um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

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domingo, 25 de abril de 2021

INTERVENÇÃO

 Intervenção na AM Paredes

Auditório A Lord – Lordelo

Relembrar o dia 25 de abril de 1974 é justo e necessário. Relembrar esse dia 25 de abril de 1974, esse dia límpido, singular e irrepetível, é tarefa de todos os democratas e progressistas. Mas ao lembrar Abril, hoje e tal como em anos anteriores em comemorações oficiais em Paredes, devemos refletir sobre o seu significado.

De Abril já muito se disse, importa só e apenas que Abril se cumprisse. Mas…

Em 1974 começamos uma época rica em conteúdos, prenhe de acontecimentos decisivos. Tudo o que hoje temos de mais positivo na nossa vida colectiva surge ou se regenera em abril de 1974.

As gerações mais novas, menos alertadas para as circunstâncias da História, não serão muito sensíveis a ganhos, conquistas, desenvolvimentos de então. Naturalmente assim é, porque não as viveram, como foi felizmente o meu caso, cedo protagonista entusiasta desses dias aos 18 anos de idade.  

Mas a Liberdade, a Democracia, a liberdade de expressão e de associação, os direitos políticos e laborais, o direito às férias, o salario mínimo, o direito á saúde, educação e segurança social, a emancipação das classes média e inferior da sociedade, a construção do Estado Democrático, têm a sua origem nesse período, base e estrutura do sistema político constitucional.

De um pais com passado colonial, passamos a um pais respeitado e aberto ao mundo, com uma referência identitária de promotor de Paz.

Tempo de contradições, de conflitos, quiçá de angústias, mas tempo de construção acelerada do futuro. Onde o som das gargantas nas ruas e os cravos vermelhos nas mãos abriram alamedas de expetativas luminosas.

Mas como Revolução Libertadora, Abril não se cumpriu na totalidade, antes pelo contrário, em muito regrediu e se desvirtuou. O socialismo amplamente apregoado foi metido em gaveta ou sótão poeirento e foi substituído por um liberalismo de vários matizes, sem princípios ou valores, onde cedo grassou práticas de corrupção, obscurantismo e desigualdade. E onde parcelas importantes da nossa economia e sector financeiro foram desviados para mãos do estrangeiro.

O Estado foi aprisionado por sucessivos governos (com poucas intermitências…) por lógicas privadas e interesses obscuros, como as privatizações, ou as concessões de serviços públicos. O enriquecimento ilícito, a evasão fiscal, a fuga de capitais para o exterior, são consequências dessa promiscuidade público-privado, dessa porta giratória entre governos e conselhos de administração das grandes empresas nacionais e estrangeiras.

Com a integração europeia, acentuaram-se mecanismos externos de dependência, com a utilização de fundos ditos estruturais para obras de utilidade muito duvidosa ou conjuntural, sem real beneficio para o PIB. A economia estagnou.

O país está mais dependente, perdida a soberania alimentar, a soberania energética e sendo atualmente emissor de mão-de-obra e recursos humanos, muita da qual altamente qualificada, para os países mais ricos.  

O país vive numa subalternidade, subjugado pelos ditames do sistema politico dominante mundial.

Devido ao tempo disponível, assinalaria por fim e telegraficamente três sectores julgados essenciais no tempo presente e a carecer atenção prioritária:

- a Saúde e os seus profissionais, indispensáveis ao bem estar e à vida das populações; o SNS como conquista democrática de Abril, suas virtualidades, suas potencialidades, sua importância. A valorização de recursos humanos, de meios técnicos, a dignificação de carreiras

- a Educação, os seus profissionais, professores e outros agentes educativos. A Escola Pública como base de toda a formação integral do individuo e da cidadania. O reforço da motivação dos profissionais e a centralidade da Escola na formação de mentalidades, na defesa da solidariedade e não do individualismo e da competitividade, e no combate à desigualdade social. O sucesso educativo individual e a inclusão, como grandes objetivos.  

. e por fim o Poder Local, os autarcas como representação efectiva do interesses das populações e fator de crescimento e desenvolvimento das comunidades. Um apelo à qualificação e à criatividade. E aqui permito-me referir a desilusão profunda com o não cumprimento da promessa da revogação da anexação de freguesias efectuada contra a vontade das populações.

De Abril já muito se disse, importa só e apenas que Abril se cumprisse.

Assim termino.

 

Cristiano Ribeiro – CDU Paredes

25abril2021


quarta-feira, 3 de março de 2021

Intervenção

 Intervenção inicial de debate com um eleito da CDU na Assembleia Municipal de Paredes , promovido pelo Rotary de Paredes , sob o tema "O FUTURO DE PAREDES"- Dia 2 de março de 2021 


Meus senhores,

Falar do futuro de Paredes, concelho em que somos autarcas eleitos e em que trabalhamos ou residimos, é uma tarefa aliciante.

Tudo o aqui eu disser (e que só a mim em última instância responsabiliza) pode ser lido como desejo inconsequente, promessa inviável ou discurso sem adesão á realidade. É um risco. Não é meu propósito fazer proselitismo.

