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segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

U2 - Book Of Your Heart

O capitalismo em números – apontamentos dos Estados Unidos da América

É UMA CALAMIDADE SOCIAL. 

As dívidas contraídas pelos estudantes do ensino superior nos Estados Unidos da América passaram de 1% para 5% do PIB daqueles pais. Logo após o crédito á habitação, os créditos aos estudantes (cerca de 1,4 biliões de dólares) representam a maior fatia da dívida dos Estados federados. Por dia, 3 mil estudantes norte-americanos entram em insolvência por não conseguirem pagar os créditos académicos. O custo de uma licenciatura nos USA é de cerca de 80.000 dólares e em média esses créditos demoram 20 anos a ser liquidados. Este tipo de condicionalismo e opressão feudais, que leva ao incumprimento, tem consequências brutais: em 19 Estados foi encontrada a “solução”, os devedores aos bancos são proibidos de trabalhar, revogada a licença profissional e até a carta de condução. São enfermeiros e professores alguns dos grupos profissionais mais afectados.


O número de moradores de rua dispara na capital da miséria dos Estados Unidos. Los Angeles registou neste ano 58.000 pessoas sem-abrigo, um aumento de 23%. As autoridades locais qualificaram situação de “emergência”. É o bairro de Skid Row, a rua 6, no centro de Los Angeles. A diferença para Nova York, com 76.000 sem abrigo, está que em Los Angeles 3 em cada 4 pessoas sem-abrigo não tem cama em algum albergue ou solução temporária. A temperatura permite-lhes viver ao livre (ao contrário de Nova York), ocupando as calçadas de Skid Row, numa mistura de barracas de campismo, lixo e ferro-velho. Cheiro repugnante. Negócio de ocupação do espaço, crimes sexuais, tráfico de drogas e de armas. Os dejectos orgânicos num cesto de lixo lançado á rua. A pobreza extrema. Calcutá na América. As razões de tal fenómeno: o consumo de drogas, as doenças mentais, a crise económica e a crise dos preços da habitação.  A terra da oportunidade transformou-se na terra da ilusão, e caminha ufana para campeã da desigualdade. 

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

CONTO DE NATAL

Os pobrezinhos
por António Lobo Antunes



"Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres.

Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. 


Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria: 

– Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da menina Teresinha.

O plural de pobre não era "pobres". O plural de pobre era "esta gente".

No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, um bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre.

Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

– Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres dinheiro, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto (- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro) de forma de deletéria e irresponsável. 

O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico 

– Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

O atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo: 

– Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu. 

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros: 

– O que é que o menino quer, esta gente é assim.


E eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. 

A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse 

– Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar, e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão. 

Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado "Almanaque da Sãozinha", se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso. 


Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis".