um blogue pessoal com razões e emoções á esquerda

UM BLOGUE PESSOAL COM RAZÕES E EMOÇÕES À ESQUERDA

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

ENQUADRAMENTO DA GUERRA (II) - LÍBIA


Conhecemos da Líbia actual as imagens dos afogados das praias, emigrantes / náufragos africanos e subsarianos na tentativa tantas vezes gorada de através do Mar Mediterrâneo atingir a Itália, a cerca da 300 Km. Conhecemos também as imagens bem encenadas da decapitação de “infiéis” pelo Estado Islâmico, nas mesmas praias. Sabemos do caos, dos poderes fragmentados e sem autoridade dispersos nesse país rico em petróleo.
Sabemos da intervenção militar britânica na Líbia, associada aos franceses, potenciando a sublevação contra o regime de Kadhafi de 2011. Sabemos do “entusiasmo” libertador protagonizado por Paulo Portas e pela intelectualidade francesa. Agora o relatório do Parlamento inglês esclarece responsabilidades: “o governo britânico (de David Cameron) não conseguiu verificar a ameaça real que o regime de Kadhafi representava para os civis”. Linguagem esotérica esta… mas compreensível quando se fala de “premissas erradas” e “análise parcial de provas”. Cameron não respondeu ao relatório. Questões de agenda…
Mas recuamos á crueldade nos tempos de Kadhafi. A revista suíça “Schweizmagazin" publicou agora um artigo intitulado "Kadhafi foi assim tão cruel?". Eis alguns dos "sofrimentos" que o tirano (segundo os media ocidentais), provocou durante 4 décadas:
- Não havia conta de luz na Líbia, porque a eletricidade era gratuita para todos.
-  Créditos bancários, dos bancos estatais, eram sem juros (para todos, por lei expressa).
- Casa própria era considerada direito humano, universal, e o governo fornecia uma casa ou apartamento para cada família.

-  Recém casados recebiam  50.000 dólares para comprar casa e iniciar a vida familiar.

- Educação e saúde eram gratuitas, da pré-escola à universidade. Antes de Kadhafi: 75% dos líbios eram analfabetos. Até o ano de 2010, este número passou para 17% .

- Jovens agricultores recebiam terra, casa, equipamentos, sementes e gado gratuitamente.

- Quem não encontrou formação ou tratamento desejados recebia financiamento para ir ao exterior, acrescidos de 2.300 dólares mensais para moradia e carro.

- Na compra de automóvel, o estado contribuía  com subvenção de 50%.

- O preço de gasolina era por litro: 0,10 €

- Faltando emprego após a formação profissional, o Estado pagava salário médio da classe até conseguir a vaga desejada.

- A Líbia não tinha dívida externa - as suas reservas eram de 150 mil milhões de dólares. Após a ocupação os valores foram retidos ou desviados pelos bancos estrangeiros, incluindo investimentos em bancos estrangeiros e as reservas em ouro.

- Parte de toda a venda de petróleo era diretamente creditada na conta de cada cidadão.

- Mãe que dava á luz recebia 5.000 dólares

-Cerca de 25 % da população líbia tinha curso superior.

- Foi construiu o projeto GMMR (O Grande Rio Artificial), transportando água dos lençóis subterrâneos do Rio Nilo para as cidades e agricultura, irrigando as principais cidades do país e parte do deserto.

Agora morto o homem e instalada a anarquia, a Líbia sofre um atraso de muitas décadas... com consequências terríveis para a sua população.

Mas os "desinteressados defensores dos direitos humanos", os governos dos EUA, da França e da Inglaterra vendem agora muito mais armas e estão a receber o petróleo e o gás natural da tal Líbia por mais algumas décadas.

E até a União europeia tem um programa para treinar a guarda costeira da líbia: remoção diária de cadáveres.

CR

Christy Moore - Viva la Quinta Brigada



Admirável canção e tributo aos Voluntários Irlandeses das Brigadas Internacionais que foram para Espanha para lutar com os trabalhadores espanhóis na tentativa de travar o fascismo na Guerra Civil Espanhola

Around the time I saw the light of morning
A comradeship of heroes was laid
From every corner of the world came sailing
The Fifty International Brigade.

