um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

segunda-feira, 28 de julho de 2025

TEXTO

 

O ESTADO DA “BAZUCA”

Vivemos á sombra do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência). São 22 mil milhões de euros atribuídos a Portugal em 2021 pela Comissão Europeia em subvenções (16.635 milhões de euros a fundo perdido) e empréstimos (5.578 milhões de euros a taxa zero com prazo de pagamento até 30 anos). António Costa, em trânsito para a porta giratória para Bruxelas, chamava-lhe propagandisticamente a “bazuca” salvadora do atraso estrutural de há décadas. Havia objectivos predeterminados na habitação, na saúde, na mobilidade e na digitalização.

Como estamos 4 anos após, e a um ano do prazo terminar?

Em maio de 2025, os relatórios oficiais falam em apenas 33% do PRR executado. Escalpelizemos por componente. Comecemos pela Habitação. A componente Habitação inicialmente dotada de 2.733 milhões de euros teve um acréscimo para 3.226 milhões de euros em reprogramação posterior mas já no Governo de Montenegro levou corte de 402 milhões de euros (redução de número de fogos em 3.300). Mas destes 2.824 milhões de euros finais do programa para Habitação, apenas 800 milhões de euros estão executados em julho de 2025.

A magnitude e a vertigem destes números não nos deve fazer esquecer a vergonha escandalosa e o falhanço mais ou menos oculto desta gestão pública, que não utiliza verbas disponíveis em favor dos mais desfavorecidos.

 Quantas casas a preços acessíveis estavam previstas construir? O Governo de Costa apontava para 32 mil fogos a construir via PRR. O Governo de Montenegro apontava a entrega via PRR de 26.000 habitações até junho de 2026, mas depois ajustou o “compromisso” até 2030 para 26.000 casas do PRR e 33.000 do Orçamento de Estado. Porém até abril de 2025 só 1.950 foram entregues.

Vive-se uma emergência habitacional. Para quem vive em múltiplas dificuldades para assegurar o direito a uma habitação digna, vivendo em barracas ou paga mais de 50% do rendimento em renda ou prestação bancária, impõe-se uma responsabilização política, administrativa, social e ética concretas, sobretudo quando se prevê que 23% dos fundos atribuídos a Portugal no âmbito do PRR não serão utilizados. E na Habitação, prevê-se que seja 1.200 milhões de euros (9.800 habitações a preços acessíveis). UM CRIME.

As múltiplas razões aduzidas para o atraso e baixa execução do PRR confirmam (e não justificam!) a incompetência e a insensibilidade dos governantes do PS e da AD, e de muitos empresários /patrões.

É uma Administração Pública, definida pelo conceito de Estado Mínimo, esvaziada de quadros técnicos especializados (engenheiros, arquitectos, juristas, gestores, informáticos) capazes de elaborar projectos e candidaturas, com capacidade de contratar ou auditar. O mesmo se passa com as autarquias e organismo do Estado Central como o IHRU. Uma Administração Pública burocrática, na gestão e contratação, sem inovação social, sem coragem na decisão, partidarizada. À incapacidade de construtores privados poder-se-ia responder com a auto-construção em terrenos públicos supervisionada com base em projectos tipo e em parcerias locais.  Mas isso era pedir muito.

É portanto um mundo negro de incapacidades, vulnerabilidades, desresponsabilizações a que assistimos.

CR

sábado, 21 de junho de 2025

TEXTO

 

FILOSOFIAS E REALIDADES

O Homem moderno vive assoberbado por necessidades e vivências típicas do presente, mas que aparentemente o impedem de estudar e refletir sobre o passado e, muito menos, de sonhar e projetar-se no futuro. Ele vive para a sobrevivência ou o sucesso imediato, algumas vezes para a satisfação imediata de desejos e emoções. E não se diga que isto é exclusivo da juventude.

O passado não o seduz claramente, o futuro não o compromete. Assim assume-se como obediente de um curso, de um rio, que sente que lhe bordeja a existência. Daí resulta a sua adesão a respostas simples, primárias, e a simpatia por sentimentos básicos e globais. Mais do que protagonista, ele quer-se espectador.

