o rio no delta do Kubango. É uma Angola sem contradições internas, sem o aventureirismo nitista, sem a oposição savimbista, sem a guerra imperialista. É uma Angola (i)moral, sem percurso histórico.


A Angola do romance de Agualusa tem um pombo chamado Amor, um cão chamado Fantasma e um macaco chamado Che Guevara. Falta-lhe, apesar da excelente técnica literária, a alma da Verdade. Lembra-me o Ensaio sobre a cegueira, de Saramago. Mas Saramago é Saramago.


CR

domingo, 18 de março de 2012

de “Quando os lobos uivam” de Aquilino Ribeiro...

“… … Governo para o aldeão é sinónimo de Estado e de tudo o que dá leis, uma quadrilha de olho vivo. Já lhes levavam coiro e camisa em contribuições, tributos, posturas, alcavalas de vária ordem, e vinham ainda esbulhá-los da serra! Hoje a serra, amanhã, por uma razão análoga, corriam-nos de casa para fora. Ah! cachaporra dum santo! O que todos queriam era viver á custa da barba longa, mãos brancas com bons anéis, bom automóvel, amigas para o gozo e criadas para todo o serviço que vinham buscar aos viveiros da plebe, cabritos gordos que se criavam nos ferregiais, e trutas que eles serranos estavam proibidos de pescar nos seus rios. Que maiores carrascos e ladrões!?

Esta era a noção que tinham do Governo. O Governo não era formado por um corpo de homens bons e sábios, com função directiva, reguladora e distribuidora dos bens comuns, e atentos á promulgação e defesa do direito? Qual o quê? Bandoleiros das encruzilhadas e gorgulhos silenciosos das arcas e larvas da carne é que eles eram!

-Morram! – rouquejava a voz irosa pelas vielas das dez aldeias… …”

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Alves Redol - a vida e a obra



Vídeo sobre a vida e obra de Alves Redol, exibido na sessão de homenagem por ocasião do centenário do seu nascimento.

Literatura II



No passado dia 4 de Dezembro decorreu na sede da Junta de Freguesia de Parada de Todeia (Paredes) o lançamento de uma obra literária de Nuno Silva intitulada “Flor de Espinhos”.
Foi um dia de muitos espantos: pela obra, pelo autor, pela presença da comunidade.
A obra poética surpreende pela sua singular maturidade em autor tão jovem, ainda aluno do Secundário. É inabitual um jovem ousar escrever em poesia e expressar ideias e sentimentos que são óbvio tumulto interior. A comunidade local que o conhece desde pequeno, que o acompanhou no seu desenvolvimento e nas suas dificuldades, quis estar presente para lhe expressar orgulho e lhe dar força para o percurso seguinte. E centenas encheram o salão de festas da Junta de Freguesia. Foi emocionante.

Para ilustrar, um poema do Nuno:

Teoria da Ignorância Eterna

Vida – Um domínio não matemático,
Um código minuciosamente encriptado;
um constante enigmático,
dilema que enlouquece o sábio

Chave de muitas portas, fechadura rara.
Definição indefinida, no dicionário inexistente.
Tempo limitado para resolver a questão épica
Neste jogo de valores, escolhe primeiro a tua ética

Um poema inacabado, de essência incompleta.
Tinta esgotada, palavras escassas.
Certezas certas não as há.
A única verdade é,
a aurora da alma , e o ocaso dela mesma