They came to stand beside the Spanish people
To try and stem the rising fascist tide
Franco's allies were the powerful and wealthy
Frank Ryan's men came from the other side.

Even the olives were bleeding
As the battle for Madrid it thundered on
Truth and love against the force of evil
Brotherhood against the fascist clan.

Viva la Quinta Brigada,
No Pasaran, the pledge that made them fight
Adelante was the cry around the hillside
Let us all remember them tonight.

Bob Hilliard was a Church of Ireland pastor
Form Killarney across the Pyrenees he came
From Derry came a brave young Christian Brother
And side by side they fought and died in Spain.

Tommy Woods age seventeen died in Cordoba
With Na Fianna he learned to hold his gun
From Dublin to the Villa del Rio
He fought and died beneath the Spanish sun.

Many Irishmen heard the call of Franco
Joined Hitler and Mussolini too
Propaganda from the pulpit and newspapers
Helped O'Duffy to enlist his crew.

The call came from Maynooth, "support the facists"
The men of cloth had failed yet again
When the Bishops blessed the Blueshirts in Dun Laoghaire
As they sailed beneath the swastika to Spain.

This song is a tribute to Frank Ryan
Kit Conway and Dinny Coady too
Peter Daly, Charlie Regan and Hugh Bonar
Though many died I can but name a few.

Danny Boyle, Blaser-Brown and Charlie Donnelly
Liam Tumilson and Jim Straney from the Falls
Jack Nalty, Tommy Patton and Frank Conroy
Jim Foley, Tony Fox and Dick O'Neill.

informação minimalista

361
milhões de euros. São os lucros da Galp nos primeiros nove meses de 2016.

domingo, 30 de outubro de 2016

Reggie Watts - Radiohead - HUMOR /PARÓDIA



Uma paródia divertida e inteligente aos GRANDES Radiohead

ENQUADRAMENTO DA GUERRA (I) - MOSSUL


Decorre desde 17 de Outubro a fase final da batalha por Mossul, 2.ª cidade do Iraque, com 1,3 milhões de habitantes. A cidade está tomada desde 2014 pela organização terrorista Estado Islâmico, que fez dela sua capital no Iraque. Forças do exército iraquiano, milícias xiitas iraquianas e forças curdas, apoiadas por uma coligação que inclui os Estados Unidos da América, prepararam a ofensiva. Mas Mossul foi cercada deliberadamente para que os terroristas possam fugir para oeste, para a fronteira da Síria. Isso resultou da estratégia dos Estados Unidos da América e do seu aliado turco.

Ao contrário do que seria lógico se se pretendesse matar a serpente jihadista no ovo, com um cerco total e a morte ou prisão da estrutura criminosa que inclui muitos milhares de mercenários de todo o mundo, assiste-se a mais um jogo superperigoso, com a transferência e reforço da ameaça politica e militar dos cruéis radicais para a Síria, nomeadamente para Raqqa, a capital do Estado Islâmico na Síria. Há relatos por parte de forças iraquianas da participação da força aérea americana na retirada dos principais dirigentes do Estado Islâmico de Mossul. Fica-se com a impressão de que Washington não combate verdadeiramente o Estado Islâmico, sua criação, antes o desloca como já fez em Falluja, no Iraque.

Após a aventura desastrosa de tentar mudar o regime Baath na Síria e no Iraque, com milhões de mortos e deslocados, assiste-se a uma tentativa de mudança das actuais fronteiras por parte de países limítrofes como a Turquia, e de potências europeias como a França. A Turquia por exemplo ameaça não permitir que forças curdas tomem bastiões do EI a oeste de Mossul, como em Tel Afar. Que pretende Ancara? Durante 2 anos de ocupação desta cidade iraquiana, de predominância turcomena, a Turquia nada fez, tal como em Kobani. Limitou-se a gerir o desespero e a mão de obra infantil barata dos desalojados em industrias locais. Agora é o “vem aí os curdos…” e a invasão do norte da Síria. O Estado Islâmico é o amigo que geoestrategicamente se abandona.

