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terça-feira, 4 de março de 2025

retirado do baú, escrito há 30 anos

 

ARTES E MANHAS N.º111

A recente homenagem promovida pela Câmara de Paredes a jovens personalidades, nascidas ou vivendo no concelho, no dia da comemoração do 5.º Aniversário da elevação de Paredes a cidade, é um gesto simbólico rico em conteúdo.

Tal como é referido em brochura distribuída contendo a biografia de cada um dos homenageados, há que reconhecer e glorificar dotes e actividades e apontar exemplos vivos de generosidade a toda a sociedade.

Sem dúvida que há jovens que na sua área específica de intervenção tiveram e têm um destaque importante, fruto, em primeiro lugar, do seu esforço, dedicação e persistência. Na escalada para o sucesso tiveram necessariamente o apoio de uma mão amiga, do treinador dedicado, do professor empenhado, do chefe perspicaz, da família compreensiva, do amigo entusiasta. Não desconheço também que por vezes a sorte, a oportunidade, a ocasião única, dão uma contribuição importante para o brilho do sucesso.

Indiscutivelmente há muitos jovens cujas potencialidades de crescimento e realização esbarram com a inexistência de apoio, de compreensão das suas necessidades, de ajuda na difícil procura da sua vocação. Esses nunca serão homenageados, nunca sentirão como justa e sua a homenagem da Câmara Municipal. Porventura apreciarão os feitos dos outros, tornar-se-ão os seus mais fervorosos admiradores, identificar-se-ão com os seus êxitos (e talvez menos com os seus inêxitos). Mas nunca vestirão a pele dos vencedores.

Deve ser dito que restringir a notoriedade pública a quem assume a face do vencedor, a quem assume os louros da vitória, tem riscos em uma sociedade de competição desenfreada. Promovam-se os vencedores, prestigiem-se os não vencedores, aqueles que não sendo primeiros se esforçam por alcançar melhores resultados.

Vem a talhe de foice referir os homenageados ausentes, as escolas e os seus professores, por vezes os reais incentivadores de carreiras que começam pelas bases de um ensino democrático e pela convivência cívica.

Saliente-se finalmente a responsabilidade indiscutível dos adultos na vivência futuro da juventude, por exemplo na actuação de uma Comissão de Protecção de Menores, na acção de um Pelouro da Juventude, na presença e intervenção das forças policiais. Gostaria que futuramente também eles pudessem ser homenageados, na sua acção perante os jovens do concelho. Porque o outro lado da situação da juventude em Paredes é preocupante. A morte diária de jovens circulando em veículos motorizados sem capacete regulamentar por vias sem condição, a exposição permanente de milhares de jovens inseguros ao “sucesso” e actividade de redes de “dealers” do tráfico e consumo de droga, a falta de seriedade e de estratégia de adultos preocupados só com o sucesso imediato. Há que observar a árvore sem descurar a floresta. Ainda que as árvores existentes em Paredes sejam frondosas e gostosas.

Cristiano Ribeiro