segunda-feira, 6 de junho de 2011

SOEIRO PEREIRA GOMES



Biografia

Joaquim Soeiro Pereira Gomes nasceu em 1909 na aldeia de Gestaçô, concelho de Baião, no seio de uma família de pequenos agricultores do Douro. Aprendeu a ler com o pai no «Primeiro de Janeiro», ainda antes de entrar na escola primária. Mais tarde vai para a Escola Agrícola de Coimbra, onde tira o curso de regente.
Em 1930, assina um contrato com a Companhia da Catumbela e embarca para Angola. Em 1931, regressa a Portugal insatisfeito com a experiência, quer pelas condições de trabalho quer pelos rigores do clima.
Nesse ano casa com Manuela Câncio Reis, fixa residência em Alhandra e emprega-se no escritório da fábrica «Cimento Tejo».
No final dos anos 30, Soeiro Pereira Gomes adere ao PCP, ingressa na célula da empresa e pouco depois integra o Comité Local de Alhandra, participando activamente na vasta acção cultural impulsionada pelo Partido em todo o Baixo Ribatejo, em articulação com o trabalho clandestino da organização.
Pioneiro do movimento neo-realista cuja consolidação se acentua a partir de 1939, Soeiro Pereira Gomes colabora nos jornais «Sol Nascente» e «O Diabo». Na sua casa juntam-se, entre outros, Alexandre Cabral, Sidónio Muralha e Alves Redol.
Soeiro organizou ainda cursos de ginástica para os operários da «Cimento Tejo», ajudou a criar bibliotecas populares nas sociedades recreativas e deu corpo ao projecto de construção de uma piscina (a «charca») para o povo de Alhandra, onde se forjaria uma figura ímpar da natação portuguesa, o comunista Baptista Pereira (a personagem Gineto dos «Esteiros»).
Juntamente com Alves Redol e Dias Lourenço, promoveu e animou inúmeras excursões de fragata no Tejo, onde, a pretexto da confraternização, se aglutinavam intelectuais e se estabelecia o contacto político fora da vista do fascismo. A fragata e a bateira transformaram-se então em verdadeiras casas de apoio ao trabalho conspirativo, nas duras condições de luta clandestina.
Entre 1940 e 1942, Soeiro Pereira Gomes participa na reorganização do PCP e passa a fazer parte do Comité Regional do Ribatejo, que integrava Dias Lourenço e Carlos Pato.
Em Novembro de 1941, é publicado «Esteiros» pela editora Sírius com ilustrações de Álvaro Cunhal, obra que foca aspectos fundamentais da transformação da sociedade portuguesa da época.
O ano de 1941 é também marcado pela passagem de um devastador ciclone, em cujas operações de salvamento Soeiro se empenhou intensamente.
Entretanto, o regime salazarista tudo fazia para impedir o conhecimento dos crimes do holocausto nazi: as tabernas, os cafés e outros lugares públicos estavam proibidos de ligar os aparelhos de rádio à BBC à hora das emissões em língua portuguesa. Por isso, Soeiro Pereira Gomes, residente numa pequena moradia de um só piso, abria a janela da sala em que tinha a telefonia para que muitos populares pudessem escutar disfarçadamente as informações de Londres sobre a evolução da II Guerra Mundial.
Em 1944, Soeiro começa a escrever «Engrenagem», livro que não terá tempo de concluir, dado o rumo que a sua vida tomaria a partir de então.
Nas greves de 8 e 9 de Maio desse ano, Soeiro encontrava-se no seio dos trabalhadores em luta, como membro do Comité Regional da Greve do Baixo Ribatejo. A PIDE teve conhecimento prévio do movimento grevista e começa a preparar uma cilada a Soeiro. Este vence a situação, mergulhando na clandestinidade na tarde de 11 de Maio de 1944.
É-lhe então confiada a Direcção Regional do Alto Ribatejo, entretanto criada, e onde ainda hoje a sua influência é recordada no alargamento da organização do Partido.
Acabada a II Guerra Mundial, o PCP realiza o seu IV Congresso na Lousã, em Julho de 1946, sendo Soeiro Pereira Gomes eleito para o Comité Central. Em Agosto elabora um «esboço sobre a maneira como utilizar as praças de jornas ou praças de trabalho no Movimento de Unidade Camponesa para o derrubamento do fascismo» e, pouco depois, é destacado para o Sector de Lisboa, onde se torna membro da Comissão Executiva do Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF), ao mesmo tempo que acompanha a actividade dos camaradas que actuavam no Movimento de Unidade Democrática (MUD).
Soeiro era elemento de ligação do Partido com o Conselho Nacional de Unidade Antifascista quando adoece gravemente. Ainda participa no início da campanha presidencial de Norton de Matos em 1949, mas a doença progride minando-lhe a resistência física.


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Sugestão



Sugestão de livro:

Sophia de Mello Breyner Andresen - Uma Vida de Poeta

A exposição de textos, fotografias e outros objectos com que aqui se evoca a vida e a obra de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) surgiu como um prolongamento natural da doação do espólio, pela sua família, à Biblioteca Nacional de Portugal, primeiro passo para a abertura do acesso de um público amplo a uma parte importante, de quase todos desconhecida, dessa vida e obra. A colecção mais volumosa do espólio é constituída por manuscritos de textos publicados e inéditos, de poesia e de prosa, inacabados ou em mais de uma versão, e por reflexões sobre poética ou sobre a experiência de escrever. Vale ainda a pena notar a relativa escassez de poemas inéditos, dos quais muitos não são mais do que esboços, inícios de qualquer coisa que não surgiu, ou até simples apontamentos de ideias. Sophia guardou muitas versões de trabalho, mas, para ela, o destino natural do poema acabado era a publicação. Se a poesia foi a sua maneira de viver, não a tratava como coisa sua. Escrevia para si e para o mundo