São inúmeras as tentativas de divisão de povos, comunidades, promovidas pelas potências ocidentais. É o dividir para reinar. Umas vezes são promovidos os interesses dos yazidis, outras vezes são os curdos, outros são os cristãos, ou os turcomanos, ou os árabes ou os drusos, ou os sunitas. Mas sempre o que predomina, aquilo que a maioria da comunidade internacional mais promove, e os media do sistema reproduzem não são os interesses dos povos, são os interesses da Guerra e de Israel.  


CR

poema


PASIONARIA
Morrerei como o pássaro: a cantar,
Penetrado de plumas e firmeza,
Sobre o perene clarão das coisas.
Cantando, a cova terá de me aceitar,
a alma deitada, voltada a cabeça
para as formosuras mais formosas.
Uma mulher que é uma estepe única
habitada de aço e criaturas,
sobe de espuma e atravessa de onda
esta comarca só de formosuras.
Dá vontade de beijar os pés e o sorriso
a esta ferida espanhola,
a expressão desse rosto de nação enlutada,
e aquela terra que de súbito pisa
como se contivesse a terra na pegada.
O fogo a incendeia e a alimenta:
labareda que apaixona e cresce, libertada
ao voar da amendoeira florida do seu vulto.
A seus pés, arde a cinza mais gelada.
Vasca de generosos fundamentos:
azinho, pedra, vida e erva nobre,
nasceste para dar a direcção aos ventos,
nasceste para ser esposa de algum roble.
Somente os montes te podem suster,
gravada estás em tronco sensitivo,
esculpida no sol forte dos vinhedos.
O mineiro descobre para te ouvir e ver
As surdas galerias do mineral cativo
E, pela terra, as leva a teus dedos.
Teus dedos e unhas fulgem como carvões,
ameaçando fogo até aos astros
porque em metade da palavra pões
um sangue que deixa fósforo em seus rastros.
Clamam teus braços que até fazem espuma
ao chocar contra o vento:
transbordam de ti o peito e as artérias
porque tanta maldade se consuma,
porque tanto tormento,
porque tantas misérias.
Os ferreiros te cantam ao som da ferraria,
Pasionaria escreve o pastor no seu cajado
e o pescador com beijos desenha-te nas velas.
Escuro o meio-dia,
a mulher redimida e exaltada,
naufragadas e feridas as gazelas
reconhecem-se sob o fulgor que envia
tua voz candente, manancial de estrelas.
Queimando com o fogo da cal mais abrasada,
Falando com a boca dos poços minerais,
mulher, Espanha, mãe em infinito,
és capaz de produzir clarões astrais,
és capaz de arder de um único grito.
Perdem maldade e sombra tigres e carcereiros.
Por tua voz fala a Espanha das vastas cordilheiras,
a dos braços pobres e explorados,
crescem os heróis cheios de palmeiras
e morrem a saudar-te pilotos e soldados.
Ao ouvir-te bater como coberta
de meridianos, bigornas e cigarras,
o varão espanhol sai à sua porta
e sofre percorrendo planícies de guitarras.
A arder ficarás em chama erguida
sobre o arco nebuloso do olvido,
sobre o tempo que teme ultrapassar tua vida
e toca como um cego, numa ponte
de cenho envelhecido,
um violino queixoso e impotente.
Tua força cinzelada brilhará eternamente,
Fogosamente cheia de esplendores,
E quem pela cadeia foi mordido
Em teus cabelos terminará suas dores.

Miguel Hernandez

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

importante texto

Sobre o Cristianismo Revolucionário
Intervenção lida no debate “O PCP, os Católicos e a Igreja”, org. Partido Comunista Português. Biblioteca de Penacova, 7 Fev. 2015.