O desafio proposto porém merece resposta. Que concelho desejaríamos ajudar a construir?

Certamente um concelho de referência, não necessariamente o MELHOR, mas certamente diferente do atual. Um concelho amigo do ambiente, atravessado de rios e riachos de águas límpidas e margens cuidadas, e dispondo de universais infra-estruturas de abastecimento de água e saneamento. Um concelho próspero, de raízes sólidas no Trabalho e na sua dignidade. Um concelho de múltiplas oportunidades de realização e de crescimento pessoal e colectivo.

O que falta?

Fazer todo um longo caminho. Até uma nova sociedade, socialista. Utopia, dirão alguns. Correr atrás de uma utopia vale a pena? Sim, mesmo que nunca se alcance, serve para não se deixar de caminhar, disse-o sabiamente Eduardo Galeano.

Convém referir o que penso, o pensamento de um comunista de idade madura, com história eivada de reflexões, peripécias e acontecimentos.

Penso (e aqui desapontarei alguma expetativa muito “localista” dos meus caros anfitriões) que antes de Paredes _ o seu passado, presente e futuro _ está o Pais. O todo condicionará sempre a parte. Nunca haverá ilhas possíveis de um diferente desenvolvimento e de progresso num Pais unitário, não regionalizado.

Tenho como certo que é preciso construir sistematicamente e com persistência uma sociedade diferente, uma sociedade de valores e objectivos comumente aceites, para o qual somos (e queremos ser) atores indispensáveis. 

Duas frivolidades:

- O País será sempre o que os seus cidadãos quiserem, independentemente das propostas de quem estuda, pensa e julga poder concretizar um futuro melhor.

- O País concreto tem sempre alternativas, umas mais conformes a um destino de subalternidade, de uma “apagada e vil tristeza”, cemitério de infelicidades e frustrações.

Estando a reler “Os miseráveis” de Vitor Hugo, interrogo-me se a sociedade francesa aí descrita no século XIX não será a mesma sociedade presente, nos seus traços gerais, quer sociais quer psicológicos.

Assistimos aqui como então a uma inaceitável desigualdade, a uma polarização da riqueza, à subversão de princípios éticos, ao mesmo desespero, consciente ou não, perante a injustiça, a fragilidade económica e a doença.

Os forçados de então remetidos às galés para cumprirem penas são os emigrantes de agora, exilados em precárias condições de trabalho na Europa dita rica, a cumprir as penas da sobrevivência.

 Será esse sempre o nosso destino?

Vejamos a nossa aposta na Educação. Uma Educação pública, de qualidade e generalizada, desde a infância à vida adulta, é essencial para a construção de uma sociedade melhor. Quanto mais instruídos formos, mais capazes seremos de abrir novos rumos na cidadania e na LIBERDADE. Sim, só é verdadeiramente livre quem dispuser de pensamento autónomo, devidamente fundamentado, fruto de aprendizagem e experiência própria e alheia, capaz de exprimir a sua individualidade e opinião.  

Uma sociedade participativa exige portanto conhecimento, literacia, competência, afastadas as mediocridades e as ignorâncias. Será isto utópico?

Vejamos a nossa aposta na Saúde. Uma Saúde ao alcance de todos constitui-se em fator de estabilidade e segurança, baluarte numa sociedade de destino comum e solidário. Os tempos presentes confirmam que um Serviço de Saúde público mais do que uma circunstância, fruto de emergência, deve constituir orientação civilizacional e permanente. Será isto utópico?  

Uma sociedade com acesso concreto e permanente aos benefícios dos avanços da ciência cumpre igualitariamente as necessidades individuais.

Vejamos a nossa aposta no Estado, nas suas instituições, nos seus serviços. Mais do que discutir a sua dimensão, ou a sua reorganização, importaria discutir o exercício das suas funções, a legitimidade da sua acção, a sua eficácia, a administração como escola de virtudes.

Uma sociedade que defende serviços públicos de qualidade, que se orgulha das suas instituições e nos seus representantes, que encontra na sua acção a projecção dos seus desejos, constitui-se em digna construtora da utopia de que falava.

Por último, falarei um pouco do papel exigível aos comunistas e aliados na CDU. E aqui volto ao estrito plano local. Temos obra e referências. Mesmo que limitadas.  

Somos acusados de conviver com benefício próprio com diferentes gestões autárquicas. Votamos no passado e no presente a favor de planos e orçamentos. Os que se indignaram ontem, de dedo em riste aceitam agora e vice-versa. Respeitamos a vontade popular expressa em eleições. Por razões de identidade, mesmo incompreendidos ou silenciados, somos autónomos e coerentes.

Reafirmo um compromisso de permanente diálogo com todos, independentemente de circunstancialismos. Não temos um guião aplicável que nos diga que por exemplo, a taxa de IMI deve ser x ou y, independentemente de investimentos programados. Ou outras receitas programadas ou modelos.

Procuramos ser fiéis a um passado glorioso de 10O anos de existência, o que convenhamos, não é pouco.

Como diz Jorge Palma, enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar…mesmo que contra a corrente!

