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segunda-feira, 5 de março de 2012

Daniel Faria - "Devo ser o último tempo"



Daniel Faria, nasceu a 10 de Abril de 1971, em Baltar - Paredes, Portugal. Faleceu a 9 de Junho de 1999

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

POESIA

A UM PAPA

Poucos dias antes que morresses, a morte
tinha posto os olhos num teu coetâneo:
aos vinte anos, eras estudante, ele servente,
tu, nobre, rico, ele um rapazote plebeu:
mas os mesmos dias douraram sobre vós
a velha Roma que se tornava assim nova.

Vi os seus despojos, pobre Zucchetto.
Girava de noite, bêbedo, em volta dos Mercados,
e o eléctrico de São Paulo atropelou-o
e arrastou uma parte pelas linhas entre os plátanos:
algum tempo ali ficou, sob as rodas:
alguma gente se reuniu em torno a olhá-lo
em silêncio: era tarde, havia poucos passantes.
Um dos homens que existem porque tu existes,
um velho polícia, desleixado como um «guapo»,
gritava a quem se encostava muito: «Larguem-lhe a braguilha!»
Depois veio o automóvel dum hospital a carregá-lo:
a gente dispersou, ficou qualquer frangalho aqui e ali,
e a dona de um bar nocturno, mais à frente,
que o conhecia, disse a um recém chegado
que Zucchetto acabara sob o eléctrico, finara-se.

Poucos dias depois acabavas tu: Zucchetto era um
da tua grande grei romana e humana,
um pobre bebedolas, sem família e sem leito,
que girava de noite, vivendo quem sabe como.
Tu não sabias nada: como não sabias nada
de outros tantos e tantos cristos como ele.
Talvez seja feroz ao perguntar-me por que razão
a gente como Zucchetto era indigna do teu amor.
Há lugares infames, onde mães e filhos
vivem numa poeira antiga, em lama de outra época.
Precisamente não longo donde viveste,
à vista da bela cúpula de S. Pedro,
há um destes lugares, o Gelsomino...
Um monte talhado ao meio por uma mina e, em baixo,
entre pedras e uma fila de novos prédios,
um grupo de míseras construções, não casas mas pocilgas.
Bastava apenas um gesto teu, uma palavra tua,
para que aqueles teus filhos tivessem uma casa:
tu não fizeste um gesto, não disseste uma palavra.
Não te pedíamos que perdoasses a Marx! Uma onda
imensa que se refracta por milénios de vida
te separava dele, da sua religião:
mas na tua religião não se fala de piedade?
Milhares de homens sob o teu pontificado,
perante os teus olhos, viveram em estábulos e pocilgas.
Tu o sabias, pecar não significa fazer mal:
não fazer bem, isso é que significa pecar.
Quanto bem podias fazer! E não o fizeste:
não houve um pecador maior do que tu.

Pier Paolo Pasoli

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

poesia

MALDIÇÃO

Maldito seja o que busca

matar o sonho dos homens.

Maldita seja a vergonha.

Maldito seja o pesar.

Maldito seja o silêncio

que nos cala antes da morte.

Maldito seja o que é falso,

ou induz em confusão.

Malditos sejam os bons

que o são só por piedosos.

Maldito seja o cruel

por ódio ou por piedade.

Maldito seja o que aceita

argumentos que não pesa.

Maldito seja o que força

alguém a acreditá-lo.

Maldito seja o orgulho

do que o alheio despreza.

Maldito seja o que faz

dos desejos maldição.

Maldito seja o desejo

de só nada desejar.

Maldito seja o que inveja

o pão de que não precisa.

Maldito seja o que encontra

na fome conformação.

Maldito seja o que é feio

por gosto de fealdade.

Maldita seja a beleza

que à vida seja traição.

Maldita seja a riqueza

que de fartura não serve.

Maldita seja a fartura

quando a todos não chegar.

Maldito seja o saber

arvorado em tirania.

Maldito seja o que ignora

e não dá por ignorar.

Maldito seja o que impõe

o que para si não quer.

Maldito seja o que jura

contra a sua convicção.

Maldito seja o que alcança

sem o esforço de colher.

Maldito seja o temor

de luz de mais nos cegar.

Armindo Rodrigues

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

poesia

ANGINA DE PEITO

Se metade do meu coração está aqui, doutor,
a outra metade está na China,
no exército que desce em direcção ao Rio Amarelo.

E depois, todas as manhãs, doutor,
o meu coração é fuzilado na Grécia.

E depois, quando os prisioneiros mergulham no sono,
quando a calma regressa à enfermaria,
o meu coração parte, doutor,
todas as noites
parte para uma casa
velha de madeira em Tchamlidja.

E depois, faz dez anos, doutor,
que nada tenho nas mãos para oferecer ao meu pobre povo,
só uma maçã,
uma maçã vermelha: o meu coração.

É por isso, doutor,
e não por causa da arteriosclerose, da nicotina, da prisão,
que tenho esta angina de peito.

Olho à noite por entre as grades
e apesar de todas as paredes que me pesam no peito,
o meu coração bate ao ritmo da estrela mais longínqua.


Nâzim Hikmet

terça-feira, 21 de setembro de 2010

poema

BREVE INVOCAÇÃO DO LOCAL DE TRABALHO E DOS SEUS DEDICADOS TRABALHADORES, TRIPULANTES EXPERIMENTADOS NA ARTE DE MAREAR PELAS ROTAS DA SAÚDE

Que a Unidade de Saúde seja
barco em Milhundos fundeado
íntegro, preciso e inteiro,
em viagem de dificuldades
rompendo inóspito nevoeiro,
barco no presente situado
sempre com o futuro ali ao lado

Que seja
berço,
ninho, estufa,
lar
casa-mãe, escola
fonte, seguro,
doca de bem chegar

Manhã nascente
iniciação
criança doente
preocupação
actividade fremente
impresso
papel de impressão
equipa presente
cooperação
desafio difícil
oportuna decisão
iniciativa
programação
riso
excessos
imprecação
ansiedade
sublimação
perseverança
continuação

Tarde poente
final tardio
vontade indolente
cansaço sentido
excesso de gente
público sadio
doença inclemente
má sorte
final de vida
sinal de morte
orgulho
dor
satisfação

Quando o tempo urge
a necessidade assola,
soam os apitos
soltam-se as amarras,
partimos calçados
partimos descalços
partimos
e ao leme vogamos
em direcção
ao compromisso,
ao sacrifício
ao Sim
que raramente
é Não

No seu bojo seguro
sem mau presságio
ou anúncio de naufrágio,
sabe bem navegar,
sabe bem aí estar.
E já falta pouco
um pouquinho de nada
para o destino final
a terra o bom porto
se poder alcançar

Que os trabalhadores sejam
experimentados marinheiros
de causas, dedicados tripulantes
corsários de vidas errantes
das (boas) práticas timoneiros.
Que sejam corajosos
que sejam prudentes,
talvez mais,
sejam mesmo exigentes
solidários
eternos
e companheiros

Cristiano Ribeiro Fev 2009

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

amiga é um sentimento dúbio

Amiga era um sentimento
sem fazer calor nem frio
tudo entre nós era simples
como as coisas em pousio

Foi qualquer gesto que fizeste
qualquer coisa que disseste
que mudou a situação

Amiga é um termo dúbio
desses que a língua contém
vê-se a linha de fronteira
dá-se um passo e está-se em terra de ninguém

Carlos Tê/ Rui Veloso