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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

DA LEITURA - REFLEXÃO

DA LEITURA DO LIVRO “TEXTOS POLÉMICOS” (1971) – Organização e Prefácio de Zeferino Coelho, Edição Cruz dos Santos

O livro “Maio e a crise da civilização burguesa” foi escrito em 1970 pelo historiador António José Saraiva (e publicado em Edições Europa-América). Consiste em um diário, três ensaios e um posfácio, com três anotações. O polémico texto renegava teses fundamentais apresentadas anteriormente, nomeadamente em 1960 pelo mesmo autor (como em Dicionário Crítico de Algumas Ideias e Palavras Correntes).
Viveu AJ Saraiva em Paris desde 1960, como Investigador do Departamento de História Moderna do CNRS e assim assistiu á crise de 1968 em França, embora se diga como “observador marginal”. “Maio e a crise da civilização burguesa” nasce neste contexto, e é classificado por Zeferino Coelho, no seu texto, de um “cadáver pedante superfinamente enroupado segundo o dernier cri”.
É a discussão do percurso desse pensamento, que expressa paixão, ressabiamento e até uma autoflagelação quase mística, a que nos aparece em obra que reune textos críticos de outros intelectuais (Daniel G. Pinho, Jofre Amaral Nogueira, José Pacheco Pereira, Mário Sottomayor Cardia e do próprio Zeferino Coelho), publicados em 1971 com o título de “Textos Polémicos”.
A reflexão de AJSaraiva pressupunha em 1960 a “dissecação do mito do inimigo reputado principal”, o sistema politico económico e social de então. Apresentava então conceitos fundamentais como “esquerda” e “direita” como “coordenadas de orientação, exigidas pelo instinto”. Existia nessa reflexão uma diferenciação entre os que tinham direitos politicos, sindicais e culturais, e possuem bens / riqueza e eram sujeitos da vida politica e os que não tendo eram mero objecto da mesma vida politica. Senhores e servos, assim expressos, servidões naturais e sociais, assim identificadas.
Presidia nela uma análise marxista, objectiva, progressista da sociedade. Nesta era possível descortinar as limitações da lógica do lucro, perante as espectativas crescentes (e necessidades) dos sectores menos qualificados e sem bens, a luta pelo usufruto de bens sociais, as “paixões”.
Assinalavam-se historicamente os momentos de crise como o ascenso de regimes fascistas na Europa como resultantes da crise económica de classe média. Interrogava-se o carácter progressista da burguesia perante o ascenso da classe operária nos países industrializados e não só.
Assinalavam-se as vantagens da instrução pública como factor de libertação e emancipação social (contra a “inevitabilidade da miséria”, ou o “determinismo social do berço”) e de valorização de uma nação.
Reafirma-ve o direito natural à posse do fruto do trabalho e à igualdade de “oportunidades sociais”. Salientava-se a solidariedade como caracteristica progressista. Era 1960.


Mas com “Maio e a crise da civilização burguesa” há um refazer da teoria social, um revisionismo que é conformismo e abdicação, uma mudança de armas de intervenção social. AJSaraiva encontra a sua Estrada de Damasco, uma amálgama doutrinária, que justifica pela “experiência” em contraponto á anterior via doutrinária. Os modelos de análise substituem a realidade ou a tentam conformar.
A crise que em AJS nos é proposta analisar não é a de uma classe social ( a burguesia) ou do capitalismo de finais de 60, e também não é a crise da inserção de um grupo social nas relações de produção existentes. A crise para AJSaraiva é de uma mentalidade dita “burguesa” de uma “classe média”, a seu ver “massa única, homogénea”, em expansão.
Há a tentativa de abolir as classes, eliminando o proletariado que de “multidão enigmática” do século XIX passa a “multidão pacata” no século XX, caminhando para o seu desaparecimento. Não há mais explorados! proclama AJ Saraiva. Resta uma “ampla burguesia”, o campesinato, as “massas estudantis”, certos “intelectuais, o lumpen-proletariado...
A Escola segundo AJS teria fornecido conhecimentos ás massas trabalhadoras mas também teria provocado a assimilação de valores (“burgueses”, claro!). Não teria sido só ela. A própria Revolução Industrial teria integrado na cultura dominante, “burguesa”, os deslocados do campo, assim assimilados, após o desenraízamento dos seus valores. A cidade assimila.. e assim afasta a revolução! AJ Saraiva dixit.
Nega-se a conciência histórica como aceleradora da História e inventa-se outras dimensões para negar o progresso material como resultado da ciência ao serviço da possibilidade de transformar o mundo. Proclama-se a suprema virtualidade para um mundo melhor de uma “mudança espiritual” num idealismo que sente o Homem como único e excepcional .
Inventa AJ Saraiva um capitalista parasitário que só recebe os juros do capital e que geraria cada vez menos a empresa, e um capital de dinâmica subjectiva, não respondendo a lógicas e a principios.

( a continuar...)