Agradeço o simpático convite. E estou disponível para o diálogo.

CR


quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

NOTICIAS DIÁRIAS DA INFEÇÃO

27 JAN 2021

 2) As noticias de hoje da comunicação social dominante passam por polémicas estéreis sobre critérios de vacinação COVID. O que estava decidido inicialmente e com base em fundamentos científicos era:

 Existência de 3 fases da administração da vacina

 fase 1- Profissionais de saúde diretamente envolvidos na prestação de cuidados a doentes;

Profissionais, residentes e utentes em Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI) e instituições similares;

Profissionais e utentes da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados;

Pessoas com > 80 anos

Pessoas de idade >ou = 50 anos, com pelo menos uma das seguintes patologias: Insuficiência cardíaca, Doença coronária, Insuficiência renal, Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica ou Doença respiratória crónica com suporte ventilatório ou oxigenoterapia

Profissionais Forças Armadas e de segurança, bombeiros, serviços críticos, titulares de orgãos de soberania e altas entidades públicas

fase 2 - Pessoas com mais de 65 anos não vacinados anteriormente

Pessoas entre os 50 e 64 anos com patologias como Diabetes, HTA, Insuficiência hepática, doença renal crónica, Obesidade, Doença maligna ativa

fase 3 - restante população elegível

Como se vê os critérios de uma certa prioridade definidos (sempre discutíveis!) abordavam aspetos importantes como o Risco da Exposição e Letalidade, a Idade, a Relevância Social, a Defesa da Comunidade, das Instituições, dos Serviços Públicos. Conclusâo: nada a apontar.

 Mas os piores demónios surgiram novamente: A Ignorância , o Egoísmo, o Individualismo e a Hipocrisia. A comunicação social dominante, das Fátimas Campos Ferreira, do Correio da Manhã e afins, ignorante, sedenta de protagonismo e de sangue, aproveitou para levar a água ao seu moinho, ao descrédito das instituições , e ao populismo fácil que descamba nos Venturas e Tinos.

 Ela não sabe, ou não quer saber, que a vacinação não é uma simples e egoísta estratégia de defesa da saúde individual, antes decisiva medida de promoção e prevenção da saúde da comunidade. Importa sobretudo VACINAR e depressa. VACINAR, todos, embora seja defensável criar rapidamente imunidades em grupos importantes e vulneráveis, e daí as prioridades. Vacinar não é dar de comer a quem tem fome.

 Importa disponibilizar a vacinar e se necessário culpabilizar as multinacionais produtoras , e que receberam grandes apoios para o efeito, para atrasos no fornecimento e no cumprimento de contratos. Importava diversificar os contratos , não ficando amarrados ás empresas europeias ou norteamericanas. Importava assegurar uma produção nacional que nos defendesse. E isso muitos poucos o defendem.

O que se dispensaria era o triste episódio da criação artificial de "privilegiados" assim denunciados como se vacinar em janeiro, fevereiro ou março fosse um seguro de vida com apólices cada vez mais caras. Ou um saldo a necessitar de corrida às lojas. Haja vergonha. E desconfio muito dos altruísmos publicamente proclamados de quem diz dar lugar na fila da vacinação a outros que lhe vem atrás.

 CR

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

NOTICIAS DIÁRIAS DA INFEÇÃO

 26 JAN 2021

1) Os concelhos do País com maior incidência de casos por 100 mil habitantes são hoje Aguiar da Beira, Cuba, Figueira de Castelo Rodrigo, Alter do Chão, Fornos de Algodres. Concelhos do Interior, rurais, envelhecidos, pobres, despovoados, com forte emigração, com retaguarda familiar reduzida, respostas assistenciais na saúde minimizadas, incluindo um apoio social insuficiente. Dirão alguns, simplisticamente, que serão numericamente poucos. Mas pergunto, por isso mesmo, não seriam mais evitáveis? O número de mortos por 100 mil habitantes nestes concelhos também deve acompanhar esta tendência.

 Que conclusões:

Não tendo sido a causa o contacto social ou comportamentos de risco, conclui-se que não tem sido feito o diagnóstico precoce da infecção , interrompidas as cadeias de transmissão, tratados com oportunidade os casos potencialmente graves. E aqui pergunta-se:

Que medidas excepcionais tomaram os agentes do Estado, nomeadamente as autoridades regionais de saúde, nos lares e fora dos lares, para suster a infecção? O protagonismo deste combate tem sido dos autarcas, em vez de ser das autoridades de saúde e do Poder Central. As ARS das regiões (Beira Interior, Alentejo…) deveriam tomar medidas expeditas, excepcionais, de EMERGÊNCIA, mobilizando recursos e disponibilidades para salvar o que pode ser salvo. Mas salvo melhor opinião, eles estão nos gabinetes, escondidos e acobardados atrás dos emails e dos computadores.

OS Cuidados de Saúde Primários devem ocupar, juntamente com os autarcas, a GNR, a Segurança Social, e a sociedade civil, a primeira linha de combate da COVID nos meios rurais.

Assim não vamos lá….

CR