Todos os que militais
debaixo desta bandeira
não durmais já, não durmais,
pois que não há paz na terra. (1)

Estas parecem ser palavras de um poeta que resolveu desenvolver o tema da bandeira comunista a partir do potente poema de Ary dos Santos. Mas não são. São versos de um poema de Teresa de Ávila escrito no século XVI.
Cada religião tem a sua história. As religiões não caem do céu. São construções históricas com raízes sociais e culturais, determinadas por complexos de relações económicas (e, portanto, de poder). O cristianismo foi perseguido pelo Império Romano até à publicação do Édito de Milão, no ano 313, durante o reinado do primeiro imperador cristão, Constantino I. Este decreto estabeleceu a neutralidade do poder imperial em relação ao credo religioso, terminando com as perseguições sancionadas oficialmente, especialmente à comunidade cristã. Até esse momento, os cristãos reuniam-se nas casas, nas catacumbas, escondidos. Nos Actos dos Apóstolos, escrito por volta do ano 80, lemos algo que evoca aquilo que o pensamento marxista designa de comunismo primitivo: “Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um.” (2,44-45).
“Igreja” vem da palavra grega ekklesia, que significa assembleia. Esta comunidade de homens e mulheres livres para si e à procura da libertação efectiva ganhou, mais tarde, uma máscara institucional, calcificada. Tal não aconteceu por acaso. Foi uma forma da Igreja se assumir como poder, sendo integrada no poder dominante existente. Isso tornou-se notório em particular quando — ironia das ironias, explicada pela correlação das forças sociais naquela época — o cristianismo se tornou religião oficial do Império Romano no final do século IV, pela mão do imperador Teodósio I. A partir daí, todas as outras religiões foram proibidas. Séculos depois, através de processos e instituições como o Tribunal do Santo Ofício, vulgarmente chamado de Inquisição, a perseguição que se tinha abatido sobre os primeiros cristãos passou de fora para dentro da Igreja.
Em simultâneo, na generalidade, as celebrações litúrgicas foram-se tornando funções da co-existência de classes com interesses antagónicos, sem discurso crítico que enfrentasse essa contradição no terreno religioso. A liturgia da palavra e a liturgia eucarística cumpriam assim o papel de uma normalização social, conseguindo o prodígio de celebrar a igualdade ao mesmo tempo que sancionavam a desigualdade. Só que o lugar de um cristão numa sociedade injusta é na cruz, ou seja, é a falar e a agir assumindo o risco de ser incompreendido, acossado, agredido, e assassinado como Cristo foi. A insurreição contra a sujeição, a supremacia, e a desigualdade vigentes de diversas formas na sociedade esclavagista (na qual emergiu o cristianismo), no feudalismo, e finalmente no capitalismo, permaneceu entre alguns cristãos ao longo de todo este processo histórico — por isso, aqui estou e aqui estamos. Fico-me por alguns exemplos da Ordem dos Pregadores, mais conhecida como Ordem Dominicana.
Frei António de Montesinos, como voz da comunidade dominicana instalada na ilha Espanhola, actual ilha de São Domingos, disse um sermão a 21 de Dezembro de 1511 que enfureceu os colonizadores do Império Espanhol que o ouviram. Insurgia-se ele contra “a crueldade e tirania” que via sem poder ignorar. E perguntava: “Dizei: com que direito e com que justiça tendes este índios em tão cruel e horrível servidão? Com que autoridade fizestes tão detestáveis guerras a estas gentes que estavam nas suas terras [...]? [...] Estes não são homens?” (2). Repreendidos os frades, os representantes da coroa requereram um sermão rectificador. Foi pior a emenda que o soneto. O frade voltou à carga ainda com mais veemência. O rei Fernando II de Aragão ordenou que frei António e os seus confrades fossem expulsos do território. Foi o início de uma longa luta pelos direitos dos nativos das terras conquistadas.
Frei Bartolomeu de las Casas assistiu a tudo isto e narrou-o. Escreveu dois importantes tratados em defesa dos índios e dos negros contra a escravidão que lhes foi imposta pelas forças colonialistas e imperalistas, Brevíssima Relação da Destruição das Índias e Brevíssima Relação da Destruição de África (3). Como diz Fidel Castro numa das suas conversas com frei Betto: “A verdade mais objetiva que encontraram nos países conquistados pelas nações mais avançadas foi a perda de sua liberdade, o abuso, a exploração, as cadeias e, por vezes, inclusive o extermínio. É preciso assinalar que já naquele tempo houve sacerdotes que reagiram contra aqueles crimes inauditos, como por exemplo o padre Bartolomeu de las Casas.” (4) Sobre frei Bartolomeu, Fidel acrescenta o seguinte em tom de elogio: “A Ordem pode se sentir orgulhosa dele, foi um dos exemplos mais honrados, pois denunciou e se opôs aos horrores que se seguiram à conquista” (5).
Já depois do feudalismo, em pleno capitalismo, frei Betto, frei Tito, e outros frades de São Paulo, foram presos durante a ditadura militar no Brasil (1964-85) e sujeitos a longos interrogatórios e alguns a terríveis torturas. Tinham colaborado com um dos principais resistentes ao regime, o comunista Carlos Marighella, fundador do grupo de guerrilha Acção Libertadora Nacional (ALN). Numa carta de Janeiro de 1971 dirigida a um companheiro, frei Tito escreveu: “Para mim foi motivo de grande satisfação ter convivido com você durante 12 meses no presídio Tiradentes. Sob o signo deste herói que, infelizmente, virou nome de cárcere, reuniremos os grandes ideais que o futuro do povo brasileiro tanto anseia: a construção do socialismo. E só os verdadeiros homens é que foram chamados para este grande ideal. Contra isso, nada vence; nem tortura e nem perseguições.” (6)
