Um porta-voz da Amnistia Internacional
falava em Dezembro de 2016 sobre a situação em Alepo. Não poupou nas palavras
nem nas conclusões: «a chocante informação de que dezenas de civis têm sido
executados extrajudicialmente pelas tropas do governo sírio […] aponta para
crimes de guerra» […] «A informação de que civis – incluindo crianças – estão a
ser massacrados a sangue-frio em suas casas pelas forças do governo sírio é
profundamente chocante mas não é inesperada, tendo em conta a conduta destas
forças até à data.» […] «No decurso do conflito as forças sírias, apoiadas pela
Rússia, têm repetidamente manifestado um grosseiro desrespeito pelo direito
humanitário internacional e um evidente desprezo pela sorte dos civis».
Intensifica-se agora uma «ofensiva aliada»
sobre Mossul, no Iraque. Há notícia de milhares de mortes de civis. A Amnistia
Internacional, que tão duramente e de forma tão conclusiva se pronunciara em
Dezembro sobre Alepo, pronuncia-se agora sobre Mossul. A fórmula utilizada é um
verdadeiro salamaleque: «o recente aumento de baixas civis […] sugere que a
coligação encabeçada pelos EUA não está a conseguir tomar as precauções
adequadas para evitar mortes civis». Só falta pedir desculpa pelo atrevimento.
É certo que atribui a situação a «um
padrão alarmante na utilização por parte da coligação encabeçada pelos EUA de
ataques aéreos que têm destruído habitações inteiras com famílias no seu
interior». Mas agora não há crimes de guerra nem a tomada de civis como alvo, há
apenas «incapacidade em tomar precauções».
Tem diferentes lentes esta ONG. As
tragédias de que fala – que resultam em milhões de mortos e refugiados e em
países destruídos – são idênticas e foram desencadeadas pela mesma mão: os EUA,
a NATO e os seus aliados na região. Não têm fim à vista. Relativizar as suas
consequências conforme as forças em presença é, antes de tudo, trair as vítimas.

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