um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda
UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA
quarta-feira, 10 de janeiro de 2018
terça-feira, 9 de janeiro de 2018
segunda-feira, 8 de janeiro de 2018
O capitalismo em números – apontamentos dos Estados Unidos da América
É UMA CALAMIDADE
SOCIAL.
As dívidas contraídas pelos estudantes do ensino superior nos Estados
Unidos da América passaram de 1% para 5% do PIB daqueles pais. Logo após o
crédito á habitação, os créditos aos estudantes (cerca de 1,4 biliões de
dólares) representam a maior fatia da dívida dos Estados federados. Por dia, 3
mil estudantes norte-americanos entram em insolvência por não conseguirem pagar
os créditos académicos. O custo de uma licenciatura nos USA é de cerca de 80.000
dólares e em média esses créditos demoram 20 anos a ser liquidados. Este tipo
de condicionalismo e opressão feudais, que leva ao incumprimento, tem
consequências brutais: em 19 Estados foi encontrada a “solução”, os devedores
aos bancos são proibidos de trabalhar, revogada a licença profissional e até a
carta de condução. São enfermeiros e professores alguns dos grupos
profissionais mais afectados.
O número de moradores
de rua dispara na capital da miséria dos Estados Unidos. Los Angeles registou neste
ano 58.000 pessoas sem-abrigo, um aumento de 23%. As autoridades locais
qualificaram situação de “emergência”. É o bairro de Skid Row, a rua 6, no centro
de Los Angeles. A diferença para Nova York, com 76.000 sem abrigo, está que em
Los Angeles 3 em cada 4 pessoas sem-abrigo não tem cama em algum albergue ou
solução temporária. A temperatura permite-lhes viver ao livre (ao contrário de
Nova York), ocupando as calçadas de Skid Row, numa mistura de barracas de
campismo, lixo e ferro-velho. Cheiro repugnante. Negócio de ocupação do espaço,
crimes sexuais, tráfico de drogas e de armas. Os dejectos orgânicos num cesto
de lixo lançado á rua. A pobreza extrema. Calcutá na América. As razões de tal
fenómeno: o consumo de drogas, as doenças mentais, a crise económica e a crise
dos preços da habitação. A terra da
oportunidade transformou-se na terra da ilusão, e caminha ufana para campeã da
desigualdade.
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
CONTO DE NATAL
Os pobrezinhos
por António Lobo Antunes
|
"Na minha família os animais domésticos não eram cães
nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram
pobres.
Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que
vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso
agradecido, a ração de roupa e comida.
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para
poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir
camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões;
de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam
possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os
filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a
quem pertenciam.
Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o
Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que
insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
– Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da menina
Teresinha.
O plural de pobre não era "pobres". O plural de pobre era "esta
gente".
No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de
bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se
piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, um
bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à
Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã,
cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima
e outras maravilhas de igual calibre.
Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias
preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
– Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer
aos pobres dinheiro, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto
(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro) de forma de deletéria e
irresponsável.
O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar
na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma
recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico
– Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
O atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
– Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu.
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem
magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características
insólitas foi-me dito com um encolher de ombros:
– O que é que o menino quer, esta gente é assim.
E eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma
espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em
barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais
dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito
chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso
alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter
oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais.
A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da
altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe,
espirrando, me ordenasse
– Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar, e eu
fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de
limão.
Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto
mais que num boletim que a minha família assinava, chamado "Almanaque da
Sãozinha", se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que
consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente
acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.
Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E
creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma
gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de
pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis".
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