Uma análise científica sobre a função das instituições religiosas ao longo da história da humanidade conduz à conclusão de que a religião tem sido usada por quem oprime e explora para legitimar esse estado de coisas, esse statu quo. Esta legitimação tem como base nomeadamente a invenção de uma autoridade que está acima de todos, arrogando-se o poder de falar em nome dos deuses. Por essa razão, o frade dominicano Yves Congar provocou escândalo, um escândalo necessário, quando afirmou que “[o] Papa não está acima da Igreja, o Papa está dentro da Igreja” (7). O marxismo, por estar interessado na realidade, não pode ter uma visão idealista da religião, isto é, não pode considerar que a religião é independente das condições históricas. A religião é também um campo de batalha, de ideias é certo, mas também de práticas. Lembro, por exemplo, que Joseph Ratzinger, quando era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, antes de ser eleito papa, acusou a teologia da libertação e a sua defesa de uma prática pela real libertação humana de ortopraxis, uma espécie de reverso da ortodoxia. A teologia da libertação, herdeira de frei António e frei Bartolomeu, atacada mas resistente à eliminação, suportada pela análise marxista no modo como desvenda a exploração capitalista, tem chamado a atenção para o facto de que a teologia se produz em determinadas conjunturas. Por esse motivo, a teologia tem tendência para se alinhar com a ideologia da classe dominadora e dominante. Como Engels admite, “o cristianismo era, na origem, o movimento dos oprimidos: apareceu primeiro como a religião dos escravos e dos libertos, dos pobres e dos homens privados de direitos, dos povos subjugados ou dispersos por Roma” (8). Esta linhagem revolucionária que Engels identifica não se evaporou.
Nesse sentido, vale a pena voltarmos a um discurso lido por Álvaro Cunhal a 26 de Setembro de 1975 no Porto. Estávamos em plena campanha violenta contra o PCP. Multiplicavam-se os ataques a Centros de Trabalho do Partido. A facção mais reaccionária da Igreja, à qual pertenciam figuras como o cónego Melo e forças terroristas como o MDLP (responsável, aliás, pelo assassinato do progressista padre Max), mobilizava e instigava muitos crentes contra os comunistas. Apesar destes factores, Álvaro Cunhal não perdeu a clareza de leitura da situação, reiterando, em primeiro lugar, a posição do PCP de defesa intransigente da liberdade religiosa e transmitindo, em segundo lugar, uma forte imagem de unidade: “Na luta do povo, nas fábricas, nos campos, nos quartéis, não se pergunta quem é e quem não é católico”, todos lutavam “ombro a ombro” (9). Mas entre uma coisa e outra, é introduzida a ideia de que a “intolerância” e o “desrespeito pela consciência” dessas forças as situavam longe de Cristo: “Para quem alguma vez tenha lido os Evangelhos está perfeitamente claro que não são certamente os caciques locais fascistas e reaccionários, os salteadores e incendiários e os seus inspiradores, que mais próximos estão das palavras e dos actos de Cristo. Entre as aspirações sociais dos Evangelhos na sua época e as aspirações sociais dos comunistas nos dias de hoje há uma proximidade incomparavelmente maior do que entre as aspirações de Cristo e as ideias objectivas dos reaccionários, mesmo que sejam elementos do clero.” (10) Esta passagem está em linha o que eu tenho vindo a dizer. É conhecido o aforismo do bispo brasileiro Hélder Câmara, chamado por alguns de Arcebispo Vermelho: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista.” Um cristão deve ser radical, na acepção elaborada por Karl Marx, não podendo abdicar de ir à raiz das coisas, à causa dos problemas. Ao reflectirmos sobre uma afirmação tão comum hoje em dia como a de que “não há dinheiro”, a nossa tarefa deve ser percebermos porquê, ou melhor, compreendermos quem se está a apoderar da riqueza que todos nós, trabalhadores, produzimos.
Ninguém nasce cristão como ninguém nasce comunista. Vamos fazendo sentido da nossa vida com opções que nos comprometem. É neste caminho que podemos falar em nós, força unida com objectivos comuns de transformação do mundo, todo animado por diferentes perspectivas e contributos, incluindo neste sujeito todas as pessoas que desejem ser nele incluídas. Nós somos aqueles que não dormem, como diz Teresa de Ávila, porque ainda não há paz — e também porque temos como verdadeiro que sem justiça a paz nunca triunfará. Não é de estranhar que a palavra “esperança” seja das que mais nos une, não só no combate à resignação, mas também no acto de dar outra destinação às nossas vidas — como gosta de dizer José Barata-Moura —, que está, digamos assim, à mão de semear. Termino, esperançoso, precisamente com palavras dele: “A esperança não é uma consolação de bem-aventurança sonhada e prometida em termos de maior ou menor proximidade e imanência. Só ganha sentido, de uma forma não mistificadora, quando unida à força material que um projecto social de transformação encarna, em virtude das próprias condições históricas em que se desenvolve.” (11)