Porém não havendo filtros de racionalidade ou moderação na narrativa que lhe impõem, ou que a si próprio se impõe, ele vê-se confrontado muitas vezes com o insólito, o intraduzível, o inexplicável.

A consciência afasta-se da razão e caminha pelos caminhos do místico, do burlesco e do medo. Como compreender o outro, o diferente, aquele mais complexo ou mais sábio? O Eu é incapaz, e o Nós, fragilizado, também. O silêncio instala-se. Nada se quer útil. Nada pode ser útil. Só a mentira, o logro, seduz.

Caminha-se para um fim remoto. O pensamento organizado, escorreito, está como se ele próprio percorresse uma estrada em obras. E a dúvida acelera-se. Será a nova via local aceitável de navegação e trânsito?

O génio do mal soltou-se da garrafa. Recentemente descobriu-se uma rede organizada de criminosos, com ligações à estrema direita mais reacionária, preparando um assalto violento às instituições democráticas. Como é possível? Qual a sua extensão? Que cumplicidades? São a violência, o ódio, as armas legais e ilegais, as comunicações encriptadas, a organização de milícias, a infiltração nas forças de segurança, a pulverização de nomes e associações com o mesmo fim (Portugueses Primeiro, 1143, Blood and Honour, Hammerskins, Habeas Corpus, Movimento Armilar Lusitano). No Relatório Anual de Segurança Interna, a sua actividade foi liminarmente e inexplicadamente apagada.  Por quem? Porquê?

Já se sabia da existência e influência dos neonazis nas redes sociais. Já se conheciam as ligações, algumas familiares, com partidos parlamentares e outros. O caldo de cultura e os financiamentos são conhecidos.

O aparelho de Estado está permeável. Uma responsável da Unidade Nacional Contra o Terrorismo da PJ veio a público com a equiparação da extrema direita e uma “extrema esquerda”. Convinha que esclarecesse que factos conhece, para uma tal simetria. O mesmo disse Carlos Moedas, mas esse é demasiado pequeno para se levar a sério.

Se não, perguntar-se-á: Quem nos protege da Polícia? Ou da Justiça? Quem nos protege das infiltrações nas Forças de Segurança? Quem nos protege do aparelho de Estado, de um Estado Democrático, exposto a ideais neonazis? Nós, resistindo com coragem.

CR

 

 

 

A garota não - Prédio mais alto

sexta-feira, 2 de maio de 2025

do baú

 

ELA E O ESPÍRITO SANTO

Soubemos recentemente que Maria de Belém Roseira m, a ex-Ministra da Saúde de António Guterres nos anos de 1995 a 1999 e actualmente deputada PS, tinha sido contratada como Assessora para as Questões de Saúde do Grupo Espírito Santo. A citada senhora exerce à data o cargo de Presidente da Comissão Parlamentar de Saúde e tem também responsabilidades na União das Mutualidades portuguesas.

A avença em causa destinar-se-ia (cito) “dar pareceres sobre a estratégia da Espírito Santo Saúde nomeadamente na área dos cuidados continuados”, vulgo idosos e dependentes. A explicação é simplista: ninguém acredita que o Grupo Espírito Santo não tenha uma estratégia orientadora para o sector. O que falta é provavelmente a ligação funcional privilegiada com os centros de influência e decisão. E aqui justifica-se a avença.

Muitos referiram a promiscuidade latente entre o exercício de cargos públicos e o serviço de interesses privados. Outros referiram a incompatibilidade do Deputado e do Estratega privado e relembram a frase histórica sobre a mulher de César… Outros lembraram a actividade recente dos grupos privados na Saúde e os lucros gigantescos que se avizinham nomeadamente nos sectores relacionados com a prestação de cuidados de saúde a velhos, idosos e dependentes.

Ficamos a saber que ao aprovar estas incongruências e negociatas, o PS se identifica mais com os interesses do BES do que com a defesa do Serviço Nacional de Saúde.  

Tenho para mim que há igualmente um traço de continuidade divina que vai de Belém ao Espírito Santo, do Hospital da Luz à Misericórdia, passando por outros altares e cofres fortes. Pina Moura, antes de ser Iberdrola, era chamado O Cardeal. Maria de Belém, antes de converter-se ao Espírito Santo, anseia ser a Santinha da…Roseira.

Cristiano Ribeiro