Sérgio Dias Branco

Notas
(1) Teresa de Ávila, OCD, Seta de Fogo, trad. José Bento, 2.ª ed. (Lisboa: Assírio & Alvim, 2011), p. 109.
(2) António de Montesinos, OP, Bartolomeu de las Casas, OP, e Francisco de Vitória, OP, E Estes Não Serão Homens?: Os Dominicanos e a Evangelização das Américas, trad. Catarina Silva Nunes (Coimbra: Edições Tenacitas, 2014), p. 19.
(3) Bartolomeu de las Casas, OP, Brevíssima Relação da Destruição das Índias, trad. Júlio Henriques (Lisboa: Edições Antígona, 1990) e Brevíssima Relação da Destruição de África, trad. Henriques (Lisboa: Edições Antígona, 1996).
(4) Frei Betto, OP e Fidel Castro, Fidel e a Religião: Conversas com Frei Betto [1985] (Lisboa: Caminho, 1986), p. 192.
(5) Ibid.
(6) Apud. Betto, OP, Batismo de Sangue: Os Dominicanos e a Morte de Carlos Marighella [1982], 9.ª ed. (Rio de Janeiro: Editora Bertrand, 1987), p. 202, http://www.dhnet.org.br/verdade/res....
(7) Apud. Jean Coronel, OP, Acuso a Igreja [1996], trad. José A. Pereira Neto (Lisboa: Editorial Notícias, 2003), p. 40.
(8) Friederich Engels, Contribuição para a História do Cristianismo Primitivo [1895], par. 1, https://www.marxists.org/portugues/....
(9) Álvaro Cunhal, “Discurso no Comício do PCP / Palácio de Cristal, Porto, 26 de Setembro de 1975”, in Obras Escolhidas Tomo V (1974-1975), coord. Francisco Melo (Lisboa: Edições “Avante!”, 2014), p. 675.
(10) Ibid., p. 674.

(11) José Barata-Moura, Estética da Canção Política (Lisboa: Livros Horizonte, 1977), p. 19.